Com Luís Freitas Lobo e João Rosado, sob a arbitragem de Mário Fernando

Às segundas, depois das 19h, com repetição depois da meia-noite.

Luís Freitas Lobo

Nasci em 1967. Em 1970, portanto, já estava presente para testemunhar as maravilhas de Pele, Jairzinho, Tostão e companhia no Mundial do México. Ainda não conseguia, no entanto, ver os jogos sob uma perspectiva táctica. Agora, como os tenho todos gravados na minha colecção particular de vídeos, vejo-os religiosamente. Como se viajasse no tempo e visse Puskas da mesma forma que hoje vejo Kaká. Para mim, mais do que cinco continentes e sete mares, o mundo é um infinito conjunto de campos de futebol com muitas casas á volta e desde 1998 que tenho procurado, em vários meios de comunicação, passar essa emoção. Porque, como gosto de dizer 'Quando um homem tem uma paixão, seja ela qual for, o melhor que tem a fazer é ir tratar dela!'
Da Revista Mundial e Publico, até ao Expresso e à sagrada A Bola, a Bíblia com que em menino aprendi a escrever lendo Mestres como Vítor Santos. Na rádio da Antena 1 à TSF, na televisão, da SIC Noticias até à RTP, onde hoje estou. Todos os dias penso em futebol. Por isso, em qualquer local, falo ou escrevo sobre futebol, partindo sempre da única forma que o entendo ser possível conceber: com emoção.

João Rosado

João Rosado nasceu em Évora, em 1970. É licenciado em Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Entre 1988 e 1992 foi colunista no jornal «A Capital». Foi redactor no jornal «Record» entre 1992-1995 e 2003-2004. Entre 1995 e 2002, foi redactor e editor no jornal «O Jogo». De 2007 a 2012 foi colunista no jornal «Diário de Notícias. Foi comentador de futebol na «Antena 1» entre 1999 e 2000, na «Rádio Renascença» entre 2001 e 2004, na Sport TV entre 2001 e 2007. É comentador de futebol na SIC, desde 2007, e na antena da TSF desde 2004.

Mário Fernando

Jornalista há 27 anos passou a maior parte da vida profissional na rádio. Comercial, Renascença, RFM, Correio da Manhã e XFM até aterrar na TSF. Foi em 1995 e, três anos depois, passou a editor de Desporto. Até hoje. É um fanático por futebol, por isso, não tem paciência para a forma como os dirigentes tratam a coisa, ou seja, quando resolvem que os clubes deles é que contam e o resto é paisagem. Não é, mas isso eles jamais vão entender. No meio de tudo isto houve três reportagens que o marcaram: a primeira visita de Nelson Mandela a Londres depois da libertação e duas edições dos Jogos Olímpicos, Sidney2000 e Pequim2008. Curiosamente, nenhuma delas tem a ver com futebol.

Goleada de aniversário

Colocado por mario.fernando em 28-02-2015 às 23h17

Não sei se era a isto que Jorge Jesus se referia quando, não há muito tempo, deixava uma crítica implícita aos seus jogadores por "desactivarem" cedo demais, depois de atingirem uma vantagem considerada suficiente. A verdade é que o Benfica, perante um Estoril que vive, há semanas, uma fase de ocaso acentuado, funcionou precisamente ao contrário. Quanto mais marcava, mais queria marcar. Ser dia de aniversário do clube pode ter ajudado a esta motivação extra, mas não pode ignorar-se que aquela meia hora alucinante da primeira parte fica como um dos mais fantásticos registos do líder esta época.

Os golos acabam por ser a história do jogo, porque meia dúzia já é número que secundariza tudo o que puder acrescentar-se à partida. Aliás, até dá para, sem grande probabilidade de erro, admitir que se os encarnados mantivessem inalterada a cadência da primeira metade do desafio, a segunda poderia ter levado o resultado para um desfecho assustador para o Estoril.

O destaque maior vai para aqueles quatro golos em vinte minutos, para todos os gostos, sendo que num deles a bola é trocada entre quatro jogadores dentro da área canarinha, incluindo um toque de calcanhar de Gaitan. Assim como um regresso da "nota artística" que tem andado pela gaveta (prioridade, compreensível, ao pragmatismo). Coincidência ou não (talvez não...) ter o argentino de volta trouxe uma outra forma do ataque encarnado se afirmar. Até mesmo quando nem está diretamente nos lances, como sucedeu no golo em que Pizzi abriu para Lima - à esquerda - para Salvio - ao meio - finalizar. Poucas vezes as peças de Jesus aproveitaram tão bem as fragilidades defensivas de um antagonista.

