Com Luís Freitas Lobo e João Rosado, sob a arbitragem de Mário Fernando

Às segundas, depois das 19h, com repetição depois da meia-noite.

Luís Freitas Lobo

Nasci em 1967. Em 1970, portanto, já estava presente para testemunhar as maravilhas de Pele, Jairzinho, Tostão e companhia no Mundial do México. Ainda não conseguia, no entanto, ver os jogos sob uma perspectiva táctica. Agora, como os tenho todos gravados na minha colecção particular de vídeos, vejo-os religiosamente. Como se viajasse no tempo e visse Puskas da mesma forma que hoje vejo Kaká. Para mim, mais do que cinco continentes e sete mares, o mundo é um infinito conjunto de campos de futebol com muitas casas á volta e desde 1998 que tenho procurado, em vários meios de comunicação, passar essa emoção. Porque, como gosto de dizer 'Quando um homem tem uma paixão, seja ela qual for, o melhor que tem a fazer é ir tratar dela!'
Da Revista Mundial e Publico, até ao Expresso e à sagrada A Bola, a Bíblia com que em menino aprendi a escrever lendo Mestres como Vítor Santos. Na rádio da Antena 1 à TSF, na televisão, da SIC Noticias até à RTP, onde hoje estou. Todos os dias penso em futebol. Por isso, em qualquer local, falo ou escrevo sobre futebol, partindo sempre da única forma que o entendo ser possível conceber: com emoção.

João Rosado

João Rosado nasceu em Évora, em 1970. É licenciado em Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Entre 1988 e 1992 foi colunista no jornal «A Capital». Foi redactor no jornal «Record» entre 1992-1995 e 2003-2004. Entre 1995 e 2002, foi redactor e editor no jornal «O Jogo». Desde 2007 é colunista no jornal «Diário de Notícias. Foi comentador de futebol na «Antena 1» entre 1999 e 2000, na «Rádio Renascença» entre 2001 e 2004, na Sport TV entre 2001 e 2007. É comentador de futebol na SIC, desde 2007, e na antena da TSF desde 2004.

Mário Fernando

Jornalista há 27 anos passou a maior parte da vida profissional na rádio. Comercial, Renascença, RFM, Correio da Manhã e XFM até aterrar na TSF. Foi em 1995 e, três anos depois, passou a editor de Desporto. Até hoje. É um fanático por futebol, por isso, não tem paciência para a forma como os dirigentes tratam a coisa, ou seja, quando resolvem que os clubes deles é que contam e o resto é paisagem. Não é, mas isso eles jamais vão entender. No meio de tudo isto houve três reportagens que o marcaram: a primeira visita de Nelson Mandela a Londres depois da libertação e duas edições dos Jogos Olímpicos, Sidney2000 e Pequim2008. Curiosamente, nenhuma delas tem a ver com futebol.

Mundialices - Acto XXIV

Colocado por mario.fernando em 14-07-2014 às 01h11

E no fim, a Alemanha é tetracampeã. Podia ser a velha máxima de Lineker, devidamente atualizada, depois da final do Maracanã. Um jogo que Schweinsteiger mereceu ganhar e Mascherano não merecia perder. Falar-se de justiça ou injustiça numa partida destas é irrelevante. As coisas são o que são. Goetz fez aquilo que mais ninguém conseguiu e de forma brilhante. Resultado : o título ficou com a melhor seleção do Campeonato do Mundo. De todo o campeonato. 

A Argentina deu o que podia ao limite, até dispôs de mais oportunidades para concretizar, mas, desta vez, a eficácia não esteve lá. Nem Higuain, nem Palacio (as duas ocasiões cruciais), nem...Messi. Talvez ao seu nível real a história pudesse ser outra, como se notou no arranque da partida. Este Messi podia resolver (como resolveu) alguns jogos aos argentinos neste Mundial, embora não chegasse para decidir uma final com a Alemanha. Daí a surpresa da Bola de Ouro, quando Robben apresentou muito mais razões para a receber. 

O encontro do Rio mostrou uma Alemanha com muita posse de bola - por opção da própria Argentina, como se calculava - e uma tremenda dificuldade em furar uma barreira que, confirmou-se, sabe defender como poucas. Os sul-americanos, também sem surpresa, na sequência do que fizeram desde o início da prova, apostaram nas transições ofensivas e na arte que os homens da frente pudessem usar. Quase que deu, mas o quase é inútil numa decisão de um título.

