Com Luís Freitas Lobo e João Rosado, sob a arbitragem de Mário Fernando

Às segundas, depois das 19h, com repetição depois da meia-noite.

Luís Freitas Lobo

Nasci em 1967. Em 1970, portanto, já estava presente para testemunhar as maravilhas de Pele, Jairzinho, Tostão e companhia no Mundial do México. Ainda não conseguia, no entanto, ver os jogos sob uma perspectiva táctica. Agora, como os tenho todos gravados na minha colecção particular de vídeos, vejo-os religiosamente. Como se viajasse no tempo e visse Puskas da mesma forma que hoje vejo Kaká. Para mim, mais do que cinco continentes e sete mares, o mundo é um infinito conjunto de campos de futebol com muitas casas á volta e desde 1998 que tenho procurado, em vários meios de comunicação, passar essa emoção. Porque, como gosto de dizer 'Quando um homem tem uma paixão, seja ela qual for, o melhor que tem a fazer é ir tratar dela!'
Da Revista Mundial e Publico, até ao Expresso e à sagrada A Bola, a Bíblia com que em menino aprendi a escrever lendo Mestres como Vítor Santos. Na rádio da Antena 1 à TSF, na televisão, da SIC Noticias até à RTP, onde hoje estou. Todos os dias penso em futebol. Por isso, em qualquer local, falo ou escrevo sobre futebol, partindo sempre da única forma que o entendo ser possível conceber: com emoção.

João Rosado

João Rosado nasceu em Évora, em 1970. É licenciado em Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Entre 1988 e 1992 foi colunista no jornal «A Capital». Foi redactor no jornal «Record» entre 1992-1995 e 2003-2004. Entre 1995 e 2002, foi redactor e editor no jornal «O Jogo». Desde 2007 é colunista no jornal «Diário de Notícias. Foi comentador de futebol na «Antena 1» entre 1999 e 2000, na «Rádio Renascença» entre 2001 e 2004, na Sport TV entre 2001 e 2007. É comentador de futebol na SIC, desde 2007, e na antena da TSF desde 2004.

Mário Fernando

Jornalista há 27 anos passou a maior parte da vida profissional na rádio. Comercial, Renascença, RFM, Correio da Manhã e XFM até aterrar na TSF. Foi em 1995 e, três anos depois, passou a editor de Desporto. Até hoje. É um fanático por futebol, por isso, não tem paciência para a forma como os dirigentes tratam a coisa, ou seja, quando resolvem que os clubes deles é que contam e o resto é paisagem. Não é, mas isso eles jamais vão entender. No meio de tudo isto houve três reportagens que o marcaram: a primeira visita de Nelson Mandela a Londres depois da libertação e duas edições dos Jogos Olímpicos, Sidney2000 e Pequim2008. Curiosamente, nenhuma delas tem a ver com futebol.

Caminho aberto

Colocado por mario.fernando em 21-08-2014 às 01h03

Estavam demasiadas questões em jogo. Este play-off de acesso à Champions colocava ao FC Porto a necessidade (melhor dizendo, obrigatoriedade) de fazer um resultado que o deixasse numa posição tão segura quanto possível para a partida da segunda mão. O plano desportivo era tão importante como o financeiro. Depois de terminado o desafio, com uma justa vitória dos dragões, percebeu-se que a preocupação de Lopetegui foi, acima de tudo, não errar.

O domínio que o FC Porto registou durante quase todo o jogo derivou da posse e circulação de bola. O raciocínio de que enquanto ela está "deste lado", nada sobra para o "outro". A entrada de Casemiro é feita com esta intenção, libertando Ruben Neves para outras zonas do meio campo sempre que necessário (e o rapaz voltou a mostrar que, se não se deslumbrar, é um caso demasiado sério).

Com Herrera mais adiantado, Óliver e Brahimi descaídos - mas sempre com derivações para o interior - e Jackson na frente, os dragões tomaram conta das operações praticamente na íntegra. Acresce o papel que Lopetegui atribui aos laterais, vendo-se Danilo e - sobretudo - Alex Sandro a regressarem a tempos que já pareciam longínquos. 

Este é um lado da situação. Mas ainda não sei se esta é a matriz definitiva que Lopetegui quer para a equipa, porque falta ali profundidade de jogo. Ter muita bola e gerar poucas situações passíveis de concretização é ainda um projeto incompleto. Faz parte do processo de construção, é verdade, mas as nuances que homens como Tello (viu-se no lance do golo e não só) ou Quaresma podem introduzir, certamente também estão no enquadramento do técnico. Não estou a ver o FC Porto a jogar na fase de grupos exatamente do modo como o fez em França. Mas, reconheço, as condicionantes específicas desta partida determinaram muita coisa.