Uma última referência para Pizzi. Está no caminho certo para "substituir" Enzo, mesmo não tendo (ou sendo) o explendor do agora jogador do Valência. Com Samaris atrás, Pizzi ganha espaço para ser o elemento que lê (o jogo) e executa (a distribuição). As próximas semanas - e outro tipo de adversários - podem ajudar a perceber melhor se esta curva ascendente é irreversível.

Posto isto, o Benfica tem já uma certeza : vai continuar no topo e irá aumentar a vantagem pontual em relação a alguém. O problema passa agora para FC Porto e Sporting que vão ter um duelo em que arriscam bastante. Bastante, mas diferente.

Se a equipa de Lopetegui não vencer, o sonho do título pode terminar prematuramente. Isto engloba derrota ou empate, porque, neste momento, perder dois ou três pontos já pouco difere. Para Marco Silva e seus jogadores apenas o desaire é um mau resultado, mesmo sabendo que o Braga está ali muito perto e beneficia caso haja uma igualdade no Dragão. Logo veremos o que mais pesa : se a componente física, se a emocional.


O muro da Europa

Colocado por mario.fernando em 27-02-2015 às 01h23

Podia ter dado? Podia. Infelizmente para o Sporting não chegou dominar o Wolfsburgo e, em várias fases do jogo, até vulgarizar o adversário. Não bastou criar um número de oportunidades anormal numa partida da Liga Europa que, concretizadas metade, seriam o suficiente para virar a desvantagem de dois golos. Tudo bem feito pelos leões até ao momento crucial. Só que é esse o momento que decide quem ganha e, neste caso, quem passa. Benaglio, com uma exibição notável, foi o principal obreiro da qualificação alemã e a inépcia que os leões revelaram nalguns lances fez o resto.

De pouco servem as lamentações porque, como lembrava Marco Silva com propriedade, as vitórias morais não existem. Importante é registar que o Sporting fez aquilo que lhe competia nesta segunda mão, assumindo o jogo e explorando o facto dos alemães terem vindo a Alvalade unicamente a pensarem na gestão do avanço trazido da Alemanha. Sim, era um trunfo importante, embora a equipa leonina tenha percebido que os impossíveis não podiam entrar nestas contas.

Quase não valerá a pena fazer o inventário dos momentos em que Benaglio foi o "jogador-chave", para usar uma expressão do próprio Dieter Hecking - o reconhecimento implicito de que, se não fosse o guarda-redes, as coisas teriam acabado mal para o Wolfsburgo - porque, às tantas, quase se previa que, de cada vez que um homem do Sporting lhe aparecia sozinho na frente, era certo que ele defendia. E quando não era à primeira, até a ajuda do poste lhe permitia recuperar a bola. Aliás, neste particular, Tanaka perdeu todos os duelos com o suiço da baliza.

Foi uma grande exibição dos leões, cheia de vontade em atingir um objetivo que se sabia muitíssimo difícil. A quantidade de recuperações de bola foi um dos vectores mais significativos. Mas - lá vem o tal "mas" - o Sporting pagou a fatura elevada de um pecado que já lhe trouxe outras desilusões em jogos menos relevantes.

É certo que Benaglio explica a maior parte do zero final (só ele negou uma mão cheia de hipóteses reais), só que os jogadores leoninos ficaram a dever a si próprios a resolução deficiente de lances em que deveriam ter feito melhor. Tanaka e Carrillo, por exemplo, complicaram jogadas na área alemã em que a simplicidade de um remate seria a solução mais recomendável. Desperdiçar em tão elevado grau termina sempre num final doloroso.

Este Wofsburgo, no entanto, apesar do mau bocado que passou em Alvalade, mostrou que tem recursos importantes. E não foi por mero acaso que, nas pouquíssimas situações de perigo que gerou, numa obrigou Patrício a sair aos pés de Dost, noutra De Bruyne atirou ao poste e noutra ainda Jonathan cometeu uma grande penalidade sobre Dost que o árbitro não assinalou. Pode ser pouco, mas é significativo.

