Com Luís Freitas Lobo e João Rosado, sob a arbitragem de Mário Fernando

Às segundas, depois das 19h, com repetição depois da meia-noite.

Luís Freitas Lobo

Nasci em 1967. Em 1970, portanto, já estava presente para testemunhar as maravilhas de Pele, Jairzinho, Tostão e companhia no Mundial do México. Ainda não conseguia, no entanto, ver os jogos sob uma perspectiva táctica. Agora, como os tenho todos gravados na minha colecção particular de vídeos, vejo-os religiosamente. Como se viajasse no tempo e visse Puskas da mesma forma que hoje vejo Kaká. Para mim, mais do que cinco continentes e sete mares, o mundo é um infinito conjunto de campos de futebol com muitas casas á volta e desde 1998 que tenho procurado, em vários meios de comunicação, passar essa emoção. Porque, como gosto de dizer 'Quando um homem tem uma paixão, seja ela qual for, o melhor que tem a fazer é ir tratar dela!'
Da Revista Mundial e Publico, até ao Expresso e à sagrada A Bola, a Bíblia com que em menino aprendi a escrever lendo Mestres como Vítor Santos. Na rádio da Antena 1 à TSF, na televisão, da SIC Noticias até à RTP, onde hoje estou. Todos os dias penso em futebol. Por isso, em qualquer local, falo ou escrevo sobre futebol, partindo sempre da única forma que o entendo ser possível conceber: com emoção.

João Rosado

João Rosado nasceu em Évora, em 1970. É licenciado em Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Entre 1988 e 1992 foi colunista no jornal «A Capital». Foi redactor no jornal «Record» entre 1992-1995 e 2003-2004. Entre 1995 e 2002, foi redactor e editor no jornal «O Jogo». De 2007 a 2012 foi colunista no jornal «Diário de Notícias. Foi comentador de futebol na «Antena 1» entre 1999 e 2000, na «Rádio Renascença» entre 2001 e 2004, na Sport TV entre 2001 e 2007. É comentador de futebol na SIC, desde 2007, e na antena da TSF desde 2004.

Mário Fernando

Jornalista há 27 anos passou a maior parte da vida profissional na rádio. Comercial, Renascença, RFM, Correio da Manhã e XFM até aterrar na TSF. Foi em 1995 e, três anos depois, passou a editor de Desporto. Até hoje. É um fanático por futebol, por isso, não tem paciência para a forma como os dirigentes tratam a coisa, ou seja, quando resolvem que os clubes deles é que contam e o resto é paisagem. Não é, mas isso eles jamais vão entender. No meio de tudo isto houve três reportagens que o marcaram: a primeira visita de Nelson Mandela a Londres depois da libertação e duas edições dos Jogos Olímpicos, Sidney2000 e Pequim2008. Curiosamente, nenhuma delas tem a ver com futebol.

Assinar o ponto

Colocado por mario.fernando em 23-10-2014 às 01h20

Sair do Mónaco com um ponto podia ser interessante. Noutro quadro até talvez fosse muito interessante. A questão é que o Benfica chegou à terceira jornada da Champions a zero e a partida no Principado precisava de dar algo mais, caso não quisesse complicar a contabilidade para uma qualificação. Assim, complica. No Mónaco, o Benfica devia ter ganho. Ainda por cima, podia ter ganho.

A entrada das águias no jogo acabou por ser semelhante a outras que lhes víramos antes. Com uma defesa muito subida (quase na linha de meio campo), durante os 20 minutos iniciais o processo defensivo desenrolou-se com os problemas já patenteados no corredor esquerdo, reflectindo-se no modo como Eliseu tentava controlar o incontrolável. Mais adiante, enquanto André Almeida e Enzo Perez procuravam acertar o passo, Talisca mostrava-se incapaz de articular com Lima ou com os alas.

Verdade se diga que o Mónaco não é propriamente um obstáculo de calibre problemático (como o Bayer). Só conseguiu criar uma verdadeira oportunidade para concretizar - Ocampos, de baliza aberta - e perdeu boa parte da sua lógica funcional com a lesão de Berbatov. Ainda assim, só quando Gaitan e Salvio, finalmente, subiram de produção, começou a ver-se que os encarnados dispunham de argumentos mais do que suficientes para resolver a questão. A ameaça de Lima, a fechar o primeiro tempo, obrigando Subasic à primeira grande defesa da noite, foi o sinal que a segunda parte confirmou.

Aquela meia hora que se seguiu ao intervalo mostrou que há diferença, notória, entre as duas equipas. Mesmo sem qualquer tipo de deslumbramento, o Benfica gerou, normalmente em lances onde a velocidade se evidenciou, um número apreciável de oportunidades, que só não deram em golo por razões que se podem dividir igualmente entre o desempenho do guarda-redes monegasco e o baixo grau de eficácia que os encarnados não abandonam (um golo em três jogos). Aliás, com a saída de Talisca para a entrada de Bebé - e a consequente passagem de Gaitan para a zona central - mais se notou que o controlo da partida estava assegurado. O problema era o resto.