É certo que a equipa portuguesa é altamente responsável pelo facto do Lille pouco ou nada ter produzido. Ainda assim, ver jogadores como Kalou ou Origi com problemas para sair do beco, ou Balmont, por quem era suposto passar boa parte do jogo francês, sem ponta de criatividade, é também elucidativo quanto ao estado real do Lille. René Girard quis esperar pelo erro alheio, em vez de ousar algo. Corchia teve a única oportunidade da primeira parte e, na segunda, foram as duas intervenções deficientes de Fabiano que ainda agitaram alguma coisa. Muito insuficiente para quem jogava em casa à procura de um resultado, pelo menos, satisfatório.  

A maior surpresa do jogo, contudo, aconteceu antes dele começar. Quaresma ficou no banco, o que, desde logo, confirmou a declaração anterior de Lopetegui de que não há titulares fixos na equipa. Quaresma é um jogador cujo perfil indicia não gostar de sair a meio de uma partida, quanto mais começar no banco. E isto o técnico sabe. Fica a ideia de que o treinador quer utilizá-lo em jogos concretos, consoante as circunstâncias. O sucesso desta relação depende somente da aceitação daquela premissa pelos dois lados. Aguardemos.

Posto isto, o FC Porto está numa posição altamente vantajosa para entrar na fase de grupos. Pelo que mostrou neste encontro, o Lille não parece ter argumentos suficientes para virar a eliminatória no Dragão. No entanto, os portistas têm de interiorizar que um bom avanço não implica tranquilidade absoluta.  


Voltar a casa

Colocado por mario.fernando em 19-08-2014 às 22h57

1 - É a contratação mais surpreendente da temporada e, para o Sporting, a aquisição do ano. Poucos imaginariam, no final da época passada, que um conjunto de factores, impossível de prognosticar, traria Nani de regresso a Alvalade.

Que Van Gaal poderia não incluir nos seus planos o internacional português era plausível, mas imaginar que o Manchester United iria apostar em Marcos Rojo, que este (com ajudas "laterais" à mistura) confrontaria a direção leonina, que Bruno de Carvalho desse a volta às negociações, e que, finalmente, Nani aceitasse regressar a casa, com os ingleses a pagarem-lhe os ordenados, é que, convenhamos, ninguém contava.

Nani é uma mais valia inequívoca para o Sporting. Independentemente do momento de menor fulgor que atravessa, a superior qualidade técnica coloca-o como um dos melhores jogadores portugueses da atualidade, um dos tais que, não houvesse a tal conjugação impensável, seria impossível ter na Liga nacional. É uma mudança com múltiplas vantagens para as duas partes. E foi nisto que os dois lados pensaram.

Começando pelo jogador, sabe que não é difícil brilhar, do ponto de vista individual, no campeonato português. Neste momento, só (e com alguma boa vontade) uma dezena de futebolistas da nossa Liga pode ser considerada de elite. Tudo depende da maneira como ele quiser encarar esta oportunidade.

Por outro lado, Nani será sempre visto como a figura do Sporting desta temporada, com a responsabilidade suplementar que tal acarreta, mas também com a notoriedade que isso lhe dará. Nani pouco ou nada perde com esta opção : o ordenado mantém-se, a ligação contratual ao Manchester United também e até lhe junta o facto de estar na montra que interessa, a Liga dos Campeões. Sem excluir a afectividade, este é um conjunto de razões a não desprezar por um atleta.

Para o Sporting os proventos são evidentes. Alguns já foram referidos acima, os restantes prendem-se com questões internas. Os leões, que iniciaram o campeonato com um empate, ganham um outro alento no ataque ao que aí vem. Mas há mais e (muito) mais importante : Bruno de Carvalho, numa jogada negocial relevante, desatou um nó com benefícios para a equipa. Arrumou o problema Rojo - que não tinha condições objetivas para continuar em Alvalade - , conseguiu trazer um reforço de enorme peso e ganhou pontos junto dos adeptos ao desviar parte da verba recebida para a construção do pavilhão. O presidente leonino, no imediato, operou uma viragem psicológica, cujos resultados só mais adiante é possível aferir.