A Alemanha escudou-se novamente na sua estrutura e na solidez dos vários setores, até mesmo quando, paradoxalmente, algo falhava. Sabia-se que um pronto-socorro apareceria de algum lado, nem que fosse, em última instância, o extraordinário Neuer. Joachim Low foi calculista e definiu corretamente o timing para a entrada de Goetz, já com os olhos no prolongamento. Não quis arriscar antes, mas o facto é que arriscou certo. Além de ter contornado a ausência imprevista de Khedira (que falta terá feito) e a saída forçada de Kramer.

É a primeira seleção europeia a sagrar-se campeã em solo americano e, também por este lado, abriu um novo capítulo na história do futebol. Se deve usar-se como padrão que a seleção mais regular e mais afirmativa durante um Mundial deve ser coroada, então a Taça está bem entregue.  

PS : Terminado o Mundial, retiro-me durante as próximas semanas. Durante as férias continuarei a acompanhar à distância as movimentações de mercado - a contratação de jovens jogadores, vindos das mais variadas proveniências, tem estado a marcar boa parte das aquisições dos três grandes, algo que reflecte um conceito generalizado, ainda que por motivos distintos de caso para caso - , mas também esta situação preocupante da organização do campeonato.

A guerra interna na Liga, consequência das trincheiras instaladas entre clubes e interesses laterais com eles relacionados, está a criar um cenário insustentável. E só por pura ingenuidade se pode pensar que qualquer um dos lados vai fazer marcha atrás por iniciativa própria. Até Agosto.


Mundialices - Acto XXIII

Colocado por mario.fernando em 13-07-2014 às 02h41

Foi mais um jogo de "consolação". Designação ridícula para uma punição suplementar daqueles que foram eliminados nas meias finais, pois é isto que realmente constitui uma partida de atribuição dos terceiro e quarto lugares, No fundo, uma inutilidade. Mas a FIFA acha que deve ser assim, uma vez mais a tradição a sobrepôr-se à realidade. Para o Brasil, em concreto, foi pior a emenda do que o soneto. Se a ideia era aproveitar o jogo para "consolação", as consequências estão à vista.

Mesmo depois do desastre - duas derrotas, dez golos sofridos em dois jogos, nem um lugar no pódio, falência de um conceito, ausência de uma ideia de jogo - Scolari não se demite. Fica o lugar "à disposição" como "estava combinado fosse qual fosse a classificação". Não sei se a CBF já percebeu o que aconteceu. Seja como for, o destino do futebol brasileiro está nas mãos dos seus dirigentes.

Duas notas apenas : o abraço de Neymar a Scolari a meio da conferência de imprensa final, no preciso momento em que o selecionador está a ser questionado sobre a sua continuidade. Nada de inocente, como é óbvio. E outra vez o lado emocional a sobrepôr-se ao racional, do princípio ao fim. Depois, a arbitragem. Fraquinha, erro duplo no lance da grande penalidade. Não é penálti, mas Thiago Silva não podia continuar em campo. Mesmo que o castigo máximo não fosse assinalado, como reagiria emocionalmente o Brasil a jogar contra a Holanda com dez elementos aos dois minutos de jogo? 

Já que vem aí uma final Alemanha - Argentina fica apenas uma adenda. A seleção alemã campeã europeia de sub21 em 2009 integrava Neuer, Boateng, Hummels, Howedes, Khedira e Ozil. A seleção olímpica argentina que ganhou em 2008 contava com Romero, Garay, Zabaleta, Gago, Mascherano, Lavezzi, Aguero, Messi e Di Maria. Custa a crer que o que se passa em 2014 nada tenha a ver com isto.


Mundialices - Acto XXII

Colocado por mario.fernando em 10-07-2014 às 01h01

Devagar, devagarinho, mas a Argentina lá vai discutir o título mundial com a Alemanha. Como se calculava, a meia final com a Holanda nada teve a ver com a da véspera (porventura, nem daqui a cem anos se voltará a assistir a algo idêntico), foi um jogo muito mais enquadrado naquilo que (pré)determinava uma partida que decidia o acesso a uma final.

Durante 80 minutos reinou a ausência de risco. As coisas animaram um pouco depois, prolongamento incluído, mas as grandes penalidades tornaram-se uma inevitabilidade. Verdade seja dita, a Holanda pagou a factura da descaracterização a que Van Gaal a sujeitou, porque isto de retrair quem não nasceu para isso é, no mínimo, contranatura. Compare-se o jogo de abertura com a Espanha com este frente à Argentina. Fica a "gracinha" da troca de guarda-redes na eliminatória anterior, mas também uma semifinal falhada. Ou seja, por muito respeito que se tenha pelo selecionador holandês, falhou no momento fundamental.

