Com Luís Freitas Lobo e João Rosado, sob a arbitragem de Mário Fernando

Às segundas, depois das 19h, com repetição depois da meia-noite.

Luís Freitas Lobo

Nasci em 1967. Em 1970, portanto, já estava presente para testemunhar as maravilhas de Pele, Jairzinho, Tostão e companhia no Mundial do México. Ainda não conseguia, no entanto, ver os jogos sob uma perspectiva táctica. Agora, como os tenho todos gravados na minha colecção particular de vídeos, vejo-os religiosamente. Como se viajasse no tempo e visse Puskas da mesma forma que hoje vejo Kaká. Para mim, mais do que cinco continentes e sete mares, o mundo é um infinito conjunto de campos de futebol com muitas casas á volta e desde 1998 que tenho procurado, em vários meios de comunicação, passar essa emoção. Porque, como gosto de dizer 'Quando um homem tem uma paixão, seja ela qual for, o melhor que tem a fazer é ir tratar dela!'
Da Revista Mundial e Publico, até ao Expresso e à sagrada A Bola, a Bíblia com que em menino aprendi a escrever lendo Mestres como Vítor Santos. Na rádio da Antena 1 à TSF, na televisão, da SIC Noticias até à RTP, onde hoje estou. Todos os dias penso em futebol. Por isso, em qualquer local, falo ou escrevo sobre futebol, partindo sempre da única forma que o entendo ser possível conceber: com emoção.

João Rosado

João Rosado nasceu em Évora, em 1970. É licenciado em Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Entre 1988 e 1992 foi colunista no jornal «A Capital». Foi redactor no jornal «Record» entre 1992-1995 e 2003-2004. Entre 1995 e 2002, foi redactor e editor no jornal «O Jogo». De 2007 a 2012 foi colunista no jornal «Diário de Notícias. Foi comentador de futebol na «Antena 1» entre 1999 e 2000, na «Rádio Renascença» entre 2001 e 2004, na Sport TV entre 2001 e 2007. É comentador de futebol na SIC, desde 2007, e na antena da TSF desde 2004.

Mário Fernando

Jornalista há 27 anos passou a maior parte da vida profissional na rádio. Comercial, Renascença, RFM, Correio da Manhã e XFM até aterrar na TSF. Foi em 1995 e, três anos depois, passou a editor de Desporto. Até hoje. É um fanático por futebol, por isso, não tem paciência para a forma como os dirigentes tratam a coisa, ou seja, quando resolvem que os clubes deles é que contam e o resto é paisagem. Não é, mas isso eles jamais vão entender. No meio de tudo isto houve três reportagens que o marcaram: a primeira visita de Nelson Mandela a Londres depois da libertação e duas edições dos Jogos Olímpicos, Sidney2000 e Pequim2008. Curiosamente, nenhuma delas tem a ver com futebol.

(Des)acertos

Colocado por mario.fernando em 22-12-2014 às 00h06

1 - Jogar sofrível na Luz e, por vezes, abaixo disso, acabando por marcar apenas um golo ao último classificado, ainda por cima ilegal, faz deste triunfo do Benfica sobre o Gil Vicente uma daquelas partidas que deixa múltiplas interrogações sobre o que pode vir a seguir. E ainda mais surpreendente quando o treinador se lamenta que foram os adeptos que puseram a equipa nervosa.

A estranheza começou logo na forma como as águias iniciaram o jogo. Dez minutos amorfos, precisamente o inverso daquilo que habitualmente fazem. Várias ausências em relação ao onze titular (a expressão faz sentido, porque no plantel há uns notoriamente melhores do que outros), com Talisca a "8", podem explicar alguma coisa, mas não servem para justificar tudo, longe disso. Mesmo estes que atuaram têm necessariamente obrigação de produzir bastante mais, com toda a consideração pelos gilistas que se comportaram com a dignidade que se lhes reconhece. Passar a primeira parte com dois remates (Talisca e Jonas), bem travados por Facchini, é praticamente nada.

Resolveu - o verbo certo é este - o lance em que a equipa de João Capela não puniu o fora de jogo nítido de Maxi, deixando a jogada correr para Gaitan concretizar. Se o Benfica, até então, não se mostrara de facto, a partir da vantagem as melhorias pouco apareceram. Aliás, na segunda parte, os encarnados não se livraram de dois ou três sustos, daqueles a que se habilita qualquer equipa que "vive" de um avanço tangencial. Aos "disparos" de fora da área de Jonas, Talisca e Bebé (e Facchini assinou mais um par de enormes defesas), respondeu a equipa de Barcelos com três ótimas oportunidades (Simy, João Vilela e Gabriel). A questão é que Jesus teve de recorrer a Cristante e retirar Lima para equilibrar a zona central na última dezena de minutos.