Há, contudo, alguém que merece uma palavra em especial. Chama-se Marco Silva e voltou a vincar que é um treinador com qualidades pouco comuns. À partida, não se julgaria possível colocar um conjunto tão jovem quanto o do Sporting a bater-se de igual para igual com um antagonista que é, nesta altura, um dos melhores da Bundesliga. A forma como desenhou a construção da equipa - com a ausência de Jefferson, mais um caso com o qual teve de lidar em cima da hora - e, depois, o assumir do risco total ao mudar para um 4x4x2 no derradeiro quarto de hora, denotam que Marco Silva não desiste facilmente. Como não tinha desistido na Champions.  

A Liga Europa não consta mais da rota leonina, que tem de virar já para a etapa do Dragão. Do ponto de vista emocional, apesar da eliminação, o Sporting não ficará afetado. A grande questão é a resposta física, face ao desgaste que a equipa sofreu. Mas as dúvidas só vão dissipar-se no domingo.


A receita do banco

Colocado por mario.fernando em 24-02-2015 às 01h06

Passar no Bessa não é fácil. O FC Porto conseguiu e bem. Um triunfo que, mais do que "arrancado a ferros", foi "arrancado do banco". Os dragões bateram o Boavista, mantiveram as distâncias para Benfica e Sporting (em sentidos distintos da tabela) não sem se depararem com uma série de problemas que eram previsíveis, mas também outros que, provavelmente, terá gerado a si próprio.

Para lá de lidar com um sintético - muito lucidamente Jackson Martinez lembrou que "é igual para todos os que jogam aqui" - , o FC Porto mudou substancialmente o onze quando comparado com aquele que marcara presença em Basileia. Qualquer coisa como seis alterações, sendo apenas uma por obrigação (Óliver por Quintero). De resto, Danilo, Alex Sandro e Casemiro tinham "queimado" amarelos para defrontarem os leões na próxima jornada, enquanto o técnico Julen Lopetegui entendeu que seria seguro ir até mais longe, abdicando de Tello e Brahimi para dar prioridade a Quaresma e - surpresa - Hernâni. Ou seja, a revolução foi além dos quatro pré-determinados.

Se o enquadramento já não vaticinava uma tarefa simples - o Boavista bloqueia tudo e todos nos acessos à sua baliza - a primeira parte veio demonstrar que dificilmente os dragões atingiriam o objetivo daquela forma. Durante todo aquele período só há dois momentos dignos de registo : a grande penalidade de João Dias sobre Hernâni, que o árbitro não assinalou, e o falhanço inacreditável de Jackson, sozinho frente a Mika (inacreditável por ser o colombiano, obviamente). Elucidativo quanto ao número de oportunidades para entrar na área axadrezada.

Como a segunda parte ameaçava ir pelo mesmo caminho, Lopetegui teve de inverter aquela que era a sua intenção inicial. Muita coisa mudou na produção de jogo depois das entradas de Tello e Brahimi. No caso do primeiro a explorar a ala como ninguém o fizera antes (já agora, notou-se bastante as ausências das subidas de Alex Sandro e, sobretudo, Danilo) , sendo que o golo de Jackson começa precisamente onde era suposto começar. E no primeiro remate à baliza do Boavista no segundo tempo.

O argelino, por seu lado, foi de extrema utilidade enquanto andou na zona central e, posteriormente à entrada de Evandro, quando passou a realizar aquilo para que tem mais apetência. Numa das diagonais lá veio o segundo golo, aproveitando o facto do Boavista ter "partido" a equipa à procura, eventualmente, de um golpe de sorte que lhe desse o empate, abrindo espaços que Brahimi, naturalmente, não desperdiçou.  

Vitória sem discussão da única equipa que quis ganhar o encontro, apesar de ter de recorrer aos "acertos" que, bem cedo, se mostraram necessários. O FC Porto vai agora com as armas todas para clássico, enquanto espera pelos efeitos que o duelo do Sporting com o Wolfsburgo possa provocar. Quaisquer que eles sejam.


