Mario Monti, o tecnocrata que governa a Itália, confrontou ontem os italianos com a possibilidade de se suspender, não a democracia , por seis meses, mas o futebol, por três anos. Não se trata de uma proposta governamental ensaiada pelo homem que não recebe ordens dos partidos. É apenas o homem público Mario Monti interrogando-se justamente sobre se essa pausa "não beneficiaria a maturidade dos cidadãos".
Ao pensar em voz alta sobre o escândalo que determinou a detenção de 19 jogadores de futebol italianos suspeitos de envolvimento num esquema de jogos combinados, Monti expressava o que sentia enquanto "grande adepto de futebol, há muito tempo".
Numa recente manifestação organizada pela ONG Save the Children em Itália, milhares de crianças pediram a Mario Monti que não se esquecesse delas. As contas da crise dizem que uma em cada quatro crianças italianas está em risco de pobreza. Em algumas zonas, como a de Nápoles, esse risco é ainda maior. Por isso foram espalhados nas cidades italianas cartazes que interpelavam directamente o chefe de governo:"Caro Mario, recorda-te da infância". Ora, cruzando os dois momentos, lembro-me de Javier Marias ter escrito que "o futebol é a recuperação semanal da infância". Não duvido que a tristeza do grande adepto de futebol Mario Monti respondia ontem, também, aos cartazes que interpelavam a sua infância.
Isto ocorre quando um estudo da Unicef nos vem dizer que Portugal é um dos piores países europeus para se ser criança. E tudo isto, esta tristeza e o jogo combinado das estatísticas, corre diante dos nossos olhos no dia em que vemos, estacionado à porta do estágio da selecção nacional de futebol, um salão automóvel de 4 milhões de euros.