O Benfica somou três pontos, mas a história do desafio é a que é. Jesus pode argumentar com as baixas, o desgaste das duas partidas anteriores (e até com os adeptos...), mas a verdade é que a exibição da equipa foi anémica. Só ficou "aquele" golo.

2 - A Choupana é tradicionalmente um palco complicado para qualquer equipa. Os três grandes, em particular, sabem-no bem. Desta vez foi o Sporting e passou de forma competente. Numa semana "difícil" à qual "os jogadores não foram alheios" - palavras de Marco Silva - a equipa leonina realizou uma primeira parte equilibrada e uma segunda claramente afirmativa.

Os primeiros 20/25 minutos mostraram um Sporting ansioso, a jogar "sobre brasas" (outra definição do técnico), sendo que a lesão de André Martins, escolha para a titularidade, logo ao décimo minuto, não veio ajudar. Certo que João Mário deu conta do recado, mas foi uma contrariedade que obrigou Marco Silva a alterar o conceito que tinha desenhado para a partida. É verdade que o Nacional teve duas boas hipóteses para chegar ao golo, só que Slimani, à sua conta, teve três, somando a outras de Carlos Mané e João Mário. Percebeu-se que, caso serenasse, o Sporting chegaria lá. E assim foi.

O segundo tempo abriu praticamente com o golo de Carlos Mané e isto foi vital para o desenrolar do resto do encontro. O controlo de jogo por parte dos leões, com o domínio das operações a meio campo, retirou todas as possibilidades de resposta aos madeirenses. Carrillo e Adrien podiam ter ampliado a vantagem, mas Gottardi esteve à altura desses momentos cruciais. E Marco Silva voltou a agir corretamente quando Adrien foi expulso, ao colocar Rosell em campo, transformando o sistema num 4x4x1, que tapou as "vias" de acesso à área leonina.

Vamos ver como evolui o Sporting nas próximas jornadas. A identificação entre jogadores e treinador é evidente e Marco Silva reafirma que ele, enquanto líder, continuará a elogiar ou criticar os seus futebolistas internamente e não em público ("olhos nos olhos, cara a cara"). Para já, adiciona mais um triunfo, importantíssimo no atual contexto. O Sporting está apenas a um ponto de um lugar no pódio.


Fazer o indispensável

Colocado por mario.fernando em 20-12-2014 às 01h11

Na sequência da derrota com o Benfica, dificilmente o FC Porto arranjaria um adversário com melhor perfil do que o V.Setúbal para regressar aos triunfos. Apenas fazendo o indispensável, os dragões acabaram o jogo em goleada, talvez um exagero numérico para a produção apresentada, mas uma quase inevitabilidade face à realidade que teve pela frente.

Lopetegui, à falta de Casemiro e Ruben Neves, optou por estrear Campaña, enquanto Marcano transitava diretamente de titular com as águias para a bancada. Maicon no eixo da defesa, Quaresma no trio atacante e foi o quanto baste para o técnico espanhol. 

Primeira parte em andamento moderado, Ricardo Batista colocado à prova aqui e ali, e dois golos, um penálti ingénuo do experiente Manu e uma perda de bola dos sadinos que acaba em Jackson. Domingos queixa-se dos dois lances que "desbloqueram" o jogo, embora só tenha razão no segundo, mas não explicando o que andou a fazer o Vitória até ao minuto 51, momento do seu primeiro remate à baliza de Fabiano, nem como conseguiu passar um desafio inteiro sem criar uma real oportunidade de golo.

Chegar ao intervalo com dois de avanço pareceu ter "desligado" o FC Porto da partida. Os 25 minutos iniciais do segundo tempo foram de uma palidez absoluta, porque os portistas não souberam lidar com as linhas mais subidas dos setubalenses, perdendo-se em trocas de bola sucessivas e inconsequentes, sem ponta de progressão. Tirando uma notável triangulação entre Oliver e Jackson, superiormente parada pelo guarda-redes do Vitória, nada mais restou.

Sendo certo que o adversário melhorou mas quase não ameaçou, Lopetegui entendeu - bem - que as coisas não podiam permanecer assim. E são as alterações que opera as responsáveis por uma "nova cara" do FC Porto na parte final do encontro. Com Evandro em vez de Tello - que teve demasiadas más opções para uma só noite - , Quintero a criar e Herrera na posição de Campaña (teria de ser ele a sair), juntando-lhes Brahimi em vez de Quaresma, tudo se alterou num ápice. Dois golos mais e o consumar de um desnível que não se adivinhava antes de todas estas transformações.

No fundo, o que verdadeiramente interessava aos dragões foi atingido. Como seria previsível, pois o V.Setúbal, por muito boa vontade que pudesse ter, pertence a outro universo. Mas também ficou a certeza de que só lá mais para diante se ficará a perceber corretamente qual o caminho que o FC Porto vai trilhar. Este teste pós-Benfica era simplesmente para ser superado. Apenas com o indispensável.   