A arte de resolver

Colocado por mario.fernando em 22-02-2015 às 23h15

O Sporting voltou às vitórias, mantém a perseguição ao FC Porto, recuperou alguma confiança para a complexa segunda mão europeia com o Wolfsburgo, mas não será por nenhum destes motivos que o triunfo sobre o Gil Vicente será recordado. Ficará sempre como o do monumental pontapé de Nani que entrou diretamente como candidato a golo da temporada. Também por isto - e seria bom que não fosse só por isto - é que não podemos secundarizar os Nanis, Jacksons e Gaitans que ainda conseguem trazer a verdadeira arte ao campeonato português.

Além do mais, nem estava a ser das melhores exibições do internacional português. Mas são exatamente aqueles momentos que marcam a diferença entre os grandes e os outros. Um remate perfeito colocou ponto final numa partida que os leões ganharam bem, mesmo sem atingirem níveis exibicionais de exceção.

Em rigor, a primeira parte do Sporting nem foi particularmente inspiradora. Mas foi o suficiente para só permitir ao Gil Vicente chegar uma vez à baliza de Rui Patrício, num lance que até começa de forma irregular. Com William Carvalho de regresso o "pilar" ficou garantido, cabendo depois a João Mário a dupla função de assegurar os desdobramentos que lhe competiam mais os de André Martins, claramente o elo mais fraco do trio intermédio leonino. João Mário que até foi alvo de uma grande penalidade clara que o árbitro deixou passar.

Para lá disto, o Gil Vicente teve na sua baliza a outra figura do encontro. Adriano Facchini foi o maior obstáculo à intenção concretizadora do Sporting, pois só à custa do guarda-redes houve cinco situações de golo, mais do que iminente, negadas de forma superior. Foi necessário, já no início da segunda parte, um lance de bola parada - um canto de Jefferson desviado de cabeça por Nani para Tanaka emendar na pequena área - para finalmente derrubar Facchini. Isto e o tal "torpedo" de Nani.

O jogo correu bem aos leões, mas obriga a alguma prudência sobre a evolução daqui para a frente. Carlos Mané não aproveitou a titularidade como certamente Marco Silva pensaria, tal como Carrillo, que entrou depois, também pouco acrescentou. Por outro lado, mesmo voltando a marcar, Tanaka evidencia um problema que o técnico leonino, provavelmente, só resolverá quando Slimani voltar : saber lidar com o jogo aéreo.

De qualquer modo, ficou um suplemento de motivação que, logo se verá, pode ser capitalizado com o pensamento no Wolfsburgo. Ou no FC Porto. O desfecho do desafio dos dragões no Bessa vai determinar muito da "focagem" leonina durante a próxima semana.


O triunfo e o resto

Colocado por mario.fernando em 22-02-2015 às 00h39

Que o Benfica podia ter problemas em Moreira de Cónegos não seria exatamente uma surpresa. Bastava consultar o histórico de jogos com o Moreirense nesta temporada para se perceber que, apesar dos triunfos, nenhuma das partidas tinha sido simples. Pelo contrário. Esta também não fugiu à regra, sobretudo numa primeira parte em que os encarnados denotaram ausência de soluções na zona central do terreno, mas não apenas. Só quando ficaram a jogar contra dez o cenário mudou de vez.

Sem a agressividade e a rapidez de execução que o desafio exigia, o Benfica passou os primeiros 45 minutos sem saber como lidar com a organização do Moreirense, algo que devia conhecer profundamente face ao número de confrontos desta época. Tirando uma excelente iniciativa de Pizzi que ofereceu a Jonas a hipótese de concretizar - o brasileiro acertou no ferro -, todas as restantes tentativas das águias dependeram unicamente dos remates de meia distância (Lima, Eliseu e Pizzi). O que denotava duas coisas : o eixo André Almeida/Pizzi não escondia o embaraço em conquistar espaços e os corredores laterais acabavam "trancados" quando atingiam o último terço do terreno.

Como se tal não bastasse, ao perder uma bola a meio campo, os encarnados permitiram um contra ataque clássico ao Moreirense, que terminou no golo de João Pedro. Muita culpa própria, é certo, mas uma vez mais a inegável capacidade da equipa de Miguel Leal para explorar os erros que o adversário possa cometer. Aliás, frente ao Benfica, nem é inédito.

