Há coisas com que não se brinca
in Visão, por Sara Belo Luís (fotos de Luís Barra)
Quem disse que o comentário político não consegue escapar ao cinzentismo nacional? O poder está nas mãos de um Governo Sombra radiofónico

Fonte amiga garantiu à VISÃO que, todas as semanas, quase sempre pela noitinha, há um outro governo que se reúne. Discute políticas sectoriais, regulamenta legislação em vigor, define as estratégias a adoptar. As pastas são atribuídas de forma rotativa a João Miguel Tavares, Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira, os três únicos ministros, pois este é um elenco governativo multi-funcional e bastante eficiente. O jornalista Carlos Vaz Marques faz de moderador. E, segundo afiança o próprio, de «garante da seriedade».
O dever de informação obriga-nos a sossegar os leitores, assegurando que não existem golpes de Estado a ser preparados. Pelo menos, com a cumplicidade da VISÃO. Uma síntese das reuniões deste conselho de ministros é depois tornada pública, através da antena de uma rádio. Pode até acontecer que das resoluções do Governo Sombra - assim se chama o novo programa de comentário político da TSF (passa às sextas-feiras, ao fim da tarde, repete aos sábados e também está disponível em podcast) - saia qualquer coisa de benéfico para os destinos da nação. Depois de termos assistido à última edição, aqui se dá conta do que se passa nos bastidores do (contra)poder. Respeitando a confidencialidade, tentaremos não revelar segredos de Estado.
À zona da Matinha, onde em Lisboa se situa a redacção da TSF, começam por chegar João Miguel Tavares e Pedro Mexia. O primeiro ficará com o ministério da República dos Açores. O segundo, com a cultura. Ricardo Araújo Pereira, que hoje será o titular da pasta da Defesa, está atrasado (parece que é costume). Gravam de véspera a reunião do Governo Sombra. «É o décimo programa regular», explica Carlos Vaz Marques uma vez que, na noite das eleições americanas, houve uma edição especial. Fala-se sobre a possibilidade se passarem a incluir assuntos futebolísticos, comentam-se as reacções dos ouvintes (chegadas através do blogue do programa). Até já tiveram honras das bloguers Rititi e SushiLeblon. Nota de rodapé do moderador: «Isto está de facto a internacionalizar-se». Quando Ricardo chega, os restantes membros do governo encontram-se no estúdio, de bloco de notas aberto. Ficamos cá fora. Onde, além de se poder tossir, também se pode exercer o direito à indignação de viva voz. Não há mais tempo a perder: «Está reunido o Governo Sombra».
O divórcio de Oliveira e Costa
Carlos Vaz Marques, um moderador bastante discreto, não se perde em considerações. E trata de assegurar o regular funcionamento das instituições. Tem a palavra o titular da pasta da Defesa que, pela voz de Ricardo Araújo Pereira, o ministro mais à esquerda de todo este governo, expressa o seu desejo de «ver o primeiro ministro da Defesa a ter conhecimento de aviões da CIA a passar por Portugal». Já vai sendo hora de passarmos a ter «turistas de pé acorrentado» em vez de «turistas de pé descalço». João Miguel Tavares diz que, nesta matéria, não esquece a sua «costela de realpolitik»: afinal, Guantánamo não está quase a fechar?