Alejandro Sabella, sem conseguir que a sua seleção deslumbrasse uma única vez durante toda a caminhada, teve uma virtude. O suporte defensivo da Argentina tornou-se na sua maior força, mas sobreveio quando abdicou de Gago para dar prioridade a Biglia, o que ajudou Mascherano a ser aquilo que realmente é. Frente à Holanda, por exemplo, Mascherano foi o melhor em campo (Romero o homem do jogo, mas isso é fácil de perceber). E também com a dupla Demichelis/Garay cuja eficácia foi determinante. Quanto ao resto, Messi, quando aparecia, Di Maria, que "criava" soluções, e Higuain, se a pontaria surgia, mantiveram a seleção à tona. O suficiente para ganhar um lugar no Maracanã.

Posto isto, vem aí um grande duelo. Alemanha, da estrutura sólida e sectores equilibrados como ninguém mais tem, versus Argentina, defensivamente coesa e de rasgos determinantes das suas individualidades. Europa versus América do Sul como os compêndios preferem.


Mundialices - Acto XXI

Colocado por mario.fernando em 08-07-2014 às 23h36

Por mais inacreditável que pareça, foi em pleno Mineirão que aconteceu a maior humilhação da história do futebol...brasileiro. Até o Maracanazo foi superado, da pior maneira, porque não é o mesmo perder tangencialmente o jogo decisivo para o título que ser esmagado numa meia final, com a derrota mais pesada de sempre no seu próprio país. Mesmo que o adversário fosse uma Alemanha, a seleção mais estruturada e mais forte em todos os sectores deste Campeonato do Mundo.  

Desde o início do Mundial que muitos de nós vinham falando da visão equívoca da seleção do Brasil. Da ausência de uma ideia de jogo, da dependência das individualidades (acima de todos, ou quase só, Neymar, a peça que não havia agora) para resolver o que o coletivo não sabe, de um onze partido em dois, a tal "turma da frente" e a "turma de trás" como aqui sublinhei há uns dias (repararam certamente na quantidade de pontapés diretos de David Luiz para Fred e Hulk), além da insistência numa dupla de pivôs defensivos que deixavam autênticas crateras entre eles e o quarteto da sua retaguarda. Para Khedira e Kroos foi um sonho, fizeram literalmente o que lhes apeteceu.

Quando o Brasil sofreu o primeiro grande susto, frente ao Chile, confirmou-se que a seleção estava a habilitar-se. Scolari não entendeu assim. Nem na altura, nem agora. Mesmo depois de trucidado pelos alemães ainda alega que foi "um mau momento", como se sofrer quatro golos de rajada pudesse ser apenas uma questão de momento. Note-se : estamos a falar do Brasil, o "candidato dos candidatos" que partira à conquista do hexa. É certo que Scolari ainda tem um jogo para fazer, mas insistir numa versão redutora perante isto é vincar uma ilusão que a realidade alemã destruiu.

O edifício ruiu, não ficou pedra sobre pedra, e o futebol brasileiro, para seu próprio bem, tem de repensar tudo. Por exemplo, que a tradição de aliar a arte à construção coletiva não pode ser atirada pelo cano abaixo com esta facilidade. Para não ir mais atrás no tempo - só falo daquilo que os meus olhos viram - querer comparar 1970 e 1982 com aquilo que este Brasil mostrou só mesmo por brincadeira. Scolari e Parreira podem ter-se convencido que este modelo de "tracção controlada", à moda de 1994, também daria título. O problema é que bónus deste género só surgem uma vez.

No meio deste cenário de catástrofe canarinha, quase que somos levados a esquecer que a Alemanha é, também ela, uma superpotência do futebol. A diferença é que Joachim Low moldou uma equipa - aqui sim, faz sentido falar de equipa - que vai para lá da inegável capacidade técnica dos seus jogadores. Já falei do papel "aproveitador" de Khedira e Kroos, perante os erros de principante de inúmeros elementos do Brasil em todo o processo defensivo, mas conviria, uma vez mais, sublinhar os desempenhos de Lahm (aquele corredor é vital), Muller (penso que Marcelo ainda está a tentar perceber o que lhe aconteceu) e Schurrle, o "acrescento" da segunda parte. Tudo muito simples e implacavelmente eficaz, com direito à cereja em cima do bolo : Klose, o rei dos marcadores dos Mundiais.

