Alguém disse um dia que o futebol, entenda-se os seus actores, representa e amplia as taras de uma sociedade. Eu diria, da mesma forma, que os políticos representam e ampliam todas a perversões de uma sociedade, não se ficando portanto só pelas taras.
Quando nos referimos a eles, os políticos, que retêm para si parte do dinheiro de campanhas, falamos da vez em que no café CáTeMiro, o Zé Caldas explicou como apareceu proprietário da Boss do Chico Rino:
- Ela apareceu estacionada à minha porta, pensei que era para mim, costuma ser assim!
Foi uma risota e o Chico Rino considerado o totó do mês com direito a foto ao lado da do empregado do mês, que por acaso era ele. Logo, com o direito a duas fotos emparelhadas, que embora iguais, representavam estados de alma contemporâneos bem distintos.
Quando nos referimos a eles, os políticos, falamos do Pedro Feliciano, amigo do padre, que conseguiu ser o organizador da verbena de Maio, e como ajudantes conseguiu a maior parte dos galhos da sua árvore genealógica viva. Crê-se, no entanto, que foi a bisavó Lucas, de 113 anos de idade, que montou e explorou durante dias a roda da sorte. Foi um sucesso, tudo bem explicado no livro de contas. Em Junho foi lançada a primeira pedra para o anexo à igreja. Vinte anos depois, após a verbena de Maio, foi lançada a segunda pedra. Foi mais caro, não só pela inflação natural mas porque foi muito difícil dar com a primeira pedra.
No CáTeMiro ainda hoje se contam, com grande emoção, as façanhas contabilísticas do Pedro Feliciano e as da longevidade da bisavó Lucas, agora com 133 anos de idade.
Quando nos referimos a eles, os políticos, falamos da Dª Mariazinha que vendia senhas de um e dois módulos dos STCP à unidade. Varria as ruas da vila com o seu avental de dois bolsos. No direito, com o I romano bordado, as de um módulo. No esquerdo, com o II romano, as de dois módulos. Não tinha como enganar. Dizia que não vendia as de três módulos porque não ganhava para cozer mais bolsos.
O seu QI era o de um sagui e os modos, os de uma outra espécie de sagui, ou vice-versa, mas aprendeu a cortar bem pelo picotado e enquanto o marido se perdia na organização dos lendários plenários sindicais dos STCP ela era a coitadinha a quem se compravam senhas para usar de quando em vez e que levava sempre mais qualquer-coisinha e a gente achava-lhe piada. Também passava no CáTeMiro, nunca entendi bem porquê.
Quando nos referimos a eles, os políticos, falamos da fuga do Lúcio para o Brasil. O seu primo, o Rui “Moina”, polícia de giro, correu, nunca ninguém o tinha visto correr, a avisá-lo que a Amélia tinha botado a boca no trombone quando o apanhou com a irmã em frente ao “Claro”.
Toda a gente já sabia o que já se sabia, que o Lú da titi Ranha, orientava televisores a cores ao pessoal do CáTeMiro, aparelhagens com “surround” e outros electrodomésticos emergentes. Foi o técnico de som de muitas campanhas eleitorais.
O totó do mês foi uma vez mais o Chico Rino, quando apareceu com um auto-rádio “novo” já com a pré-selecção de estações do seu, recentemente roubado.
Na rusga à casa do Lú foi encontrado um pequeno saco atado com cordel, bordado com o emblema do clube regional onde alegadamente reunia alguma liquidez alegadamente sem destino.
Sem relação aparente, foi encontrado também um livro de mercearia escrito com a mão esquerda da direita para a esquerda, onde constavam as alcunhas dos frequentadores do 3º turno do CáTeMiro e seus saldos contabilísticos. Dois anos depois acedeu em regressar para o julgamento. Após o veredicto que o deu como culpado e inocentou o primo, foi condenado a prisão domiciliária. De tanta felicidade, enfiou uma das pernas num balde de limpeza e deslizou durante metros pelos corredores do tribunal. Sem se desfazer gritava:
- Eu sempre falei a verdade.
Durante dois anos partilhou o corpo com uma pulseira electrónica, um colar cervical e um televisor sintonizado no Reality TV. Ainda hoje o vemos encostado à montra do CáTeMiro, de SuperBock na mão e nos dentes um palito com restos do pica-pau da noite.
Afogado nas “bisgas” que lhe debruam as sandálias, repete as mesmas histórias vezes sem conta. Uma delas, recorrente, muito curiosa, coloca a ex-sua Amélia como o cérebro das escutas no gabinete do PGR.
No CáTemiro existe o "cantinho do democrata", onde é possível afixar mensagens, existe honra. No cabeçalho daquele 1x1 de cortiça a nu está um "post-it": "Quando nos referimos a eles, os políticos, falamos de nós mesmos; para que mudem temos que melhorar, para que desapareçam temos que votar". Cláudio Ribeiro, 42 anos, empresário de restauração, Gondomar