Claro que há um assunto longe de encerrar, o diferendo entre o Sporting e a Doyen, mas já se percebeu que ficará nas mãos da Justiça...até um dia. Logo se verá. No entretanto, o clube deu um passo incomum na construção do plantel. Nani não é a solução de todos os problemas, mas certamente poderá ser a chave para a resolução de alguns.

2 - Julio César chegou ao Benfica, um ano depois de uma primeira tentativa. Muita coisa se passou durante este tempo, mas focando-nos estritamente nos desenvolvimentos mais recentes, há aqui uma alteração de paradigma. Saiu um jovem de qualidades visíveis, Oblak, para entrar um veterano (o que nem é pejorativo num guarda-redes). Até que ponto terá pesado a opinião de Jorge Jesus desconheço, embora não seja segredo para ninguém que o treinador encarnado demorou a "convencer-se" da capacidade de Oblak e que, pelo contrário, sempre apreciou o titular da baliza brasileira.

Jesus quer resultados imediatos - tão garantidos quanto possível - e, desde os tempos de Quim, que insiste na necessidade do Benfica ter um guarda-redes que lhe dê pontos. Já deu alguns passos em falso ao tentar aplicar a sua convicção, só o futuro dirá se Julio César é a aposta certa. Mesmo que por dois anos.

3 - Lopetegui não quer discutir o papel de favorito no play-off da Champions, mas assegura que quer ver o FC Porto como protagonista da prova. O técnico está mais ciente do que qualquer outro da importância determinante desta eliminatória com o Lille. Para o clube e para ele próprio. Ou seja, o risco dele é o risco do clube.

No plano puramente teórico, o FC Porto tem melhores armas do que a equipa francesa. Ainda assim, isto de pouco vale se a componente individual não souber potenciar o coletivo. É esta a principal questão para o duplo duelo que se avizinha. É bom que o FC Porto não esqueça que, apesar da segunda mão ser no Dragão, tem de começar a ganhar a eliminatória em Lille. 


Novo Jogo

Colocado por mario.fernando em 18-08-2014 às 20h04

O Jogo Jogado regressou à antena da TSF. Na primeira edição da temporada o ponto de situação em relação ao momento dos três grandes.

Os jogos já realizados na nova época, os que aí vêm, as mudanças nos plantéis e - o tal problema crónico a meio de Agosto - o risco de mais alterações até final do mercado. Risco de saídas, obviamente, que as possíveis entradas é suposto acrescentarem algo. Também o papel a desempenhar por Jorge Jesus, Marco Silva e Julen Lopetegui foi alvo de abordagem. Timoneiros que, nesta altura, ainda não sabem rigorosamente com que tropas vão contar.

 


Ganhar a abrir

Colocado por mario.fernando em 18-08-2014 às 02h08

Quase a tocar uma década, o Benfica consegue finalmente ganhar um jogo de abertura do campeonato. O objetivo central da conquista dos três pontos foi atingido, ainda que a produção apresentada pelos encarnados não tivesse sido tão marcante como se vira na Supertaça. Desta feita, foram os valores individuais a emergir e a desequilibrar a balança, de Gaitan a Maxi, de Salvio a...Artur. E frente a um Paços de Ferreira - outra vez em versão Paulo Fonseca - que provocou muito mais incertezas às aguias do que estas contariam.

Aliás, deve começar-se precisamente pelos pacenses, cujos primeiros 25 minutos, assentes num 4x4x2, impediram sobretudo o meio campo adversário de, sequer, ameaçar a cadência demonstrada uma semana antes em Aveiro. É neste período que a equipa de Fonseca constrói algumas boas oportunidades, culminando numa grande penalidade que Artur negou a Manuel José. Um momento importante da partida, em que o guarda-redes teve um papel determinante, ele que sabe ter um futuro deveras complicado na Luz, face à iminente entrada de...um titular para a baliza.

Jesus manteve o mesmo onze, como se previa, embora, como o próprio admitiu no fim, Enzo Perez - por limitação física, pelo menos - não estivesse no nível habitual e Talisca ainda tenha bastante para evoluir, o que transformou Ruben Amorim no único elemento da zona central com capacidade de resposta suficiente. Não por acaso, o recuo de Talisca e a subida de Enzo constituiu uma troca com vantagens notórias a partir da meia hora. Já no segundo tempo, com André Almeida a médio defensivo e Ruben Amorim mais subido, o Benfica estabilizou e a intenção ofensiva do Paços foi caindo.