A expulsão de Lisandro, à entrada do último quarto de hora, veio colocar ponto final em tudo o que se estava a desenvolver. E o primeiro a tomar a iniciativa de colocar as coisas desta forma foi o próprio Jorge Jesus, ao retirar Gaitan e Enzo de campo. Abdicou de quem podia ter bola e gerir, numa zona nevrálgica, uma situação de inferioridade numérica, tentando - como o Sporting fizera na véspera - descobrir espaços nas costas da defensiva do adversário. Preferiu Samaris perto de André Almeida. E, realmente, o Benfica acabou a defender o empate.

O Benfica vai para a segunda volta com a obrigação de vencer todos os jogos, se quiser permanecer na Champions, ou de ganhar, na pior das hipóteses, as duas partidas em casa para salvaguardar a Liga Europa. Sendo que vai necessitar de fazer bastante mais do que mostrou nestas três jornadas. Resta apenas a segunda parte do jogo com o Zenit, na Luz, como o exemplo do que deve ser um comportamento a este nível de exigência. Para quem poupou uma equipa inteira para o Mónaco, esperava-se outro desfecho.

PS : Jorge Jesus é o primeiro agente desportivo, que me lembre, a falar publicamente de um prejuízo "político" que estará a ser aplicado às equipas portuguesas na UEFA. Colando-se ao jogo do Sporting, quis meter a arbitragem do desafio do Benfica no mesmo saco. Mas Jesus terá visto todo - todo - o jogo de Gelsenkirchen?


A noite do absurdo

Colocado por mario.fernando em 22-10-2014 às 01h51

1 - É raro começar a abordagem a um jogo pela arbitragem. É um princípio do qual não abdico, precisamente para não cair na banalização das recriminações, que a generalidade das pessoas do mundo do futebol adopta, falando de "vergonha" por tudo e por nada. Não. Desta vez não estamos a discutir se foi bola na mão ou mão na bola, nem a "intensidade" do toque de um jogador no adversário. Estes casos dividem opiniões, mas existem. 

Acontece que o penálti que ditou o triunfo do Schalke sobre o Sporting não divide opiniões pela simples razão de que não se pode opinar sobre nada. Levar com uma bola na cara não é contemplado com grande penalidade em nenhum regulamento. Mas em Gelsenkirchen foi. E ao minuto 93 quando já não havia hipótese de responder à "sentença". Um ponto que fugiu, mais meio milhão de euros, e Michel Platini a insistir que os auxiliares de baliza são de uma enorme utilidade. Lamento, sr.presidente, está enganado. Sucedeu agora ao Sporting, amanhã poderá acontecer ao Benfica, ao FC Porto ou a qualquer outro. Para quem gosta de futebol isto é aberrante.

Ainda por cima porque tudo o que ficou para trás não merecia ser trucidado daquela forma. O Sporting quis discutir o jogo cara a cara com os alemães e conseguiu-o claramente durante meia hora do primeiro tempo, mesmo com uma lesão de Slimani a atrapalhar os planos. Crítico foi aquele minuto em que Maurício foi expulso e Rui Patrício errou (sim, todos os grandes guarda-redes dão "frangos"), o que levou Marco Silva a um novo capítulo sobre como lidar taticamente em cenários adversos. Aquele 4x4x1, que mutava para 4x5x0 quando era preciso defender, funcionou o suficiente para evitar um colapso que seria provável.

Mesmo depois de mais dois golos dos alemães - e dou de barato a posição de Huntelaar no segundo - , o Sporting mostrou que o tal sentido coletivo, alicerçado na capacidade individual dos seus jogadores, pode atingir patamares pouco comuns. Os leões impuseram o empate e assustaram um Schalke que já dava mostras de não estar a entender bem o que se passava. Adrien foi um gigante, William um batalhador, Nani incansável, Carrillo um inconformado. Não se passa de 3-1 para 3-3 - com dez - , numa Champions, apenas porque sim. 

2 - Quando, a um quarto de hora do fim, Quaresma entrou em campo, a plateia do Dragão viu, finalmente, consagrado o seu "pedido". O FC Porto tinha entrado novamente em modo-não-operacional frente ao At.Bilbao e os adeptos, que já tinham assobiado Lopetegui por tirar Quintero do jogo (a entrada de Ruben Neves estava certa, a saída do colombiano é que não), viam no internacional português a derradeira hipótese de redenção. Assim foi, os dragões ganharam e estão lançados para os oitavos da Champions.