Assim, a entrada dos homens de Jorge Jesus, depois do intervalo, estava condenada a ser outra. E foi. O cerco apertou - o Moreirense foi obrigado a "colar" as linhas - até que surge a sequência que virou tudo. Começa no canto (que era pontapé de baliza, Salvio foi o último a tocar a bola), muito bem aproveitado pela entrada de cabeça de Luisão para restabelecer a igualdade, mas a que se somou - este sim o momento marcante do encontro - a expulsão de André Simões.

É especulativo - e inútil - discutir a justiça ou injustiça do vermelho ao jogador, sem se saber o que ele disse a Jorge Ferreira. Para lá dos dois intervenientes, apenas Jorge Jesus e Miguel Leal ouviram o que foi dito e, como era previsível, cada qual tem a sua interpretação. Ou seja, nós ficamos na mesma. O que, aliás, nos leva à questão que deveria ser discutida e não é. Por ninguém, o que não deixa de ser profundamente estranho.

Todos sabemos que seria possível a divulgação pública do relatório do árbitro duas horas depois do jogo terminado. Pergunta : alguém, na Liga, se chega à frente para adoptar esta prática? Normalmente, já daria jeito para entendermos algumas decisões tomadas nos desafios, sendo que, no caso vertente, ajudaria a que a discussão se centrasse no que aconteceu e não no que "talvez" tenha acontecido.

Certa mesmo foi a consequência da baixa provocada numa zona nevrálgica do Moreirense. O Benfica, que já estava por cima do jogo naquela altura, sem deixar o adversário respirar, aproveitou a meia hora final para "cair" com as forças todas sobre os minhotos, pelo que a subida do marcador é a sentença lógica da supremacia.

Posto isto, o líder segue para a próxima ronda com a garantia de que o FC Porto não vai aproximar-se. Isto é, compete agora aos dragões fazerem pela vida no Bessa e não se deixarem atrasar. Um trabalho que nada terá de simples, não apenas porque o Boavista é capaz de ser um tormento quando joga em casa, mas sobretudo porque Lopetegui vai ter de mudar quatro pedras, qualquer delas fundamental.


O jogo das duas faces

Colocado por mario.fernando em 20-02-2015 às 00h56

O que fica da passagem do Sporting por Wolfsburgo é a soma de duas formas distintas de lidar com um jogo. A demonstração de como se pode começar bem e acabar mal, sem que exista propriamente uma grande surpresa naqueles dois comportamentos antagónicos. É verdade que as incidências da partida determinaram o caminho - como em qualquer desafio - , mas houve uma grande diferença entre o Sporting da primeira parte e o da segunda. Infelizmente para os leões, a segunda pesou mais.

Olhando genericamente os primeiros 45 minutos, a prestação leonina foi muito positiva, com particular destaque para os 20 iniciais. Talvez não se pensasse que a equipa de Marco Silva surgisse de forma tão afirmativa, equilibrando as forças, de tal modo que, contas feitas, há apenas uma real oportunidade de golo para cada lado. Rui Patrício travou o remate de Schurrle que ia para o alvo e Carrillo atirou junto ao poste de Benaglio, quando estava sozinho perante o guarda-redes adversário.

Ou seja, em vez do que seria pensável - uma pressão constante e nítida dos alemães - assistiu-se à opção do Wolfsburgo em explorar as transições ofensivas, enquanto o Sporting mantinha a gestão possível, apesar dos evidentes problemas que o eixo Jung/Vieirinha ia provocando a Jefferson. A questão é que o meio campo do Wolfs não era tão "controlador" como se esperava e aqui o mérito é de quem estava do outro lado. Ora, a viragem começa no momento em que Hunt cede o lugar a Arnold (intrigante ter começado no banco), a cinco minutos do intervalo, e quando, pouco depois, o árbitro deixa passar em claro o desvio da bola com a mão protagonizado por Vieirinha na área alemã. O jogo não mais voltaria a ser igual.

Logo no primeiro minuto do reatamento, uma recuperação de bola de Naldo sobre Montero, mais o posicionamento deficiente de Jefferson, abriu o espaço para Dost marcar. É sempre complexo reagir a situações destas e o Sporting não soube como lidar com este novo cenário. Não se recompôs, De Bruyne pegou na batuta e começou a reger a partida como entendeu, enquanto todo o processo defensivo leonino revelava alguns dos problemas que, volta e meia, lhe são conhecidos. Aliás, foi nesta altura que a ausência de William Carvalho mais se notou, com reflexos na dupla de centrais que, até então, tinha correspondido às necessidades.