PS : Insólito, para não dizer difícil de entender. Bruno de Carvalho criou um "facto político" ao pedir a convocação de uma Assembleia Geral do Sporting para que os sócios deem um "voto de confiança" ao projeto desta direção. Ora, nenhum governo, a meio do mandato, avança com uma moção de confiança, quando ninguém da oposição está pensar numa moção de censura. Mais intrigante ainda quando, que se note, não há focos de contestação interna à liderança do presidente.

Bruno de Carvalho também não explicou mais. Quer saber quem está com ele, pelo que, se a lógica ainda vale alguma coisa, prepara-se para ser aclamado. Se a intenção não é esta, algo está a escapar à nossa compreensão. Mas relevantes foram também os outros tópicos da declaração presidencial. Assume responsabilidades no momento atual da equipa, mas exige que "todos" assumam a sua quota parte. Assim, genericamente. Isto inclui Marco Silva?

Depois, o anúncio dos "reforços" de janeiro (foi claro demais para ser ironia), uma lista de 13 jogadores da equipa B, a tal que parece estar em vias de extinção. E o acrescento de que "é com estes jogadores que o treinador vai trabalhar" e que "temos o plantel que queríamos". Fiquemos, por ora, pela constatação dos factos. Insólito, sim.


A segunda queda

Colocado por mario.fernando em 19-12-2014 às 01h28

Há cerca de uma semana, Jorge Jesus, após o afastamento da UEFA, afirmou que essa eliminação nada alterava em relação à temporada anterior. Porque, dizia, o Benfica estava apostado em fazer o pleno interno e, portanto, sair prematuramente da Champions (e da Liga Europa, já agora) era quase irrelevante em relação ao que interessava. O triunfo no Dragão parecia reforçar a tese. Só que, aquilo que saiu bem frente ao FC Porto, saiu muito mal perante o Braga. E, na Luz, as águias saem de cena na Taça de Portugal. Dezembro fecha com o Benfica sem Europa e sem Taça. E o tal pleno doméstico esfumou-se.

Diga-se, antes do mais, que os bracarenses justificaram o apuramento. Parafraseando o próprio técnico encarnado, no futebol, a palavra "merecimento" nem é passível de utilização. As coisas são o que são e a história deste jogo explica cabalmente os porquês do desfecho.

Para começar, o modo como Sérgio Conceição pensou na abordagem à partida, em contraste com aquilo que Jesus pretendia mas não conseguiu. Uma meia hora inicial com Danilo perto de Pedro Tiba, soltando Ruben Micael para um "duelo" particular com Enzo, e um Cristante que não é Samaris. Curiosamente, a grande oportunidade de golo naquele período é negada por Júlio César a Pardo.

Até que Jonas marca, na primeira hipótese que o Benfica tem para concretizar (aliás, na única vez que o avançado venceu a "batalha" com Kritciuk). Por momentos, pensou-se que os encarnados se preparavam para repetir o elevado índice de aproveitamento do Dragão. Negativo. De seguida, Gaitan e Jonas dispõem de novas oportunidades, mas o guarda-redes russo defende. Afinal, o registo de domingo já não estava a acontecer.

Claramente pior o que veio no reatamento. Enzo, lesionado, fica no balneário e entra Pizzi. Para uma equipa que não contava com Luisão, Samaris, Salvio e, agora, Enzo, talvez não houvesse grande problema se o adversário não se chamasse Braga. Simplesmente, a equipa minhota não é uma daquelas que serve para "encher" a Liga portuguesa, era mesmo a única que já tinha conseguido derrotar o Benfica. O que sucedeu naquele quarto de hora de arranque na segunda parte foi um desvario total dos encarnados.

Como se não bastasse um primeiro golo de Aderlan Santos na sequência de um canto (falhanço de André Almeida), veio a correria de mais de 50 metros de Pardo, com o meio campo e a defensiva das águias "a ver" (apenas César se mexe quando o bracarense já ia atirar à baliza) e um segundo golo que é inaceitável numa equipa campeã. Este é o tal lado das insuficiências que o Benfica tem e que vai conseguindo disfarçar, porque a generalidade dos antagonistas no campeonato português é qualitativamente inferior.

Entendamo-nos : se o Benfica utiliza os seus melhores elementos, como no Dragão, é uma equipa inegavelmente forte. Sem boa parte deles, o caso muda de figura. E as consequências só dependem do adversário. Neste caso, era o Braga, como antes tinham sido quase todos os desafios na Liga dos Campeões. De resto, o modo como Conceição geriu o encontro a partir da altura em que se apanhou em vantagem, ilustra que esta não é uma formação qualquer. Antecipou o que Jesus iria fazer (lançar Talisca e Derley) ao colocar logo Custódio ao lado de Danilo e ao trocar Rafa por Salvador Agra.