A questão é que antes do factor-Quaresma este FC Porto bipolar voltou a apresentar-se. Tão depressa assina um arranque de jogo dominador, veloz, pressionante, como regressa para uma segunda parte de passes sem nexo e andamento errático, versão manta de retalhos, com o clássico erro defensivo à mistura.

Herrerra está a um passo de ser o que verdadeiramente é (a ver vamos se consegue lá chegar), Tello é uma pérola a que só falta trabalhar a finalização, Brahimi e Jackson nem precisam de grandes considerações, Danilo e Alex Sandro são fundamentais, assim saiba Lopetegui percebê-lo. Tal como o real papel de Quintero. Então, por que motivo, volta e meia, as coisas falham? Olhem para o processo defensivo e observem Casemiro. A chave está no meio campo, mas o técnico espanhol continua na dele. Por esta, rendeu-se à necessidade de usar Quaresma. Esperemos para ver se, no futuro, se vê também obrigado a ceder noutras frentes. Penso que deve ter notado o que se passou, a partir dos 70 minutos, em vários aspetos.


Jogo de conceitos

Colocado por mario.fernando em 20-10-2014 às 20h18

O clássico da Taça, que antecedeu a semana de Champions que agora arranca, centrou grande parte da análise do Jogo Jogado na TSF. Desde o que Marco Silva fez de certo, até ao que Julen Lopetegui fez de errado. Começando por tentar perceber o conceito que leva um e outro a optarem por vias que pouco - ou nada - têm de coincidentes.

Já em relação ao outro membro português na Liga dos Campeões, o Benfica, a abordagem derivou da aposta de Jesus em colocar o foco no desafio do Mónaco. Com uma equipa inteira sem desgaste para uma partida fundamental.


A lição do leão

Colocado por mario.fernando em 19-10-2014 às 01h58

Sem qualquer hesitação : o Sporting ganhou bem no Dragão. Ficou demonstrado que a consistência e a organização ainda prevalecem sobre o experimentalismo, por muito que este pretenda marcarar-se de "inovador". Por seu lado, o Benfica passou na Covilhã, sem esconder que uma "razia" nos titulares é mesmo um risco acrescido.

1 - Nunca tive uma grande capacidade para decidir o que pesa mais no desfecho de um jogo : se o mérito de quem ganha, se o demérito de quem perde. Sempre pensei que o resultado final é, inevitavelmente, o cruzamento das duas componentes. De um lado a competência para seguir uma cartilha estruturada e pré-definida, como fez o Sporting, do outro a insistência em processos cuja eficácia está longe de ser comprovada e uma clara dependência de valores individuais, como apresentou o FC Porto.

Marco Silva. Num clássico em que estava em causa a permanência na Taça de Portugal, o técnico leonino preservou o fundamental. A defesa que mais garantias dava, meio campo rotinado e ataque adaptado à cadência de uma partida a eliminar (daí Montero e Capel antes de Slimani e Carrillo). Tirou benefício da liberdade que a zona intermédia portista proporcionou a William Carvalho e da colocação de José Angel na esquerda da defesa adversária, possibilitando as viagens de Nani para terrenos mais centrais. O treinador dos leões leu muito bem a realidade do jogo e retirou o maior proveito possível, vencendo claramente nos planos tático e estratégico.

Julen Lopetegui. É quase só decalcar o que se disse sobre Marco Silva, mas ao contrário. O técnico espanhol, não satisfeito com a rotatividade - viu-se no que deu abdicar de Alex Sandro e Martins Indi - , ainda entendeu que era o momento de ensaiar um 4x4x2, colocando Adrian Lopez junto a Jackson, sendo que Lopez continua sem justificar minimamente a aposta volumosa que o FC Porto fez. Depois, o regresso de Casemiro a "6" e a falta de entendimento de qual deve ser o papel de Herrera. Ou o sub-aproveitamento das capacidades reais de Quintero. Há certas coisas que, com alguma condescendência, ainda se permitem em certas partidas, mas...num jogo a eliminar com o Sporting?

Rui Patrício, William, Nani. Enquanto o FC Porto se limita a ser um conjunto de jogadores virtuosos, mas não uma equipa, o Sporting foi aprendendo a potenciar o talento das individualidades em função do coletivo. Rui Patrício é, hoje, uma peça vital na equipa (pelo penálti que defendeu e por tudo o resto), William Carvalho está de volta ao grande rendimento da época passada e Nani - o melhor em campo - tornou-se na mais valia de que o Sporting necessitava, precisamente para estes momentos.

O pós-Taça. A lição dada pelo Sporting no Dragão pode, ou não, ser aprendida por Lopetegui. Não quero fazer futurologia, mas tenho dúvidas de que o técnico mude o seu conceito. Quem "discorda" de que o Sporting foi melhor e acha que "podia ter ganho jogo" não estará muito convencido daquilo que, de facto, aconteceu. Ter cerca de 60 por cento de posse de bola e não saber o que fazer com isto, deveria ser um sintoma a analisar. Logo veremos.