Virou-se uma página - histórica - no Campeonato do Mundo. Só falta saber que vai ditar o Argentina - Holanda. Talvez se vire outra página, embora certamente não há custa de números idênticos. Seja como for, a Alemanha, por ora, fica na primeira linha da grelha de partida.   


Mundialices - Acto XX

Colocado por mario.fernando em 06-07-2014 às 01h34

1 - Vamos por partes, porque a qualificação da Holanda para as meias finais do Mundial resulta de um cruzamento de factores pouco comum. Sobretudo, neste campeonato. Sim, a Holanda é e foi melhor que a Costa Rica e não está em causa a justeza do apuramento. Simplesmente, por aquilo que é a tradição da "laranja", não seria de esperar que a "mecânica" fosse outra?

Em termos práticos, até aos últimos dez minutos do tempo regulamentar, os holandeses fizeram pouco ou nada. Que os costarriquenhos entrassem para o jogo com a clássica linha de cinco a defender e com outra de quatro na zona intermédia, nada espantou. A seleção de Jorge Luis Pinto sabia que a sua façanha histórica estava à beira do fim, pelo que optar pelo seguro era mesmo a única alternativa que lhe restava. Mas que Van Gaal, que não tinha De Jong, se entretivesse com um 3x4x3 é que começou a ser difícil de entender a partir de certa altura.

Robben - novamente - foi o único elemento da Holanda visivelmente inconformado com a indolência da equipa, que, em termos de oportunidades de golo, teve dois momentos marcantes por Sneijder, devolvidos pelos ferros, e tudo o resto defendido por um Navas de alto calibre, que sai do Mundial como uma das grandes figuras das balizas. Acontece que só mesmo na segunda parte do prolongamento Van Gaal decidiu que era tempo de tratar de resolver as coisas e virou para um 4x2x4 que, finalmente, sufocou a Costa Rica. Tarde, o que obrigou à sentença dos penáltis.

O que o selecionador holandês fez a seguir é inédito, mas só possível por Van Gaal ser quem é. Trocar de guarda-redes, à boa maneira do andebol, só para Tim Krul ir defender as grandes penalidades, é daquelas decisões que deixam um selecionador entre o génio e o suicida. Krul adivinhou sempre o lado dos remates da Costa Rica, parou dois, virou herói e Van Gaal...continua "vivo".

Como o derradeiro obstáculo para regressar à final chama-se Argentina, é de crer que o responsável holandês repense algumas coisas. Ou não. Van Gaal surpreendeu todos com um outro ADN para a seleção, já mudou de modelo mais do que uma vez durante as partidas e até se deu ao luxo da "gracinha" dos guarda-redes. Sabella só tem uma certeza : nada do que vier do outro lado é previsível.  

2 - Falando de previsíveis, mais um deles chegou às meias finais. A Argentina, um pouco à semelhança do que sucedeu com o Brasil, mesmo sem notória demonstração de poder efectivo, só precisou de ser menos inconsistente para tirar a Bélgica do caminho. Afinal, depois de tantos jogos sem tratar do óbvio, Sabella lá resolveu dar a titularidade a Biglia em vez de Gago e os efeitos notaram-se. Por outro lado, a coerência defensiva - Demichellis com Garay - teve mais peso nesta partida do que nas anteriores.

Apesar da Bélgica ter a sua quota de responsabilidade no desenlace do encontro (mas já lá vamos), o facto é que a Argentina continua a contar com os seus artistas de serviço para resolver os problemas. Messi, naturalmente, ainda que esta nem tenha sido das suas melhores exibições - mas está no golo de Higuain e viu Courtois negar-lhe brilhantemente o 2-0 - e Di Maria, saído prematuramente, o que roubou aquele "algo mais" que ele sabe dar. Enzo Perez estreou-se, só que não é aquele o papel que deve desempenhar, como o selecionador é suposto saber.

Os belgas tiveram de lidar com um obstáculo adicional. Um golo cedo deu aos argentinos a hipótese de conduzirem o jogo, o que fizeram razoavelmente bem. Esta seleção europeia poucas vezes denotou ter capacidade para criar espaços na zona central e até mesmo nos corredores. De Bruyne tentou, Fellaini assumiu em várias ocasiões o papel de "10" e Marc Wilmots até mudou toda a frente de ataque durante a segunda parte, incluindo Lukaku, mas nem assim. No fundo, a estratégia belga era outra e aquele golo de Higuain subverteu o plano.