É certo que o Benfica teve um quarto de hora final de enorme pressão, encostando o Braga no seu meio campo, mas percebeu-se que isto não foi surpresa para os minhotos. Era previsível. Muitos lances de ataque - e Ola John assumiu um papel importante neste quadro - , simplesmente, em última instância, lá estava Kritciuk para tudo o que fosse preciso. Tudo, mesmo.

Apenas uma nota lateral para Artur Soares Dias. Chegou a temer-se o pior, porque no início da partida cometeu dois erros consecutivos (penálti de Jardel e não expulsão de Pardo), mas depois lá se aguentou. A propósito, talvez seja tempo de Jesus aprender a lidar melhor com os "mind games", porque a forma é, muitas vezes, mais importante do que o conteúdo.

Se o Benfica, depois de despachado das competições europeias, já não tinha escapatória para a "obrigação" de chegar ao bicampeonato, agora ficou com o caminho ainda mais apertado com a eliminação da Taça de Portugal. De quatro frentes, sobram duas, apenas num par de semanas. E o técnico encarnado dificilmente encontrará desculpas se falhar o objetivo, agora que até lidera com seis pontos de avanço.


Leão mínimo

Colocado por mario.fernando em 18-12-2014 às 01h20

Quando uma equipa profissional dá os mínimos e uma amadora dá os máximos, geralmente, resulta nisto. O Sporting venceu tangencialmente o Vizela, é certo que seguiu em frente na Taça de Portugal, mas o que de realmente importante fica é apenas o resultado. Já o resto...

Talvez se pudesse interpretar o comportamento dos leões, em Moreira de Cónegos, como uma espécie de segundo acto do duelo com o Espinho. Um adversário do Campeonato Nacional de Seniores, em campo neutro, um grupo de bons rapazes que certamente dariam alguma réplica, mas que se afundariam na segunda parte sem qualquer capacidade física e anímica para responder à altura. Talvez. Acontece que não foi exatamente assim e, mesmo reconhecendo o mérito e o empenho sério dos vizelenses, grande parte da responsabilidade é mesmo do Sporting.

Não se esperava, por exemplo, que o primeiro remate à baliza de Albergaria só surgisse ao minuto 32, já depois do Vizela ter perdido uma ótima oportunidade para abrir o marcador. Como não se esperava que, feito o golo inaugural (numa grande penalidade que, por sinal, não existe), o Sporting se deixasse empatar, voltasse para a dianteira e sofresse novo empate. Dois erros defensivos - e outra vez a nascerem de bola parada - , com Boeck a não ficar isento de responsabilidades, para lá de outras duas jogadas em que tanto Rafinha como Fininho podiam ter concretizado novamente. É um pouco demais se não nos esquecermos que estavam no terreno duas formações de mundos muito diferentes.

Marco Silva - honra lhe seja feita - reconheceu que a equipa entrou nesta partida ainda "marcada" pelo empate com o Moreirense e pela classificação atual no campeonato que não é, nem de perto nem de longe, aquela que queriam ter. A ansiedade esteve muito presente, a insegurança - do meio campo para trás - ainda mais visível e, depois, alguma surpresa pela forma como os amadores de Vizela reagiram a duas (!) desvantagens.

A entrada na segunda parte foi melhor, ainda que, logo no quarto minuto, Boeck tivesse negado (e aqui esteve muito bem) o terceiro a Rafinha. Daí em diante o Sporting conseguiu finalmente controlar a zona central e só então logrou somar alguns lances com princípio, meio e fim. Às tantas, inevitavelmente, deu golo. Julgou-se que, apesar de ser uma vantagem minúscula, o Vizela já não iria atingir os patamares anteriores. E, na realidade, não atingiu. Mas não foi isto que impediu Luis Ferraz de atirar a bola ao ferro da baliza leonina, numa ponta final do jogo em que o técnico leonino mudou toda a frente de ataque (Heldon/Slimani/Tanaka em vez de Mané/Montero/Carrillo).

Em suma, um triunfo em que o Sporting nunca se sentiu minimamente tranquilo. Agora, vai regressar ao campeonato e pensar no Nacional. Enquanto o "herói" Talocha e companheiros, já amanhã, voltam aos escritórios ou às oficinas, como tinham feito ontem e anteontem. O "intervalo" para jogar à bola terminou.