No entanto, entre os que transitaram da temporada passada, há nomes determinantes. Gaitan, cuja classe tantas vezes foi decisiva no Benfica, assumiu-se como o "responsável" pela subida gradual da equipa, pontuada por dois momentos vitais, quando fez uma tabela com Maxi e quando colocou a bola na cabeça da Salvio. Dois golos e a solução encontrada.

Mesmo sem brilhantismo, o Benfica ganhou. Depois do triunfo do FC Porto e do empate do Sporting, o campeão sabia que o início da defesa do título passava necessariamente por um triunfo. Mas não apenas por aquela razão. É cada vez mais plausível que até ao final do mês muita coisa mexa do plantel e, por consequência, na equipa. O guarda-redes, o médio defensivo, um atacante e, eventualmente, a sucessão de Enzo Perez. Enquanto a situação não se clarificar, somar três pontos em cada partida é uma salvaguarda. Com ou sem notas artísticas.


Entrar em falso

Colocado por mario.fernando em 17-08-2014 às 01h20

O Sporting culminou uma semana internamente instável, com uma entrada no campeonato em que não fez mais do que um ponto. Mau início, sobretudo se constatarmos que a Académica é uma equipa quase nova, ainda longe de estar estruturada e com deficiências visíveis. Só que os leões, com grande dose de responsabilidade própria - a expulsão de William Carvalho é o caso mais flagrante - , foram deixando fugir o bom andamento da primeira meia hora. E os factores existem.

O facto da equipa transitar quase incólume da temporada passada tornou-se no principal trunfo leonino. Mas isto contemplava o pleno, ou seja, os seus melhores. Acontece que, logo à cabeça, Rojo e Slimani ficaram fora - pelos motivos conhecidos - e, como se viu, ter Maurício com Sarr não é a mesma coisa, tal como Montero parece não se libertar das suas próprias amarras desde o início do ano. Acresce que William Carvalho também não está, ainda, ao seu nível. Junte-se a lesão prematura de Cédric - e a entrada de Rosell, à falta de alguém no banco para a lateral direita - que também não veio ajudar, pelo contrário.

Depois, a insensatez de William Carvalho. Num período em que a Académica já equilibrava as operações, o internacional português resolve fazer o impensável num lance no meio campo do adversário. Foi um momento determinante no jogo, porque as hipóteses do Sporting chegar ao segundo golo eram perfeitamente viáveis e, assim, do ponto de vista estrutural, nada poderia voltar a ser como era. Rosell teve de ocupar a posição de William e Paulo Oliveira lá foi chamado para a lateral. André Martins saiu e os embaraços subiram de grau. 

Finalmente, a opção tática de Marco Silva quando a equipa ficou reduzida a dez. Quis correr o risco de entregar a zona intermédia a Rosell e Adrien, sem mexer no trio ofensivo, quando se admitia a saída de Montero, para que o meio campo não oscilasse, ficando a resolução ofensiva entregue à velocidade de Carrillo e Capel. Enquanto isto, Paulo Sérgio reforçava o ataque e a faixa central. A consequência foi a complicação em que se tornou todo o processo defensivo dos leões. E nem a magistral intervenção de Rui Patrício a remate de Magique serviu de alerta.

Uma nota ainda sobre a arbitragem. Para lá do lance de Iago e Heldon na área da Académica existe, ainda na primeira parte, uma mão óbvia de Jefferson, na área leonina, que Artur Soares Dias não assinalou. Interpretou à luz da tal norma que condiciona a grande penalidade à "intenção deliberada" do jogador. Desde que esta indicação surgiu que nunca tive dúvidas de que daria asneira.    

Com esta entrada em falso o Sporting terá de repensar algumas coisas. O próximo adversário é o Arouca, em Alvalade, e talvez não seja um grande problema para a equipa leonina. Seja como for, que ainda era necessário afinar alguns processos já se sabia antes do campeonato arrancar. Mas, nessa altura, não existiam as "equações" Rojo e Slimani, nem William Carvalho estava fora dos planos. Nem, tão pouco, se pressentiam as dificuldades em lidar com antagonistas que sobem no terreno. Marco Silva precisa de ponderar nas soluções.


Para começar

Colocado por mario.fernando em 16-08-2014 às 00h19

1 - Sem surpresa, começou o campeonato e o FC Porto estreou-se a ganhar. A diferença entre a atual equipa do Dragão e a do Marítimo é tão notória que ninguém teve grandes dúvidas sobre quem ficaria com os três pontos, aquilo que verdadeiramente conta. Mas mais importante era ver a aplicação coletiva do investimento individual feito no plantel. Lopetegui sublinha que ainda há muito trabalho para fazer - e tem razão - , que ninguém pode reivindicar a titularidade permanente, mas já deu para perceber várias coisas.