Em qualquer circunstância, atenção à Bélgica daqui a dois anos. Se, como aqui referi, a França tem como objetivo claro conquistar o próximo Europeu, o conjunto belga promete igualmente ser uma das sérias referências do torneio. O tirocínio no Brasil não deixa grandes dúvidas.   

3 - O novo campeão mundial está no lote Alemanha, Brasil, Argentina e Holanda. Ou seja, os 50/50 continentais dos quartos de final mantêm-se para as meias. É o momento em que modos distintos de abordar o jogo, com modelos e intérpretes diferentes, têm de provar que todo o caminho feito até aqui assentou numa lógica de vitória. Mesmo que, do ponto de vista estritamente futebolístico, às vezes não pareça. 


Mundialices - Acto XIX

Colocado por mario.fernando em 05-07-2014 às 00h57

1 - A canarinha está nas meias finais, onde já não contará com Neymar. Este é que passou a ser o ponto fulcral para o resto da prova, agora que Scolari já não vai ter, frente à Alemanha, o seu trunfo maior. Talvez, o seu único trunfo real. Logo agora que o melhor Brasil deste Mundial apareceu na primeira parte do jogo com a Colômbia. O que, contudo, não é a mesma coisa que dizer que o Brasil está melhor. O comportamento é que foi diferente, logo, com outro tipo de reflexos na produção da equipa.

Desta vez, o Brasil foi mais pressionante e muito mais agressivo sobre a bola. O golo madrugador de Thiago Silva, a que se somou o fabuloso livre de David Luiz (dois centrais a concretizar) reflectiram uma superioridade sobre a Colômbia que, no entanto, não escondeu o "pecado original" que continua lá. Os criativos - quer dizer, Neymar - e os rompedores - leia-se, Hulk - permanecem (permaneciam) como as soluções viáveis para a resolução dos problemas. E quando não dá, existe sempre uma bola parada. Ou duas, no caso.

A Colômbia - porque nem sempre o que está bem sai bem - foi vítima, por um lado, do seu próprio voluntarismo e, por outro, de uma ideia de Pekerman que não resultou. A seleção colombiana, de vocação ofensiva congénita, não pode desperdiçar espaços nas transições. E muito menos perder sistematicamente a bola depois de a recuperar. Com Cuadrado em dia não, sobrou a factura para James que tentou - até ao limite, sublinhe-se - trabalhar por ele e pelos outros. Aliás, se alguém não merecia ficar por aqui no Mundial é ele, como David Luiz fez questão de lhe demonstrar no fim da partida.

Pode perceber-se o alcance da intenção de Pekerman ao abdicar de Jackson em favor de Ibarbo, tal como usar Guarin em vez de Aguillar. O problema é que não funcionou, nem uma coisa nem outra. Aliás, Sanchez ressentiu-se disto e o resto da equipa também. De qualquer forma, a Colômbia será sempre lembrada como uma das boas surpresas do Mundial.

Mas agora - voltando ao ponto de partida - a pergunta é : que Brasil vai existir sem Neymar? É uma pergunta para a qual Scolari terá de encontrar resposta rápida, não apenas técnica mas emocional dentro do grupo. Substituir o suspenso Thiago Silva não é problemático, como não foi colocar Paulinho no lugar de Luiz Gustavo. Simplesmente, preencher o vazio deixado por um jogador genial é uma verdadeira missão impossível.  

2 -  E a Alemanha, pela quarta vez consecutiva, lá está nas meias finais. Valeu um lance de bola parada, novamente com Hummels a ser determinante, mas o facto é que esta equipa de Joachim Low tem uma consistência que a França ainda não possui. Embora para lá caminhe.

Poder-se-á dizer - e com alguma razão - que Pogba e Matuidi (mais o primeiro do que o segundo) não conseguiram, perante os alemães, evidenciar a totalidade das suas capacidades, mas é preciso perceber o que encontraram do outro lado. A Alemanha é, provavelmente, a seleção mais equilibrada em todos os sectores - e não apenas do ponto de vista qualitativo - pelo que nem precisa de ser exuberante para se afirmar. Basta-lhe ser o que é.