A ordem de trabalhos prossegue e, em seguida, João Miguel Tavares admite que está baralhado com o estatuto dos Açores. «Por mais voltas que dê à moleirinha, não sei o que é que hei-de pensar». Trata-se de «uma questão fracturante» (Ricardo Araújo Pereira) e pode ser o fim da «cooperação estratégica» (Pedro Mexia). Quando não é membro do Governo Sombra, Pedro Mexia ocupa agora o cargo de subdirector da Cinemateca. Impõe-se, por isso, um esclarecimento: «Muito servilmente, digo que o ministério está muito bem entregue. Sua excelência o ministro da Cultura sabe o que está a fazer». Feita a salvaguarda, chama a atenção para o novo museu de arte africana, um projecto «bastante bizarro tendo em conta o estado dos museus». «É a escola Carlos Pinto Coelho da lusofonia», defende.
A política à portuguesa não é muito dada ao humor. Subtilezas não são muito apreciadas e a ironia é quase sempre levada à letra. Há coisas com que não se brinca (e o respeitinho é muito bonito). Convém ainda recordar que, em tempos de maiorias «laranja», já houve demissões ministeriais por causa de anedotas (de profundo mau gosto, é certo). Os membros do Governo Sombra não só têm estados de espírito como os confessam em público. Ricardo sente-se «impressionado» com a capacidade de o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, fazer afirmações sobre o caso BPP e, de imediato, dizer exactamente o contrário. Pedro Mexia admite estar «escandalizado» porque, «na mesma semana em que entra em vigor a Lei do Divórcio, anuncia-se que o Estado vai tentar anular o divórcio de Oliveira e Costa»: «O Estado está a emitir sinais confusos aos portugueses». Por fim, João Miguel Tavares está prosaicamente «feliz» com a atribuição da bola de ouro a Cristiano Ronaldo, que «precisava desesperadamente daquele título».
A Hillary faz falta
Há dois meses que este elenco governativo se reúne. Dizem eles que nem definiram o tom do programa, mas, logo no primeiro encontro, houve quem os enfiasse no privado de um restaurante lisboeta como se de uma conspiração se tratasse. «Conversa de café sofisticada», na definição do «obama maníaco» João Miguel Tavares. Um espaço de humor ou de comentário político? «É a tradição anglo-saxónica», lembra o mais conservador, Pedro Mexia. Carlos Vaz Marques não tem dúvidas: um programa de comentário político. Mesmo que, para a geração de 70 (à qual pertencem os membros deste governo, todos na casa dos 30), um e outro sejam indissociáveis. Mesmo que haja quem ache que isto não passa de um exercício de «engraçadismo», para usar uma conhecida expressão que Pacheco Pereira aplicou à blogosfera. Aos «engraçadistas», com muito gosto, consola-os o facto de haver ouvintes (muitos adolescentes, diz Carlos Vaz Marques) a dizer que querem fazer parte deste governo.

Próximo do final, telegraficamente, passam-se em revista alguns dos temas da semana. Do Congresso do PCP à entrada de Hillary Clinton na equipa-maravilha de Barack Obama. Todos em sintonia: «Yes, we can» (Obama), «sim, é possível» (Jerónimo de Sousa), «Sim, nós podemos» (José Sócrates). Sobre a nomeação de Hilary para secretária de Estado, pergunta João Miguel Tavares: «É pôr a raposa no galinheiro?». Ricardo Araújo Pereira alerta: «Espero que não seja um caso de 'a Hillary faz falta'». E Pedro Mexia observa que a renovação anunciada pelo presidente eleito já começa a ficar para as calendas: «A administração Obama é uma espécie de administração Clinton 3».
Faltam ainda os decretos. Por sinal, nada burocraticamente aborrecidos: Pedro decreta o visionamento de quatro dvds sobre escritores portugueses (uma colecção Midas/Fnac) e Ricardo decreta a leitura de O Festim da Aranha (na tradução de Aníbal Fernandes, publicada pela Assírio & Alvim). João Miguel Tavares, auto-denominado «o gajo que faz a ligação com o povo», decreta que passem a tratar-se por «senhor ideólogo» (Pedro Mexia), «senhor humorista» (Ricardo Araújo Pereira) e «senhor crítico» (ele próprio). Seguiu a sugestão de um ouvinte. Em off, fontes próximas garantiram à VISÃO que os ouvintes da Quadratura do Círculo (actual versão televisiva) ou do Flashback (antiga versão radiofónica) não sugerem coisas destas.