O segundo golo de Dost é, por sinal, um exemplo crasso da falta de coordenação global que o Sporting já mostrava, tal como os remates de De Bruyne e outra vez de Dost, que só não fizeram subir a contabilidade porque Rui Patrício - o melhor sportinguista em campo - evitou o pior. Marco Silva, sem as soluções de que realmente precisava (o já citado William e também Slimani), fez o possível : retirou o inconstante Carrillo para apostar em Carlos Mané. Não foi suficiente, mas é justamente neste período que os leões têm a hipótese de ouro para não sair em branco da Alemanha. Simplesmente, João Mário, sem marcação em plena pequena área do Wolfsburgo, cabeceou ao lado. Foi o golpe final.

A grande dúvida é tentar perceber se os leões têm alguma possibilidade de virar a eliminatória, qualquer coisa como ganhar por três. Se daqui a uma semana, em Alvalade, estiver o Sporting desta segunda parte, esqueçam. Mas se, por outro lado, surgir uma equipa com um nível idêntico à que derrotou o Schalke na fase de grupos da Champions, aí, talvez. É verdade que William e Slimani já serão equacionáveis, mas convém não esquecer que Luiz Gustavo e Guilavogui também.

E - algo a não desprezar - é bom lembrar que a partida da Liga Europa está "entalada" entre o jogo com o Gil Vicente e uma deslocação ao Dragão, seguindo-se o desafio da Taça na Madeira. Por outras palavras, em duas semanas apenas o Sporting tem pela frente uma série de decisões para o resto da época.


No caminho certo

Colocado por mario.fernando em 19-02-2015 às 01h13

Há, pelo menos, duas maneiras de encarar o desfecho da deslocação do FC Porto a Basileia. Uma é a prática que, no fundo, se resume ao facto dos dragões terem conseguido um bom resultado na Suiça, um daqueles empates que deixa o caminho da qualificação aberto. Antes do mais porque marcar fora é um suplemento muitas vezes determinante para um apuramento. Em rigor, só por si, este ponto de partida já dispensaria quaisquer considerações adicionais. Mas, não pondo isto em causa, ainda assim vale a pena olhar da outra maneira.

O Basileia comportou-se precisamente como se previa. Já tinhamos visto este filme com o Liverpool, acrescido agora da situação de mais ou menos pré-temporada que a equipa de Paulo Sousa está a viver. Entregou a iniciativa de jogo ao adversário - posse de bola esmagadora para os dragões, sem surpresa -, posicionamento muito recuado (e o Basileia sabe eliminar espaços com grande precisão) e, finalmente, espreitando o contra-ataque quando desse. A questão é que no primeiro ensaio de Frei para Derlis Gonzalez deu golo. Assim uma espécie de jackpot logo na primeira moeda colocada na máquina.

Ora, sabemos pela experiência interna que o FC Porto tem dificuldade em lidar com equipas que fecham os caminhos para a baliza e mais ainda com as que optam por uma linha de seis elementos no meio campo. Não resta buraco por onde passe uma agulha. E, na realidade, não passou. Apenas um remate de Danilo, de fora da área, sinalizou algum perigo junto a Vaclik. Isto e uma clara grande penalidade de Walter Samuel sobre Jackson Martinez que o árbitro ignorou. Foi na fase descendente do primeiro tempo em que os dragões tentaram imprimir a velocidade que lhes faltou antes.

Com este cenário, prevendo-se que o Basileia, na segunda parte, iria trancar as janelas depois de ter trancado as portas, o FC Porto estava condenado a ter de fazer melhor. Reconheçamos, fez mesmo. A entrada após o intervalo foi um autêntico cerco à fortaleza e os suiços "desapareceram" de cena. O golo até veio cedo, mas não valeu, bem invalidado pela equipa de arbitragem, embora não se entenda como demorou tanto tempo a perceber a evidência. Mas, depois, Tello e Jackson voltaram a ter nos pés a hipótese de concretizar, o que vincou o inconformismo e a vontade dos dragões em não deixarem as coisas naquele pé.