Quem conta com Neuer na baliza (e foi crucial em dois momentos, um deles ao cair do pano, a remate de Benzema), dispõe de Hummels, um dos melhores centrais do mundo, utiliza Lahm da forma correta na lateral direita, vive do "músculo" de Schweinsteiger, da influência vital de Kroos e da imprevisibilidade de Muller - só para citar alguns - habilita-se a que as coisas corram bem. Até mesmo quando Klose faz quase figura de corpo presente. Segue-se um jogo "do outro mundo" com o Brasil. Que os alemães vão querer que seja o seu.

Quanto à França creio que cumpriu o verdadeiro objetivo de Didier Deschamps. Ele não apontava ao título mundial, obviamente. O selecionador prosseguiu a aplicação de um plano que visa, isso sim, o ataque à conquista do próximo Europeu. Os indicadores estão lá, materializados nas performances dos médios acima referidos, mas também no previsível crescimento de Varane ou nas promessas deixadas por Griezmann ou Giroud (que entrou tarde). Para quem tem Benzema e nem sequer pode contar com Ribery, convenhamos, o percurso francês foi muito interessante.   

3 - Slimani revelou que a seleção argelina vai doar o prémio monetário a que tem direito pelo desempenho no Mundial à população de Gaza : "Eles precisam mais do que nós". Os jogadores da Grécia comunicaram ao primeiro ministro de Atenas que abdicavam dos prémios do Mundial, para que as verbas fossem investidas num centro de treinos para as seleções. É só para que isto não se perca na voragem das notícias.


Rui Tovar

Colocado por mario.fernando em 03-07-2014 às 22h08

Hoje não. Tinha começado a alinhar umas ideias sobre a ponta final do Mundial, no momento em que a notícia me chegou. O inesperado - era seguramente a última coisa que me passaria pela cabeça - , ainda me deixou mais estupefacto. Muitos dos que me lêem nunca conheceram o Rui Tovar. Não sabem o que perderam, mas eu sei.

Ele não era apenas mais um rosto que marcou a televisão durante décadas, numa área que desperta o interesse de milhões. O Rui Tovar era um profissional com uma lucidez como vi poucos. Tive a sorte - sorte mesmo - de trabalhar com ele vários anos e, agora, posso dizer que foi com o Rui que aprendi a distanciar-me das leituras simplistas - ou imediatas - que somos tentados a fazer sobre o comportamento dos agentes desportivos. Que é como quem diz, dos homens. Só por isto, já lhe estou agradecido.

Acontece que o Rui era, para toda a gente, um gentleman genuíno (desculpa lá pelo anglicismo, que tu dispensarias). Além de que sabia da matéria mais do que eu alguma vez conseguirei saber. E era uma notável enciclopédia. Bastava perguntar-lhe algo sobre um qualquer acontecimento de há não sei quantos anos, que ele não falhava. Ia a pormenores dos quais jamais nos lembraríamos. Acertava, invariavelmente. Nunca conheci alguém com idêntica capacidade.

Nem sei que mais dizer. Esta custou.


Mundialices - Acto XVIII

Colocado por mario.fernando em 01-07-2014 às 23h34

1 - Tem sido um Mundial de grandes jogos, golos fantásticos (e muitos), mas igualmente o Campeonato do Mundo dos guarda-redes. Nunca tantos brilharam numa fase final como desta vez. Tim Howard entrou para a lista dos "fazedores" de defesas "impossíveis" - numa quantidade impensável numa só partida - depois do modo como deixou a Bélgica à beira de um ataque de nervos. Os belgas foram melhores em praticamente tudo no duelo com os Estados Unidos, à exceção da última barreira. Aqui pode mesmo dizer-se que a seleção de Klinsman, no tempo regulamentar, foi Howard mais dez.

Origi, Hazard, Witsel, Kompany, De Bruyne, enfim, quase todos tiveram nos pés e na cabeça a possibilidade de resolverem a eliminatória, mas o guarda-redes norte-americano negou tudo. E foi ele quem obrigou a um prolongamento (até porque Wondolowski falhou escandalosamente, ao minuto 90+3, de baliza aberta, numa das raras oportunidades americanas na segunda parte).

Tim Howard só quebrou no arranque do tempo extra. Mas a isto não é alheia a aposta em Lukaku - o joker do prolongamento - que esteve nos lances que ditaram a sentença. Vai ser muito interessante conferir o que poderá realizar o coletivo belga - enquanto somatório de individualidades - perante Messi. Perdão, perante a Argentina.