Jogo de avaliação

Colocado por mario.fernando em 15-12-2014 às 20h07

Passado o primeiro terço do campeonato já começa a dar para tirar algumas conclusões. Longe de definitivas, mas possíveis. Principalmente depois do triunfo do Benfica no Dragão, que deixou o FC Porto a seis pontos, além do Sporting a dez, mas aqui porque os leões não ganharam em Alvalade. Foi este o quadro de análise do Jogo Jogado na TSF, naturalmente com o foco na partida entre dragões e águias, um desafio que ajudou a perceber melhor as diferenças de perceção e execução entre Lopetegui e Jesus.

E porque as verdadeiras figuras no futebol são os jogadores, deitámos contas a quem mais se destacou até esta fase da competição. Por vários motivos.


Uma águia letal

Colocado por mario.fernando em 15-12-2014 às 01h29

Não é a primeira vez e, certamente, não será a última. Os jogos também se decidem pelo grau de eficácia das equipas e, neste aspeto, o Benfica foi letal no Dragão. Mérito de Jorge Jesus, ao apostar em Lima em vez do "anunciado" Jonas, mas também no facto de acreditar na consistência defensiva da sua equipa perante um FC Porto que tinha de arriscar. É que as águias jogavam com dois resultados (vitória e empate), enquanto os dragões só ficavam servidos com um triunfo. Lopetegui pensou bem, mas faltou-lhe tudo o resto. O Benfica venceu e entra confortável no segundo terço do campeonato.

1 - Pouco teve de surpreendente a meia hora inicial, com o FC Porto a dominar e claramente mais pressionante. Com Enzo "amarrado" a Casemiro e Samaris a Herrera, eram inúmeros os espaços no meio campo encarnado, devidamente explorados por um Oliver com saídas para quase tudo. Só que, se as coisas iam bem até aí, esbarravam sistematicamente no que vinha a seguir. O FC Porto precisava de um Jackson com campo de manobra suficiente para ajudar a desmembrar a última barreira, algo que quase nunca aconteceu. Em suma, muita posse, muito jogo ofensivo, mas oportunidades escassas. Um remate de Herrera junto ao poste e uma grande defesa de Júlio César, a remate de Jackson, foram o produto final.

2 - O primeiro golo do Benfica abanou os dragões. Talvez por ter nascido de um lançamento de linha lateral (em alta competição é um autêntico pecado mortal), talvez por Danilo ter sido ultrapassado pela rapidez de Lima na pequena área, talvez por ter sido a primeira hipótese real do Benfica para concretizar - ou por tudo isto junto - a questão é que a equipa da casa sentiu o golo. Sendo que, no arranque da segunda parte, os efeitos ainda lá estavam. E quando Fabiano não segura o remate de Talisca, possibilitando que Lima (mais rápido que Marcano) fizesse o segundo, o desafio tornou-se num pesadelo para o FC Porto. Mais eficaz do que o Benfica fora era impossível.

3 - O jogo, daquela forma, estava perdido, logo, Lopetegui foi pelo tudo ou nada. Ao trocar Herrera por Quintero subiu a parada do risco (abdicou do homem que ia ligando setores) e ao trocar Tello por Quaresma depositou na criatividade do português a solução para abastecer Jackson. Simplesmente, o colombiano estava em "noite mesmo não", desperdiçando nos ferros as duas flagrantes possibilidades de conseguir algo. Já em desespero de causa, o técnico espanhol retirou Alex Sandro para lançar Aboubakar, mantendo somente três defesas, com as consequências inerentes : maior caudal ofensivo, maior perigo na retaguarda.

4 - Jorge Jesus lidou bem com as várias mutações que se iam operando do outro lado. Nada de estrutural se alterou com a saída forçada de Luisão (e César encaixou no puzzle sem sobressaltos), até porque o fundamental estava controlado, ou seja, deixar o FC Porto ter bola sem que isto implicasse a execução das célebres diagonais, que tanto estrago costumam provocar nas defesas contrárias. Aliás, Jesus só chama Ola John quando os dragões ficaram em défice na zona defensiva, deslocando-se Gaitan para a zona central. Não por coincidência, nos derradeiros dez minutos o FC Porto já não logrou construir um lance realmente preocupante para as águias.

5 - O Benfica ganhou bem graças ao seu cinismo, dirão alguns. Também, mas isto é o reflexo de uma maturidade que esta equipa tem e que o FC Porto ainda não atingiu no contexto do campeonato português. É plausível que lá chegue, mas nesta fase ainda não. Aliás, já se tinha notado na partida com o Sporting para a Taça. O desafio com os encarnados mostrou igualmente que é preciso algo mais do que uma inegável capacidade técnica dos jogadores. Há vários muito bons, de ambos os lados, mas o que pesou foi a coesão - ou rotina, se preferirem - que os encarnados detêm. E, já agora, o terem interiorizado, há bastante tempo, o que implicava esta deslocação ao Dragão. 