Entretanto, Lopetegui opera duas alterações. Uma de fácil compreensão, já que Brahimi não respondia às exigências e Quaresma poderia ajudar ao funcionamento do "abre latas". A outra é que talvez merecesse uma explanação do técnico, mas Lopetegui é avesso a este tipo de análises. Óliver saiu lesionado e entrou Ruben Neves, jogador de características notoriamente diferentes, quando Quintero poderia acrescentar alguma imaginação ao ataque portista. Só foi chamado já depois do assunto resolvido. 

Seja como for, veio novamente de Danilo a grande contribuição da noite ao obrigar Walter Samuel ao segundo penálti do desafio, este corretamente assinalado. O empate era o mínimo desejável, poder-se-á dizer que o FC Porto merecia mais, só que a história do futebol está cheia de "ses" que nada contam.

Do ponto de vista da qualidade individual, a diferença entre as duas equipas é enorme e, quando se previa a qualificação do FC Porto, estava-se apenas a constatar que a lógica ainda vale na maior parte destes duelos. Viu-se em campo que o Basileia não sabe nem é capaz de realizar outro tipo de atuação. Pode resultar às vezes, mas não resulta sempre. Cabe agora ao FC Porto confirmar na segunda mão que o esforço compensa.


Jogo de reflexão

Colocado por mario.fernando em 16-02-2015 às 20h25

Isto está como não devia estar. O "futebol", claro, que o outro, o futebol sem aspas, disto não tem culpa. O Jogo Jogado na TSF, desta vez, tentou refletir sobre um cenário que ameaça tornar-se ainda pior do que já é. E não vale a pena ter ilusões : ou há senso - de quem está envolvido e de quem ainda pode acionar o travão - ou aquilo que talvez seja imensamente divertido para alguns transforma-se num inferno para todos.

Mas, felizmente, ainda há o resto. Em análise, o regresso de FC Porto e Sporting ao eurofutebol, com as implicações, maiores ou menores, que isto pode ter num campeonato em que o Benfica está centrado quase em exclusivo. 

 


O bis da continuidade

Colocado por mario.fernando em 15-02-2015 às 22h05

Em poucos dias o Benfica repetiu o mesmo triunfo por 3-0 sobre o V.Setúbal, desfechos num enquadramento diferente e que não devem ser propriamente comparáveis. A partida do campeonato foi mais desnivelada no que respeita à produção de jogo e as razões radicam, sobretudo, em dois vectores : esta equipa encarnada tem uma qualidade superior à que jogou na Taça da Liga - o que era expectável - e os sadinos também acusaram bastante o primeiro golo, perdendo o fôlego desta vez muito cedo.

Quanto à primeira componente, há um dado que deve ser seguido com alguma atenção daqui para a frente. Prende-se com a zona central do meio campo do Benfica, onde Pizzi teve um papel determinante. Arranjar alguém que cumpra ao nível de Enzo Perez não é fácil - e, porventura, nem tal será possível para Jesus até fecho da temporada - , mas Pizzi foi a ponte entre Samaris e Jonas, assumindo a pivotagem do jogo das águias com grande equilíbrio, nunca descurando derivações para a ala quando tal era necessário.

Jonas beneficiou claramente daquilo, como se viu nos desdobramentos para Lima. Pode não estar encontrada ainda a solução, mas pelo menos está demonstrado que há melhor do que Talisca para aquelas funções. Noutro plano, o rendimento de Salvio subiu notoriamente e, em termos de influência, ficou logo atrás de Pizzi. Enquanto isto, Lima voltou a bisar, algo que contribui sempre para a motivação de quem tem por missão concretizar.

No que toca ao Vitória a apetência ofensiva não foi idêntica à que víramos no desafio anterior. Ainda assim, por duas vezes chegou à area adversária durante a primeira parte, em lances que ficam unicamente por conta do árbitro : no primeiro, logo a abrir a partida, ignorou o derrube de Jardel a Rambé ; de seguida, ia permitindo que François marcasse um golo com a mão, o que só não sucedeu porque Artur teve uma grande intervenção. Aliás, há um terceiro erro grave, concretamente no lance do segundo golo do Benfica, pois Ola John empurra Pedro Queirós antes de cruzar para Lima.

