Eu sabia que um dia tinha de comentar algo. Custou mas ao fim destas emissões todas não me aguentei.
Pois é, sou militar, e já por várias vezes ouvi vastíssimos comentários sobre a temática, tanto pela parte dos fantásticos comentadores (sem ironia), deste programa quer em outros. Uns cheios de razão, outros com um desconhecimento atroz.
Para abordar todos os temas, certamente não tenho nem pachorra nem escrita suficiente (até porque sou militar, logo um tanto ou quanto limitado, como já por várias vezes foi, digamos, sugerido).
Vou comentar apenas uma frase proferida no vosso último programa em relação aos acontecimentos do Colégio Militar (CM), instituição que não conheço, mas que respeito tanto como respeito outras instituições, como escolas secundárias públicas, universidades, etc., onde como todos sabemos, se passam situações idênticas às passadas no CM, bem sei que comentado e criticado por vós.
Mas o que me indignou foi o facto de ainda ouvir aquele argumento jurássico de que "vou para a tropa para ser um homem".
O meu avô falava assim, é verdade, no entanto sou militar há 15 anos e nunca como aluno, operacional ou formador que sou, actualmente, ouvi semelhante coisa.
Quem nos educa, são os nossos pais, a nossa família, o meio onde crescemos e estamos inseridos, enfim a sociedade.
Quando hoje um homem ou uma mulher chegam à «tropa» já vem formado e muitas das vezes, julgo que a maior parte, mal formados, e é já manifestamente impossível fazer dessa pessoa um militar, daí o elevado número de desistências nos diversos ramos.
Hoje em dia, a formação está totalmente diferente, muito mais profissional, sem as atrocidades de outros tempos. Não sou um saudosista mas garanto-vos que passamos do 80 para o 8 e o salto foi demasiado violento, muitos dos valores saudáveis da vida militar, o treino rigoroso, a disciplina, o sacrifício pessoal em favor do bem colectivo está hoje em dia em desuso.
Não defendo obviamente a violência gratuita, e muito menos em crianças como no caso do CM e entendo que os responsáveis devem ser sempre exemplarmente punidos.
Mas uma coisa é certa, só um verdadeiro militar compreende certas regras, certos treinos, certos sacrifícios, certas exigências, daí nem todos termos «feitio» para tal. É discutir o sexo dos anjos, é discutir Saramago vs Deus.
Reforçando, tudo contra a violência gratuita, mas não nos tratem a todos como uns retardados que viemos para a «tropa» para ser «homens».
Existem muitos homens e mulheres nas Forças Armadas que são excelentes profissionais e pessoas que não merecem ser colocadas no mesmo saco de uns putos imaturos que com 15 ou 16 anos pensam que é à galheta que formam um bom militar e que incutem o verdadeiro espírito de corpo, união e camaradagem militar. Nuno Sousa, 35 anos, militar, Charneca de Caparica