Era uma medida que estava a ser negociada entre os dois partidos do Governo há muito. A afirmação peremptória da Ministra da Justiça, logo nos primeiros meses de governação, de que a criminalização do enriquecimento ilícito era determinante no combate à grande corrupção e deveria ser aplicável não apenas a titulares de cargos públicos mas a todos os cidadãos, estava longe de ser consensual mesmos nas hostes sociais democratas.
A primeira preocupação do PSD foi jurídica. Apesar de Paula Teixeira da Cruz estar convencida de que o projecto era inatacável, muniu-se de vários pareceres de constitucionalistas que atestavam a constitucionalidade da proposta. A segunda preocupação era política. Como fazer passar uma proposta com a qual o CDS não concordava, sem nenhum dos partidos ficar com o ónus de ter sido derrotado.
O CDS fez o papel da dama cortejada. Fez-se difícil. A proposta era do PSD, as declarações públicas eram da Ministra do PSD, esta guerra não era do CDS. O PSD entrava para conseguir o empate, isto é, ficar com a mesma proposta que tinha quando entrou na negociação. O CDS sabia disso e fez questão de prolongar o sofrimento do PSD, tentando impor as suas condições.
As negociações decorreram a três níveis: entre deputados dos dois partidos no Parlamento, entre cada um dos partidos e o seu líder, e entre Passos Coelho e Paulo Portas. Ao longo de semanas, o pouco que saía do processo negocial: PSD "Pedro e Paulo estão a negociar"; "Pedro e Paulo estão a acertar detalhes"; "Pedro está em Bruxelas, Paulo em Nova Iorque, mas só faltam pormenores".
Tentou-se tudo para que o assunto não saísse para a imprensa. Os dirigentes envolvidos nas negociações estavam sujeitos a uma quase lei da rolha. Se alguém libertasse informação, comprometia o acordo, era o pacto estabelecido.
O CDS acabou por aceitar o que não queria. Engoliu o sapo de ter de subscrever a proposta abrangente do PSD, praticamente sem alterações, algo que sempre contestou por "ser excessivo" e poder "alimentar a bufaria da denúncia anónima". O PSD acabou por aceitar o que não queria. Engoliu o sapo de ter de subscrever a proposta dos julgamentos rápidos em 15 dias para casos de flagrante delito, sem que nunca o tivesse defendido.
Alcançado o acordo de conteúdo, passou a ser a forma a preocupar os dois partidos. Como apresentar isto publicamente sem que nenhum saía como vencedor ou derrotado. Até para isso houve negociação. Comunicado ou conferência de imprensa? A dois tempos ou em simultâneo?
Apareceram juntos, PSD e CDS. Ambos com ar de vencedores. Ambos garantiram que ninguém perdeu nem ganhou. E ambos com o ar de felicidade de quem termina uma maratona, mesmo sem saber em que lugar chegaram. Ainda não entrou em vigor mas já há uma coisa que a coligação tem a certeza. O combate ao enriquecimento ilícito dá muito trabalho.