2 - A Argentina, sem denotar algo que não se tenha visto antes, lá se livrou da Suiça. A expressão faz mais sentido do que pode parecer à partida, se nos lembrarmos que a seleção sulamericana teve nas mãos de Romero a resolução dos primeiros problemas, na classe de Messi a "chave" para a concretização de Di Maria e no ferro da sua própria baliza a garantia de que não iria a penáltis. Quanto ao resto, pouco ou nada, como tem sido hábito.

Perante uma Suiça com uma disciplina tática invejável - o que não é novidade -, mas não tão eficaz quanto desejaria na finalização das transições ofensivas, Sabella manteve os mesmos princípios dos jogos anteriores. O que nada de mal teria se estivessem certos. Não estão, como as dificuldades sentidas pela enésima vez demonstraram. Logo veremos se frente à Bélgica volta a insistir nos médios defensivos "colados", entregando a resolução final dos problemas à magia de Messi. Arrisca-se a que um dia precise de algo mais do que isto e não saberá como.  

3 - Este Mundial provocou uma razia nas seleções europeias, sobretudo na fase inicial. Só que, ao contrário do que uma primeira e rápida leitura poderia sugerir, o "síndrome continental" está longe de explicar tudo. Nada assegura que, finalmente, uma seleção da Europa vença um Mundial no continente americano, simplesmente o facto é que chegam aos quartos de final Alemanha, Holanda, França e Bélgica. Que é como quem diz, metade das oito presenças nesta etapa.


Mundialices - Acto XVII

Colocado por mario.fernando em 01-07-2014 às 00h42

1 - E vamos mesmo ter um França - Alemanha nos quartos de final. Ainda que esta passagem das duas seleções europeias tenha sido bastante mais complexa do que, provavelmente, julgariam. Os franceses só mesmo no derradeiro quarto de hora conseguiram ser suficientemente assertivos e livrar-se do fantasma do prolongamento com o qual a Nigéria ameaçava. Mas prevaleceu uma certa forma de "estar" e a qualidade individual de algumas peças. Como o fantástico Pogba ou a "chave" Griezmann. A França mantém-se coerentemente na corrida. O adversário do "sim ou sopas" à capacidade gaulesa vem agora.  

2 - A Argélia deixa o Mundial com a marca de melhor seleção africana da atualidade. O duelo que travou com a Alemanha - e discutiu efetivamente o jogo - mostrou que não foi um mero acidente ter atingido esta fase da prova. E nomes como Slimani, Halliche, Brahimi, Djabou ou o guarda-redes M'Bohli ficam ligados a esta "epopeia" com toda a legitimidade. A forma como a Argélia pressionou durante a primeira parte, só deixando aos alemães a possibilidade de tentarem chegar ao golo com remates de fora da área, ilustra a maneira determinada como abordaram o jogo.

Só já com o segundo tempo em andamento, após a entrada de Khedira e o desvio de Lahm para a lateral direita, se viu a verdadeira face da Alemanha ou, se quiserem, a face que se esperava ver. O prolongamento, justamente conquistado pelos argelinos, acabou condicionado pelo golo madrugador de Schurrle, mas nem isto nem a quebra física impediram os africanos de, literalmente até ao último minuto, resistirem.


Mundialices - Acto XVI

Colocado por mario.fernando em 30-06-2014 às 01h10

1 - A primeira entrevista de Paulo Bento pós-Mundial não adiantou muito ao que (não) se sabia, mas serviu para avançar alguma coisa.

Para começar, o selecionador confirmou a hipótese que aqui levantara depois de declaração de Fernando Gomes. Isto é, Paulo Bento nem sequer colocou o lugar à disposição, porque o entendimento das partes era o do que o contrato celebrado incluía o Euro2016, qualquer que fosse o desfecho da campanha no Brasil. Eles sabiam disto, o país é que só sabia do tal "objetivo mínimo".

Por outro lado, ainda não foi desta que ficámos elucidados sobre quem contratou o fisioterapeuta do Real Madrid. O médico já tinha dito que não fora ele, Paulo Bento também não foi, ficámos apenas por um "foi a estrutura da Federação". Quanto ao resto - tirando a alusão à altitude, usada como paralelismo com a temperatura, o que não faz o menor sentido - admitiu erros relacionados com opções técnicas durante os jogos. No entanto, não explicou cabalmente o porquê de repetir com os norte-americanos o mesmo meio campo utilizado frente aos alemães.Tal como enunciou quatro jogadores em risco de lesão, quando o médico falara em seis.