Primeiro, que a composição do plantel se realizou mesmo em função da ideia de jogo do treinador. Como se constatou, dá para começar com Ruben Neves (dificilmente poderia ter estreia mais marcante) como médio defensivo, depois colocar Casemiro nesta posição e adiantar o (muito) jovem portista para o lugar de Herrera, entretanto retirado, e mais tarde fazer avançar Evandro para substituir Ruben. Ou trocar Brahimi por Tello, sendo que o argelino (que fez um ótimo jogo) até pode alinhar numa zona mais central do terreno.

Por este lado, o técnico não pode queixar-se, bem pelo contrário. Não é muito vulgar um clube, nos dias de hoje, dar a um treinador praticamente tudo o que ele quer. Até Clasie é bem capaz de estar à porta. Certo que Pinto da Costa "tem" de jogar as fichas todas nesta temporada, mas mesmo assim...

De qualquer forma, o FC Porto, apesar de muito melhor plantel do que na época passada - e, consequentemente, podendo formar uma equipa mais forte - precisa de fazer o seu caminho. Certamente, Lopetegui terá reparado nalgumas dificuldades quando o Marítimo subiu mais no terreno, num ou noutro percalço na zona recuada (derivando do processo defensivo, até mais do que dos centrais propriamente ditos) e igualmente na importância de Jackson estar inspirado. Com o colombiano em pleno há "mais baliza", o que nem sempre sucedeu no encontro com os madeirenses.  

Arrumada a abertura do campeonato, vem aí o primeiro teste de fogo : a entrada na Champions. O duelo com o Lille é crucial para a temporada dos dragões e será, já sem rodeios, o exame inaugural para Lopetegui em termos europeus.

2 - Luis Filipe Vieira falou e, como se previa, a entrevista conteve dados importantes. Quanto às questões financeiras confirmou-se o cenário que me parecia mais plausível : com ou sem BES, a massa salarial da Luz teria necessariamente de reduzir, sendo que o presidente encarnado até foi mais longe referindo que, na próxima época, vai continuar a baixar.

No entanto, a minha leitura é que houve uma espécie de dois-em-um nesta referência. Vieira já está a posicionar-se para uma futura (re)negociação com o Novo Banco (novo empréstimo obrigacionista?), adiantando desde logo que o Benfica vai ter muito cuidado com as despesas. Ou seja, a posição que um "cliente bom" tem. Além de que insistiu no facto do clube ter pago, sem falhas, 200 milhões de juros. É um recado à entidade bancária, sem dúvida, embora as atuais interrogações estejam muito mais do lado do banco do que do Benfica. É Vitor Bento quem tem de clarificar o que pode - ou quer - fazer em relação ao futebol neste entretanto, isto é, até se saber quem vai comprar o Novo Banco, quando, por quanto e como.

No plano estritamente desportivo, o ponto em que o líder encarnado não foi muito convincente relaciona-se com as contratações efetuadas até ao momento. Explicar o porquê das saídas não era difícil, mas dar alguma "normalidade" a aquisições de jogadores que entram por uma porta e saem pela outra é bastante mais complexo. Tudo para desembocar no óbvio : com a época em andamento há lugares em aberto, portanto, contratações por fazer (guarda-redes, médio defensivo e ponta de lança). Ficou a garantia de que Enzo e Gaitan só partem pelos valores das cláusulas. Supõe-se que terá algo na manga se tal acontecer, porque se não tiver...

3 -  Estava Marco Silva, calmamente, com o seu onze perfeitamente desenhado para o arranque do campeonato quando foi surpreendido com duas ausências por razões que lhe são alheias. Quer isto dizer que a herança que recebera, tratada e melhorada, sofreu um duplo rombo em cima do momento da partida, porque Rojo e Slimani não são duas peças de somenos. Com William Carvalho constituem (constituíam?) o trio de sustentação dos três setores da equipa, defesa, meio campo e ataque.

Bruno de Carvalho, por uma questão de princípio que se entende, não abdica de fazer valer o que define como direitos inquestionáveis do Sporting. Os jogadores em causa assinaram contratos, assumindo a responsabilidade pelo que lá está, e não lhes fica bem entrarem em rota de colisão unilateralmente. Mas, por outro lado, o presidente leonino também sabe que ao arrancar para esta "guerra" já não pode recuar e terá de ir até ao fim.