6 - Com 13 jornadas, num total de 34, é prematuro assegurar que uma diferença de seis pontos é definitiva para o que conta, o título. Sendo isto verdadeiro, também o é que a responsabilidade do Benfica aumentou. Está melhor colocado do que ninguém para ser novamente campeão e com a estrita incumbência de gerir esta liderança. Jesus sabe que, a partir de agora, só precisa de não "estragar". Algo que já lhe aconteceu uma vez e que o técnico, presume-se, não quererá repetir.

PS : O Sporting, com uma exibição pálida frente ao Moreirense, desbaratou uma óptima oportunidade. A dez pontos do líder, o título tornou-se uma miragem. Ainda assim, ganhou um ponto ao FC Porto, mantendo em aberto a corrida a um lugar na Champions. O triunfo do Benfica, paradoxalmente, foi um mal menor para os leões.


A nova etapa

Colocado por mario.fernando em 11-12-2014 às 01h05

Como se previa, a eventual manutenção do Sporting na Liga dos Campeões dependia muito daquilo que o Schalke conseguisse fazer no terreno do Maribor. Nunca se questionou a vontade dos leões em quererem pontuar em Stamford Bridge, mas o cenário mais plausível passaria sempre pela vitória da equipa de José Mourinho. Retirar dois ou três titulares ao Chelsea não tem o mesmo impacto no onze, do que igual situação na formação leonina. Seja como for, transitar para a Liga Europa não é necessariamente o fim de uma etapa, deve ser encarado como o começo de outra.

A entrada do Chelsea foi suficientemente forte para garantir dois golos em apenas um quarto de hora. Explorando o lado direito do Sporting - Mourinho entendeu que Esgaio poderia ser o alvo mais vulnerável dos leões e tinha razão - , a equipa londrina cedo ensaiou alguns lances que rapidamente obrigaram Carrillo a ir em auxílio do lateral. No entanto, aquela grande penalidade prematura precipitou as coisas. Aliás, não fosse uma espantosa intervenção de Patrício (faria outra, já na segunda parte) e a pontaria de Matic estar ligeiramente desfocada, o resultado podia ter subido.

Talvez com o nervosismo controlado, o Sporting começou muito bem o segundo tempo. Vontade de fazer algo não lhe faltou. Carrillo, o mais criativo elemento leonino - exatamente o oposto de Capel - , aliado ao inconformismo militante de Adrien, deram para uns dez minutos muito interessantes, culminando no golo de Jonathan, embora o trabalho determinante fosse do peruano. E mesmo depois do 3-1, Marco Silva tentou o que podia para, com Montero, Carlos Mané e André Martins, alterar o modelo. Era difícil, o Chelsea sabe gerir os tempos de jogo como poucos. E é claramente melhor.

Percebe-se que Marco Silva fale de injustiça neste afastamento, porque Gelsenkirchen dificilmente sairá da memória dos sportinguistas. Como dizia na abertura, a definição do futuro leonino na Champions não era suposto que ficasse dependente do jogo de Londres. Agora, a realidade chama-se Liga Europa e, se os leões assim o quiserem, pode constituir uma saída para uma temporada europeia que valha a pena. Porque, apesar da eliminação, o Sporting não fechou as portas na UEFA.

Como várias vezes aqui sublinhei, qualquer equipa portuguesa devidamente estruturada pode ambicionar a conquista desta competição. Até hoje, só o FC Porto o conseguiu, mas a verdade é que o Benfica foi finalista duas vezes e o Braga uma (frente aos dragões). Ter já três equipas nos jogos decisivos é um indicador importante. Compete ao Sporting refletir sobre o assunto e (re)definir a sua estratégia a partir desta fase.

Por causa dos jogos de Londres e da Eslovénia, não segui com a devida a atenção a partida do FC Porto. Lopetegui, como se previa, pensou no encontro com o Benfica e poupou várias unidades, o que tem um custo, mesmo para um plantel como o dos dragões, quando tem de defrontar adversários como o Shakhtar. Valeu o "petardo" de Aboubakar para segurar uma fase de grupos sem derrotas, algo não negligenciável. Sobretudo, financeiramente.

O mais grave é a baixa de Ruben Neves. A confirmar-se o pior cenário, o técnico espanhol soma um problema acrescido no meio campo, pois fica condenado a não ter alternativa a Casemiro, já que Marcano só é utilizável nas emergências. Uma questão a seguir, até porque vem aí o Benfica, mas também uma eliminatória da Champions. E ao olhar para os possíveis antagonistas conclui-se que há de tudo. A barreira dos oitavos pode ser um momento de decisão. Depende.