Mas não se pode contornar que a superioridade do líder, em jogo e em oportunidades de concretização, foi demasiado clara durante todo o tempo, incluindo por consequência a segunda metade em que o Benfica desacelerou. Em que ficou a dever, no mínimo, mais um ou dois golos a si próprio, porque a ocupação do meio terreno sadino foi praticamente uma constante. E não fora a resposta de grande nível de Ricardo Baptista, por duas vezes, somada à falta de pontaria de Lima e Luisão, teria sido possível a goleada. Era a isto que, certamente, se referia Jorge Jesus no final do encontro, exigindo um pouco mais de focagem em vez da "gestão" que uma vantagem de três golos pode proporcionar.

O campeonato passa mais uma jornada e a diferença entre os dois da frente mantém-se. O Benfica conserva os quatro pontos à maior, uma margem que, mesmo não sendo totalmente tranquilizadora, dá para lidar com os cuidados a que tal obriga. Embora se perceba que os encarnados aguardam pelos efeitos que a presença do FC Porto na Champions possa provocar nos dragões. A ver vamos depois do desafio de Basileia.


Um destino ingrato

Colocado por mario.fernando em 15-02-2015 às 01h46

É difícil separar o erro de Rui Patrício do desfecho do jogo no Restelo. Acontece aos melhores, é um facto, mas o guarda-redes leonino teve duas falhas no desafio, qualquer uma delas suicida, que só por mero acaso não acabaram ambas mal para o Sporting. Um golo daqueles marca uma partida, sendo que o do Belenenses, convenhamos, também tem o seu quê de bizarro, porque Mané só concretiza depois João Meira cortar uma bola para o poste da sua própria baliza. Tudo isto é verdade, mas a história deste empate não pode, nem deve, resumir-se a episódios insólitos.

Antes de tudo é preciso recordar que Marco Silva tinha sinalizado esta deslocação a Belém como o momento para a sua equipa sacudir o efeito psicológico do "golpe fatal" da semana anterior. Dizer é sempre mais simples do que fazer. O começo da partida mostrou um Sporting com vontade, mas padecendo de alguns dos mesmos equívocos que já demonstrara noutras ocasiões, perante adversários com bloco baixo.

Sem velocidade a probabilidade de ser eficaz diminui drasticamente. Mais utilizado o corredor esquerdo, com Jefferson e Carrillo (enquanto o peruano ainda durou), mas pouco mais de efetivo. O balanço da primeira metade não foi exatamente animador em relação ao que interessava, ou seja marcar. A grande oportunidade esteve nos pés de Montero, muito por culpa de um péssimo atraso de Camará para Ventura. Para lá disto, o mais aproximado com oportunidade que os leões conseguiram foi um remate de cabeça de William Carvalho ao lado da baliza. Sendo que, mesmo sem iniciativa ofensiva, Miguel Rosa ainda fez um disparo a centímetros da trave leonina.

Assim, o Sporting não ia lá. Foi o que pensou Marco Silva, simplesmente as alterações que operou ao intervalo não resolveram e, vendo bem, até tornaram a situação pior. Trocar Montero por Tanaka não acrescentou nada de relevante ao eixo do ataque (Slimani, sabe-se, é outra coisa a responder ao jogo aéreo que as alas pudessem produzir, mas até ver não é hipótese), enquanto a mudança de João Mário por Mané obrigaria Adrien a desenvolver um outro papel no meio campo, face à proximidade territorial entre Tanaka e Carlos Mané, o que não sucedeu. De resto, foi visível que, de esclarecida, a zona intermédia do Sporting teve pouco. E o Belenenses cresceu. 

Não deixa de ser irónico que as lamentações de há uma semana passem agora a um suspiro de alívio, quando nos reportamos a circunstâncias idênticas : um golo no último lance do desafio. Contudo, esta igualdade nada traz de tranquilizador, pelo contrário.

Significa o fim da utopia do título, caso se confirme o triunfo do Benfica nesta ronda, tal como deixa o segundo lugar mais longe, isto a duas semanas de uma ida ao Dragão. Com a agravante de ter um encontro na Alemanha, já a seguir, onde o Sporting joga o futuro europeu. Trabalho titânico para Marco Silva, tirar da cabeça dos jogadores dois resultados negativos consecutivos. É a fase mais delicada da temporada para o técnico leonino.



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