Para lá da questão legal - matéria sobre a qual não quero pronunciar-me, deixo para os especialistas, se conseguirem chegar a uma convergência de análise - torna-se claro que, do ponto de vista desportivo, Marco Silva fica com uma batata quente na mão. Tem de criar um onze de "emergência", para a estreia com a Académica e para depois, além de que não dispõe - pelo menos para já - de alternativas à altura. O Sporting, que transitava sem sobressaltos para esta temporada, é atingido quando menos se esperava. E na altura em que menos desejava.


Emídio Rangel

Colocado por mario.fernando em 13-08-2014 às 15h46

Permitam-me ficar calado hoje. E deixem-me pensar no contributo que o Emídio deu para que o jornalismo em Portugal não voltasse a ser o que era. Trabalho numa casa que ele fundou com o propósito de romper barreiras e acabar com o cinzentismo de que este país, volta e meia, parece não conseguir libertar-se.

É esta a maior lição que guardo dele. Outros podem falar, muito melhor do que eu, das convicções, da energia e da determinação dele. Da herança enorme que deixou. Vou continuar a ouvi-los com atenção.


Ganhar alento

Colocado por mario.fernando em 11-08-2014 às 03h14

O Benfica entrou na temporada somando o quarto título interno no mesmo ano. É um feito, sim, mas mais do que isto é a confirmação de que os que transitaram da época passada continuam a ser determinantes nesta. Os encarnados ficam a dever a si próprios só terem conseguido decidir a Supertaça nos penáltis quando, em abono da verdade, podiam - e deviam - ter resolvido a questão ainda nos primeiros 45 minutos. Em largos períodos, massacraram o Rio Ave, construindo uma meia dúzia de oportunidades, que Cássio e uma ineficácia acima da média não permitiram que terminasse em golo.

O triunfo não tem discussão, tal a diferença de valores patenteada, e até pode dizer-se que as águias se limitaram a cumprir a obrigação. Embora isto seja real, também foi o que de melhor podia ter sucedido à autoestima de um campeão, depois da pré-temporada que se sabe. Não apaga tudo, naturalmente, mas deixa outro alento. Passemos a algumas notas rápidas. A hora é tardia, mas uma final que acabou às tantas assim o determina.  

- "Mais reforços são para equilibrar o plantel". Uma frase de Jesus, pós-Supertaça, definidora da realidade neste momento. O Benfica continua a ter equipa - a questão nunca foi esta - , mas já não tem o plantel que possuía. Só por teimosia é que alguém poderia pensar que a saída de cinco titulares deixaria tudo igual. Na temporada passada Salvio, Ruben Amorim, Jardel ou (até) Artur saltavam para a titularidade sempre que era preciso. Hoje são estes os titulares, mas sem outros de nível idêntico para os render. Talisca mostrou que tem potencial para progredir, mas tal como Bebé necessita de muito trabalho para chegar ao "ponto". Derlei até foi ultrapassado por Talisca no onze inicial. Numa temporada de quatro frentes, ficar neste pé, é seguro?

- Ter equipa. Com Enzo e Gaitan, obviamente que sim. Aliás, o que o jogo da Supertaça sublinhou é que sem o motor Enzo e a classe de Gaitan este Benfica pode ter um sério problema. Ninguém no plantel se compara a eles. Conferindo o desafio de Aveiro, a alternativa a Gaitan foi Ola John (para Enzo não há, como já não havia). As próximas duas semanas vão ser determinantes para esclarecer estes assuntos. A grande angústia do treinador até final do mês, acrescente-se.

- Artur ou o paradoxo de acabar como o herói do jogo. Numa altura em que o Benfica procura um titular para a baliza, o brasileiro "resolveu" as grandes penalidades, num contraciclo ao que se vinha vendo e até ao próprio desafio de Aveiro (na primeira parte ia oferecendo um golo ao Rio Ave). Torna-se evidente, até pela forma ambígua como Jesus abordou a questão na flash, que não é isto que muda o objetivo traçado. Seja como for, a conjuntura permite a Artur alguma estabilidade psicológica, bem necessária até haver uma "solução". Ou até depois, se.

- Tudo isto deve ser enquadrado numa partida concreta. O Rio Ave esteve longe de ser um adversário que constituísse uma ameaça aos encarnados e, de facto, Jesus tem razão ao referir que, paradoxalmente, esta foi a final com os vilacondenses em que estes deram uma resposta mais frágil. E o cansaço da Liga Europa não explica tamanho desnível. O domínio do Benfica foi total, até mesmo quando, a partir do minuto 55, a troca de Pedro Moreira por Diego Lopes evitou a continuação do descalabro do meio campo. De qualquer modo, foi notório que a subida da equipa de Pedro Martins se deveu mais ao desgaste do adversário do que a um crescimento próprio. Revelador : as duas grandes oportunidades do Rio Ave sairam dos pés de Artur e Jardel.

