O ditado «De Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos» é antigo, muito antigo, e já teve uma razão de ser mas, nos dias de hoje, já pouco tem de verdade.
Boaventura Sousa Santos respondeu ao desafio da TSF e aceitou falar das rivalidades seculares entre Portugal e Espanha.
O sociólogo considera que «existe uma certa arrogância espanhola por causa do seu tamanho (geográfico) e isso vê-se através do Produto Interno Bruto (PIB) português que é cerca de 2 por cento da Europa, ao passo que o de Espanha é mais de 20 por cento». Ainda assim, Boaventura Sousa Santos depressa chega à conclusão que, «nesta altura, as rivalidades entre portugueses e espanhóis pouco ou nada fazem sentido porque Portugal criou a sua identidade história que se está a ver com a presença de capitais angolanos timorenses e brasileiros» e isso não aconteceria «se Portugal fosse parte de Espanha».
«Ainda me lembro quando os meus pais iam a Espanha comprar muitos produtos que não existiam cá» e o que é certo é que a Espanha «fez um ataque enorme a toda a nossa produção de bolachas, rebuçados e chocolates». Boaventura Sousa Santos lança uma gargalhada quando é confrontado com um sentimento de competição para com os espanhóis e afirma que «quando se aposta num mercado livre, quem tem unhas é que toca violão e isso foi o que a Espanha fez».
O sociólogo e professor catedrático refere que, em questões de rivalidade com Espanha, essa acabou quando Portugal conquistou a democracia, em 1974, e isto porque também a Espanha chegou ao final da ditadura por volta dessa altura. «Essa rivalidade anterior e esse desprezo recíproco de países que não se estimam mudou muito, na medida em que a transição democrática ocorre ao mesmo tempo».