O jogo com a Alemanha foi marcante para a seleção. Segundo Paulo Bento, os quatro golos condicionaram tudo o resto. Sem dúvida. Mas há um pormenor que tem sido esquecido em todas as análises e nesta entrevista também. Acontece que o Alemanha - Gana se realizou antes do Portugal - Estados Unidos e a seleção sabia que duas vitórias - por qualquer resultado - colocavam Portugal nos oitavos. Frente aos norte-americanos, até começámos em vantagem e depois...Faltou explicar o que falhou na recuperação psicológica do primeiro para o segundo jogo. Os 4-0 iniciais, do ponto de vista contabilístico, já não contavam. Foi o empate da segunda jornada que trouxe a calculadora de volta.    

Finalmente, o futuro imediato. Paulo Bento não rejeita ninguém (suponho que à exceção dos excluídos pelas razões conhecidas) e disse algo que merece concordância. Seria um erro primário varrer quase toda a gente do "onze-base" no Mundial, devendo-se, isso sim, conservar aqueles que fazem falta - além de Ronaldo - num processo de transição (afastar Moutinho, Pepe, Coentrão ou Nani, só para exemplificar, seria insensato). Mas chegou o tempo de dar prioridade a jogadores para os próximos anos - contando já com o Europeu - , como é o caso muito evidente de William Carvalho. Mas convém lembrar André Almeida, Neto, Rafa ou Ruben Amorim que já lá estão. Depois é estar atento a outros e começar a chamá-los em função da sua performance desportiva.

Só uma última nota. Se a ideia é mesmo renovar, esta qualificação para o Europeu é o momento ideal. A qualificação para França é a mais fácil de que há memória, uma vez que se apuram diretamente os dois primeiros de cada grupo, mais o melhor terceiro. E, mesmo assim, os restantes terceiros ainda vão a play-off. Querem melhor oportunidade?    

2 - Pode não ter sido um jogo exuberante - com aquela temperatura era praticamente impossível - , mas a partida que ditou a qualificação holandesa para os quartos valeu a pena. Sobretudo pela ponta final, naturalmente, altura em que o México se deixou ultrapassar (a dois minutos dos 90 estava a ganhar), mas também por alguns desempenhos individuais e, dado determinante, pela forma com os selecionadores lidaram com o andamento do desafio. Van Gaal mudou e venceu.

Como se previa, a disposição tática dos mexicanos atrapalhou a vida a uma Holanda que estava a habituar-se às transições ofensivas (rápidas) que tão bons resultados tinham dado anteriormente. Mas para tal é preciso espaço e o meio campo do adversário não lho deu, apesar de maior posse de bola dos europeus.

Aliás, na primeira parte, as poucas ocasiões de golo que surgiram até penderam para o lado mexicano. A Holanda só teve uma real situação que, por sinal, derivou de um passe errado que foi parar aos pés de Robben, com o avançado a ser travado em falta dentro da área mexicana. Foi o maior erro de Pedro Proença no jogo, ao ignorar a grande penalidade clara.

Portanto, com esta cadência, percebeu-se que dificilmente algo mudaria sem um golo. Giovanni dos Santos tratou do assunto, logo a abrir a segunda parte - um pontapé fantástico - , o que implicou a necessidade de Van Gaal agir. A dificuldade em derrubar a organizada barreira mexicana apontava para um trabalho diferente. Ainda por cima com Ochoa, uma vez mais, a realizar os "impossíveis" do costume, culminando com uma defesa por instinto, a remate de Van Der Wiel, que ainda tabelou no poste.  

Van Gaal, mestre em interpretar a realidade como poucos, teve de abdicar do seu conceito de base e evoluir para um 4x3x3. Robben, à direita, finalmente emergiu e os efeitos tornaram-se visíveis e cruciais. Veio o "tiro" de Sneijder, veio o penálti fatal, e o México viu o sonho esfumar-se em poucos minutos. A "laranja" mantém a marcha. Segue-se a Costa Rica. Será que a Holanda aponta mesmo à quarta final num Campeonato do Mundo?

3 - Razões de ordem pessoal não me possibilitaram seguir o Costa Rica - Grécia. Vi a síntese, mas não é suficiente para uma apreciação. Fica o facto : esta Costa Rica, durante grande parte do jogo só com dez, aguentou-se e voltou a ser feliz. Provavelmente não passará dos quartos, mas esta caminhada já se tornou numa lenda no país.

PS : O programa Jogo Jogado Especial, de balanço final da participação portuguesa no Mundial, e não só, está agendado para esta 2ª feira, na TSF, no horário tradicional, entre as 19 e as 20 horas.



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