O pavão é um bicho estranho. É vistoso, delicado e, ao mesmo tempo, consegue ser assustador. É imprevisível nos movimentos, tem um olhar desconfiado e o barulho que faz (diz o dicionário que o verbo certo para o descrever é “pupilar”) remete para aqueles filmes a preto e branco a que os menos afoitos assistem com os olhos semi-cerrados. O pavão é tudo isto, mas é também o único que tem direito a ver e ouvir tudo o que se passa em São Bento.
O encontro entre Passos Coelho e Alberto João Jardim, esta semana, serve como prova disso mesmo: jornalistas à porta, pavões lá dentro; fotógrafos com campo de visão limitado pela polícia, pavões com vista privilegiada do alto dos muros do palácio; câmaras levadas ao limite da tecnologia para captar a expressão do Presidente do Governo Regional da Madeira (a uns antipáticos metros de distância e com o vidro de velho Peugeot pelo meio), pavões no primeiro degrau da escada do palácio e à distância de uma qualquer mão que se aventure a uma festa ou a uma bicada.
É difícil saber quantos são, mas é fácil reconhecer-lhes toda a legitimidade para assim se comportarem porque, afinal de contas, eles estão em casa. E é fácil, como jornalista, invejá-los: por tudo o que naquele dia viram e ouviram (e noutros, que sem esforço, nos podem assaltar a memória ainda que envolvam outros protagonistas políticos), pela forma despreocupada como deram pelo avançar da hora, por não terem sido obrigados a encarar o país à hora certa sem novidades para dar, por não terem gasto nem um minuto em exercícios de adivinhação que justificassem a demora.
Naquele dia, ao fim de 5 horas de reunião, o pavão viu Jardim despedir-se de Passos e eu não. Já em casa, enquanto engolia em seco o facto de nem sequer ter usado o microfone (porque não houve declarações aos jornalistas depois do encontro) liguei a televisão e lá estava o Presidente do Governo Regional. Foi “apanhado” pela RTP, num hotel de Lisboa, antes de regressar à Madeira. Parecia exausto. Estava com cara de poucos amigos. E eu, dei por mim a pensar: “terá Jardim levado uma bicada?”.