Vou candidatar-me à Presidência da República. É um emprego bem remunerado, não dá trabalho nenhum. Nem consigo perceber como não há mais candidatos. Aquilo é mesmo uma coisa realmente fácil. Não é preciso pensar muito, nem trabalhar muito, nem esforçar-se muito.
E porque é que eu faço estas afirmações? Simples. Depois de um estudo pouco aturado e de uma observação discreta do que faz e diz o nosso Presidente Cavaco Silva, percebi o mecanismo, topei os tiques e tenho a certeza de reunir condições para o cargo.
[…]
E o presidente, o nosso, o actual (que é o meu ídolo, acho-o mesmo um arquétipo, tudo aquilo para que tendem, tendiam, ou deviam tender todos os anteriores e futuros presidentes) é magistral, devo confessá-lo.
Por exemplo, o presidente ouviu os responsáveis, o presidente tem oito dias (ou vinte ou trinta, qualquer coisa, mas isso não interessa, alguém lho diz, um jurista ou mesmo a esposa) para tomar uma decisão importante e profunda.
Os jornalistas assediam-no, impacientes, então e agora, sr. Presidente, diga lá como é que é, o que vai ser? O Presidente Cavaco Silva sorri, sorri sempre, com aquele sorriso sedutor e inteligente que lhe é peculiar, seja o que for que afirme, que vá comunicar à imprensa ou ao povo português e diz:
- O Presidente - ele fala sempre na terceira pessoa, é muito desprendido - o Presidente tem oito dias para tomar uma decisão que deverá ser de acordo com a sua consciência e que deve passar pelos órgãos competentes e próprios - os órgãos aparecem sempre, a sua invocação é obrigatória, afinal não custa nada.
Ou então:
- O Presidente deseja que os poderes políticos actuem em harmonia com os seus deveres e de acordo com os direitos dos cidadãos - às vezes aqui, abandona o sorriso e propõe-se um ar sério, preocupado e tendencialmente reservado.
Outro exemplo:
- O Presidente acha que nos caso de dúvida, são os tribunais a dizer de sua justiça, uma vez que eles existem e para tal foram criados - e perante afirmações deste teor, quem é que o pode pôr em causa?
Por vezes não se contém e acrescenta coisas do género: que depois de ouvir os interessados optou por achar que se deve agir com contenção e prudência. O presidente propõe então uma conciliação nacional, apraz-se com o bem estar de todos nós e responde, já no final destes tête-à-tête e com toda esta magistral clareza:
- Quando existem divergências na sequência de um pacto anteriormente assinado, as forças políticas devem sentar-se à mesa e verificar onde existem desentendimentos (sic).
La Palisse, o Conde de Abranhos e o Conselheiro Acácio são deixados a perder de vista, não têm cabimento, hipótese, comparação sequer, perante a autoridade destas e de outras palavras. Judiciosas ou não, acham que é uma coisa difícil?
Além de não ter responsabilidades nenhumas, não mandar em coisa nenhuma, não decidir coisa nenhuma, não gastar dinheiro nenhum, não ter piada nenhuma nem achar piada às coisas que têm piada, só tem que decretar o que os outros decretarem, assinar o que os outros lhe escreveram para assinar, promulgar (adoro esta palavra!) o promulgável, sorrir fora dos contextos do sorriso, sorrir sempre, como se tivesse achado graça seja ao que for sem graça, dizer umas frases quaisquer quando vai a uma exposição de pintura, fazer de vez em quando um ar sério ou compungido - o que é que isso custa?
Com um pouco de treino qualquer pessoa lá chega. Passado algum tempo, as frases, os tiques, os esgares e os sorrisos surgem naturalmente e eu acho que ainda estou em muito boa idade para dar o meu melhor por este meu querido país.
Preciso do vosso apoio, arranjem-me as 5000 assinaturas, afinal somos tantos, o que é que custa a esta malta, é tudo malta do Técnico.
Juro que não me esqueço de vocês, acho que quando eu for Presidente da República vamos todos divertir-nos imenso. Carlos Reis, idade: muita, profissão: reformatado, Lisboa