Virar de página

Colocado por mario.fernando em 10-12-2014 às 00h41

O jogo que marcou a despedida europeia do Benfica deve ser lido com duas condicionantes iniciais. Primeiramente, levando em conta que a equipa escolhida por Jorge Jesus nunca seria o onze para a Champions em condições normais. Se compararmos com o desafio de Leverkusen, só sobraram três elementos. Depois, o facto do Bayer já estar qualificado e, pelos vistos, esta condição ser considerada satisfatória pelos alemães. Mesmo sabendo que podiam não terminar no primeiro lugar do grupo, o que até se confirmou.

Ponderados os dois vectores, pode concluir-se que o desempenho dos encarnados foi positivo. Claro que, no contexto geral, não apaga o que ficou para trás, nem mesmo quando Jesus lembra que o Benfica não perdeu com o vencedor do grupo, porque isto não anula a realidade que conta, ou seja, que em todos os outros encontros só somou um ponto. A abordagem a este jogo da Luz é outra, se quiserem, "exterior" à campanha na UEFA. Esta já tinha acabado.

Depois de dez minutos de pressão alta, o Bayer foi apanhado pelo primeiro contra ataque das águias e Lima rematou à barra da baliza de Leno. Foi um momento de viragem, talvez mais cedo do que os alemães calculavam, mas fez com que o Benfica, mesmo sem algo semelhante a domínio total, dispusesse de mais duas boas hipóteses para concretizar. É certo que, no arranque da segunda parte, o Bayer voltou a insistir e equilibrou o duelo, mas as alterações entretanto operadas pelo técnico encarnado (Talisca, Nelson Oliveira e João Teixeira) permitiram, pelo menos, que nada de fundamental fosse comprometido.

Posto isto, centremos a análise na assumida pesquisa de Jesus dos tais quatro ou cinco jogadores de quem o técnico esperava indicadores para o futuro imediato. Convém, contudo, sublinhar que este tipo de apreciações fica sempre limitado por um motivo elementar : inserir um jogador numa equipa estruturada permite tirar uns dados ; fazer o inverso, juntar muitos jogadores para montar uma equipa não rotinada, obriga a concluir outros. Portanto, quatro ou cinco pecaria por ser excessivamente ambicioso.

Seguramente, há um que mostrou aqui poder ser encarado como alternativa válida. Chama-se Pizzi, foi o melhor jogador dos encarnados, e talvez justifique uma espécie de trabalho intensivo (leia-se, minutos de jogo) tão rapidamente quanto possível. Enzo pode estar por semanas e Pizzi, até ver, apresenta-se como o recurso mais plausível. Se for para repetir o que fez frente ao Leverkusen, pode valer a pena.

Cristante é um caso diferente e, nota-se, precisa de tempo. Aliás, a questão do "6", em aberto desde o início da época, também vai depender da rapidez com que Fejsa ganhar ritmo competitivo a partir de janeiro. Mas como é sempre uma incógnita, Samaris continuará a ser a opção. Depois houve Ola John e Bebé, com as virtudes e defeitos habituais, Lisandro Lopez, César e Benito, um trio que, globalmente, cumpriu, mas em relação ao qual não há grandes dúvidas de que está longe de assegurar uma titularidade.

Sendo sempre de saudar uma estreia, ainda que meteórica, como a de João Teixeira, vale uma nota separada para Nelson Oliveira. Deixou-me a impressão (mas nunca poderei ter certezas) de que o avançado é um bom exemplo de alguém que levaria a outra avaliação se testado numa equipa "consolidada". Teve alguns lances impressivos, e quando olhamos para Lima e o vemos numa fase de desinspiração acentuada, cabe perguntar se Nelson Oliveira é mesmo "caso acabado".

Benfica à parte, no que respeita à competição, dá que pensar o triunfo do Mónaco neste grupo. Uma equipa que marca apenas quatro golos em seis jogos - mas que só sofre um - bateu toda a concorrência e vai ser cabeça de série nos oitavos de final. A equipa de Leonardo Jardim surge como a antítese do comportamento dos primeiros classificados nos vários grupos. Falta saber como será a cadência na fase a eliminar. 


Jogo próximo

Colocado por mario.fernando em 08-12-2014 às 20h03

É só no próximo fim de semana, ainda há uma jornada da Champions pelo meio, mas o FC Porto - Benfica que se avizinha é já o centro do debate. O que está em causa e que argumentos podem ser utilizados pelos dois lados constituíram o foco do Jogo Jogado na TSF.

Isto depois de uma ronda em que a atenção geral se centrou mais nas ausências de Miguel Rosa e Deyverson no Belenenses do que em tudo o resto. E ainda o Sporting. Por causa de um decisivo encontro em Stamford Bridge sem a sua mais-valia, Nani. Que desenho tático e que alternativas perante um Chelsea, provavelmente, com figuras menos habituais?