- Conclusão : foi muito importante para o Benfica começar a época com um título. Certo que o Rio Ave não é exatamente um opositor de patamar superior, mas são estes triunfos que contribuem para esbater uma preparação que esteve longe daquilo que os encarnados pretendiam. Nesta altura, ir ganhando é o melhor remédio para os dias de incerteza que se avizinham. Incerteza pelas possíveis saídas e pelas desejadas entradas.  


Entrar no grupo

Colocado por mario.fernando em 08-08-2014 às 22h15

Aproxima-se a hora. A nova época arranca formalmente com a Supertaça, seguida da jornada inaugural do campeonato e, logo após, com os play-off de acesso à Champions e à Liga Europa. Ou seja, logo nas primeiras duas semanas, em circunstâncias diferentes, as equipas vão ser sujeitas a avaliações sobre a sua verdadeira capacidade de resposta neste momento.

O Benfica entra em campo já envolvido na discussão de um título (tema para retomar depois de Jorge Jesus e Pedro Martins falarem em Aveiro), o Sporting centra toda a atenção na deslocação a Coimbra e o FC Porto está colocado perante uma decisão crucial da temporada. O duelo com o Lille é fundamental, não apenas para Lopetegui mas para o próprio clube. Falhar uma entrada na Liga dos Campeões, depois de uma revolução no plantel - com o objectivo assumido de voltar à primeira linha - significaria um "tiro no porta aviões" (desportivo e...financeiro) do qual não seria fácil recuperar.

Mesmo que, por esta altura, a equipa portista não esteja totalmente arrumada - o substituto de Fernando é, claramente, uma questão determinante para a estabilidade do meio campo - , Lopetegui tem material humano que, se souber gerir em condições, lhe pode permitir chegar, sem grandes sobressaltos, a uma fase de grupos onde já estão os outros dois rivais. O Lille não é, sequer, um dos mais poderosos de França, embora tenha mantido, globalmente, a estrutura que lhe permitiu o terceiro lugar da época passada. Enyeama, Origi, Rony Lopes e Kalou continuam lá. 

É certo que o FC Porto joga aqui a cartada dos dez milhões de euros, mas certamente mais do que isto. O técnico dos dragões vai ser posto realmente à prova, depois de Pinto da Costa ter dado praticamente tudo o que Lopetegui pretendia. Risco do presidente portista - uma espécie de tudo ou nada para tentar impedir o bis do Benfica - , mas também o momento para o treinador mostrar se é capaz, ou não, de liderar uma missão de "resgate".

Rio Ave (que cumpriu brilhantemente na estreia europeia) e Nacional partem para o play-off da Liga Europa com algumas expetativas, mas igualmente com a certeza de trabalho complicado. Sendo que, em rigor, não se sabe o que valem - ou podem - Elfsborg e Dínamo de Minsk nesta altura.


Pré vias

Colocado por mario.fernando em 06-08-2014 às 20h49

1 - Longe do epicentro das discussões, fui seguindo a pré-temporada que, como sempre, vale o que vale. Apenas deixa indicadores para o momento, talvez projectáveis para a época propriamente dita. Ou não. De resto, até ao "fatídico" 31 de Agosto ninguém tem certezas sobre quais os jogadores de que irá dispor para as várias competições em que os clubes vão estar envolvidos. Só mesmo para alimentar ilusões aos adeptos é que alguém pode garantir que este ou aquele "não sai".

Até agora, deu para perceber que o Benfica teve de se desfazer de várias jóias da coroa por razões mais financeiras do que desportivas (sobretudo depois da "torneira" bancária ter fechado de vez), faltando saber até que ponto Jorge Jesus consegue operar outro milagre de reconstrução, com resultados equivalentes, mas desta vez com outro tipo de recursos humanos.

Por muito boas escolhas que se faça, descobrir jogadores de um patamar idêntico aos de Oblak, Garay, Siqueira, Markovic, Rodrigo ou Cardozo (sobre Enzo e Gaitan logo se verá), capazes de "pegar de estaca", não é assim tão evidente. Como o técnico já assumiu inequivocamente. Porque se trata do campeão, recente vencedor de todas as provas nacionais em que participou e (bi)finalista da Liga Europa, esta mudança estratégica é assinalável.