Pensar no que se segue

Colocado por mario.fernando em 07-12-2014 às 01h27

Na antecâmara de um duelo no Dragão, cuja importância para o campeonato dispensa qualquer referência, Benfica e FC Porto ganharam em partidas cujos adversários adoptaram caminhos semelhantes, acabando com igual sentença. Do ponto de vista qualitativo as diferenças são enormes, individual e coletivamente. Não é muito animador para a prova, mas é o que existe. Deixemos, então, passar o "intervalo" da Champions (sem relevância para qualquer das duas equipas portuguesas em questão, por motivos opostos) e aguardemos por aquilo que realmente interessa na próxima semana.

1 - Na Luz, apesar de uma primeira parte em que o Belenenses até prestou alguma atenção às diagonais dos homens do Benfica, a verdade é que mesmo um processo ultradefensivo dos azuis - onze atrás da linha da bola - não impediu as águias de criarem algumas oportunidades para concretizar. Pontaria errada e Matt Jones, saídas em falso à parte, foram adiando o inevitável. O problema, viu-se, era mesmo chegar ao primeiro golo, já que os de Belém dificilmente ambicionavam mais do que manter tudo a zeros.

A entrada de Lima, no regresso do intervalo (Talisca começa a pagar a fatura de andar sem paragem desde Janeiro), foi a pedra de toque da qual Jesus necessitava. Se juntarmos o facto de Lito Vidigal ter apostado em Sturgeon e transformado a equipa numa espécie de 3x4x3, tudo se conjugou para o que veio a seguir. Feito o golo inaugural, o Benfica acentuou o ascendente e o adversário não teve tempo, nem espaço, para reagir.

Não o fez ao primeiro, nem ao segundo, nem ao terceiro (nota : jogada antológica de Gaitan). Ou melhor, "mexeu-se" apenas num lance, quase no fecho do tempo de descontos. Enquanto isto, os encarnados já tinham retirado Enzo e Maxi a pensar no Dragão. Do jogo não adianta acrescentar muito mais. Assim, passemos ao assunto de que toda a gente quer falar.

Miguel Rosa e Deyverson não foram utilizados pelo Belenenses, por causa de um acordo verbal entre os azuis e o Benfica, clube que possui direitos económicos sobre os jogadores (não confundir com empréstimo). Sobre isto, três coisas. Primeiro : o autêntico segredo de Estado que prevalece, já que ninguém fala sobre a questão, logo, ninguém nega. Segundo : há situações que podendo não ser ilegais, também não são normais. Terceiro : talvez fosse altura da Liga (se ainda serve para alguma coisa) definir claramente os contornos destas "anomalias". Ter grandes tiradas sobre a salvação da indústria sem actos consequentes é fingir que as nebulosas não existem. E, aqui, a responsabilidade é dos membros da Liga, sem exceção. Ficar-se pela discussão cá fora e nada fazer lá dentro é que é uma inutilidade. 

2 - Tinha-se visto há uma semana, na partida com o Benfica, que esta Académica já teve melhores dias e que o lugar que ocupa na classificação não engana. Portanto, nada do que sucedeu perante o FC Porto surpreende. Bem pode Paulo Sérgio pegar num 4x4x2, sonhar em limitar os espaços no meio campo com as peças de que dispõe, que nada disto funciona tendo pela frente jogadores tecnicamente dotados e capazes de descobrir abertas onde menos se espera.

Como se não bastasse, perder a bola em zonas nevrálgicas é um suicídio estando por ali gente como Ruben Neves, Tello ou Jackson. Os dois primeiros golos dos dragões são um flagrante exemplo disto (nota : o segundo do colombiano é notável). De resto, nunca a Académica teve a menor hipótese de conter o modo pressionante como o FC Porto entrou na partida, com grande destaque para Tello, numa das melhores exibições (arriscaria mesmo a melhor) desde que chegou a Portugal, para lá do Danilo do costume, de um Herrera combativo e, até, de um Brahimi uns furos acima do que tem andado a fazer ultimamente.

Quando os dragões fizeram o terceiro, logo no início da segunda parte, o jogo acabou. Assim, sem aspas. Se os academistas pouco se tinham visto, desapareceram. Por consequência, começou ali uma gestão descontraída dos dragões, que poderiam ter ido mais longe no marcador, mas durante a qual Lopetegui aproveitou para poupar Danilo ("tocado"), Tello e Jackson, pois vêm aí coisas mais importantes do que aquela segunda metade em Coimbra, que serviu apenas para deixar correr o tempo. 

Interessante será conferir agora a forma como o técnico espanhol - um militante da rotatividade, embora menos acentuada nos últimos tempos - vai construir a equipa para o desafio da Champions. Com a prioridade da semana no próximo encontro com o Benfica (o Shakhtar, do ponto de vista desportivo, nada pesa), veremos até onde irá a mudança no onze portista.



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