A questão é que toda a gente a vê, mas ninguém a explica. O problema não é se está certa ou errada, mas sim por que motivo foi adoptada, para que fiquem claros os objetivos daqui para a frente. Para já, só tivemos o discurso ondulante de Jesus (tão depressa os benfiquistas podiam "estar descansados", antes da Eusébio Cup, como construir uma equipa "não se faz em três ou quatro semanas", após a paupérrima passagem pela Emirates Cup), sem que Luis Filipe Vieira se pronunciasse sobre o assunto. A menos que o presidente entenda que não há assunto.       

O FC Porto, perante o imperativo de tentar barrar o bicampeonato das águias, jogou num treinador cujo currículo passa unicamente pelas camadas jovens do futebol espanhol (o resto nem conta para a avaliação), dando quase carta branca ao técnico para escolher quem quiser. O plantel anterior, de facto, poucas ou nenhumas garantias dava.

Acontece que os dragões estão num processo de reconversão, embora num caminho claramente diverso do do Benfica. Agora, a prioridade é para nomes que nem são desconhecidos (Tello, Adrian Lopez, Martins Indi, Brahimi ou Casemiro), faltando descobrir "outro" Fernando, já que Jackson, pelos vistos, é para ficar. Dúvida : estão a conseguir um bom plantel, mas ainda não se sabe se obtêm uma boa equipa. Depende muito (ou tudo) da capacidade de Lopetegui.

Dos três grandes, o Sporting foi o que menos abanou do ponto de vista do onze que transita da temporada anterior. Até ver, pois Rojo, William e Slimani vão continuar na "mira" até final do mês. A equipa que surgiu no Troféu Cinco Violinos é, na prática, a da época transata. Sendo que o resto do plantel apresenta melhores alternativas do que antes.

Marco Silva percebeu que os alicerces deixados por Leonardo Jardim não deviam ser tocados, limitando-se a acrescentar a sua visão pessoal das dinâmicas de jogo (note-se o papel de André Martins). Será isto suficiente? É cedo para conclusões. Os leões já entram como candidatos, ao contrário de há um ano, mas é preciso entender de que forma o técnico vai gerir as múltiplas frentes que ditam o andamento da temporada.

Este é só um primeiro olhar pós-férias. Os próximos dias levarão a análises mais específicas.

2 - Da última vez que aqui escrevi, referi estar muito preocupado com o que se desenhava na Liga. Aliás, aproveitei para sublinhar que só por ingenuidade se poderia pensar que os dois lados (ou três, ou quatro, já nem se percebe) tomariam a iniciativa de colocar as coisas no seu lugar, antes que o descarrilamento trucidasse toda a gente. Passadas estas semanas, o cenário é inconcebível e sem paralelo com qualquer Liga europeia que se preze.

As eleições vão ser repetidas, os três grandes estão juntos numa comissão para rever os estatutos (não se iludam, isto não é nada um momento "histórico"), as divisões entre os restantes são notórias, enfim, em boa verdade a intervenção do presidente da FPF foi interessante, mas não passou disto. Os clubes, desde há décadas, colocaram sempre os seus interesses individuais acima dos do negócio futebol, sustentanto uma lógica em que deter ou influenciar o poder é sempre mais importante do que tudo o resto.

O futebol português, exceptuando o trabalho muito profissional de treinadores e jogadores, mergulhou num mar de descredibilização de tal ordem que ninguém sabe como se salvará. Mário Figueiredo fez o que fez mas, por outro lado, os clubes não querem afastar-se um milímetro da cartilha seguida até hoje, cada qual com os seus propósitos. A consequência é que - obviamente - não existe um único patrocinador que invista um cêntimo numa competição que os próprios protagonistas garantem publicamente, jornada após jornada, não ser muito fiável. A menos que estejam a ganhar, claro.

Sou, desde sempre, um céptico militante em relação à forma como os dirigentes lidam com a organização do futebol nacional. Todos eles estão convencidos de que, no dia em que o telhado cair - e já faltou mais -, vão passar incólumes pelo meio da chuva de telhas, porque esta só vai atingir "os outros". Já nem pedia a lucidez dos ingleses ou alemães. Mas eles acham mais interessante assim.

PS : Faltam poucas semanas para o início da qualificação para o Euro2016. Parece que nem houve Mundial. A FPF, ao fim deste tempo, não produziu uma conclusão sobre o desastre no Brasil.



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