Champions. Ao Sporting, que trava com o Schalke um duelo pela permanência na Liga dos Campeões, as conclusões do desafio do Dragão podem ser uma ajuda importante para a Alemanha. Para lá da componente psicológica, que não resolve mas é sempre um bom auxiliar. Para o FC Porto, depois de um desaire que lhe retirou já a hipótese de chegar a um troféu, o embate com o At.Bilbao é um dos tais em que não é autorizada uma única falha. Também nesta frente os dragões têm bastante mais em causa do que os leões.

2 - Jorge Jesus ficou muito irritado quando o questionaram sobre a ausência de tantos titulares na convocatória para a Covilhã. É que nem alguns se sentaram no banco, ao menos por precaução. O Benfica ganhou, portanto, Jesus entende que nada há para explicar. É uma posição, mas que não afasta o facto dos encarnados terem sentido muitas dificuldades perante uma equipa da II Liga recheada de jogadores que, na época passada, nem estavam nos campeonatos profissionais.

Em síntese, da partida da Covilhã fica a confirmação de Jonas - resta saber que aproveitamento vai ter a partir de agora nas provas internas - e o reforço da ideia de que Gonçalo Guedes é mesmo para levar a sério, incluindo no médio prazo. E pouco mais sobra, a não ser aquilo que já sabíamos : César e Benito estão muito abaixo dos mínimos exigíveis. Apesar da irritação, não estou a ver Jesus, em próximos desafios da Taça, a deixar em casa Luisão, Jardel, Maxi, Samaris, Enzo, Salvio, Gaitan e Talisca, todos ao mesmo tempo. Por esta deu, mas notou-se muito.  


Correr riscos

Colocado por mario.fernando em 17-10-2014 às 23h16

1 - Ainda agora Outubro está a dar os primeiros passos e já existe a certeza de que um dos assumidos candidatos à conquista da Taça de Portugal vai sair de cena. O prematuro clássico entre FC Porto e Sporting assim o determina. Será sempre um prejuízo para quem perder, embora as consequências para o derrotado só posteriormente possam ser avaliadas.

O FC Porto tem uma responsabilidade acrescida pelo facto de jogar em casa, pelo que uma não qualificação marcaria de forma profunda a equipa. Ser excluído de uma das frentes, no seu próprio estádio, por um rival direto, constitui sempre algo que não se contorna facilmente. Julen Lopetegui sabe-o, mas não vale a pena pensar que, por isto, irá abandonar os seus planos. Ao dispensar Alex Sandro, Indi e Evandro da partida, deixa claro que a tal rotatividade é quase um dogma. Seja com que adversário for, até mesmo num jogo de "mata-mata".

O Sporting, por seu lado, mesmo sabendo que, num clássico, um afastamento fora não tem a mesma carga negativa de uma eliminação em casa, sabe que corre o risco de ver escapar a possibilidade de lutar por um troféu que ambiciona e que, tal como a Taça da Liga, tem um perfil diferente do campeonato. Daí que Marco Silva não esconda que há pressão - ainda que de um tipo distinto da do adversário - e aposte em todos os trunfos disponíveis para jogar a cartada. Ou seja, para os leões, a "gestão" não passa por um jogo destes, porque todos os recursos são poucos no Dragão.

Lopetegui prevê um desafio semelhante ao do recente encontro de Alvalade, Marco Silva garante que não joga para empatar. Numa partida em que a sobrevivência na prova está em causa, tudo vai depender do modo como cada lado abordar o jogo. No fim ganhará certamente quem tiver mais cabeça fria.   

2 - Nas últimas edições dos Jogos Olímpicos, uma pergunta à qual sempre tive alguma dificuldade em responder, feita por companheiros de profissão de outros países, prendia-se com a ausência do futebol português do maior evento desportivo mundial. Argumentavam eles que, tendo Portugal uma enorme tradição no futebol jovem, era estranho falhar uma fase final dos Olímpicos. E muitas vezes.

Apesar dos meus esforços, eles dificilmente concebiam que as seleções jovens funcionassem da forma como eu lhes dizia. Ora, talvez seja esta uma ótima oportunidade para mudar o rumo. A equipa nacional de sub21, depois de ter garantido a presença no próximo Europeu, deve apontar claramente a um novo objetivo, a qualificação para o Rio2016. O que nem é uma missão impensável, bastando para tal ser um dos semifinalistas do Campeonato da Europa.

Esta é a melhor seleção sub21 em muitos anos. E quem dispõe de jogadores como Rafa, Bernardo Silva, Ruben Neves, Sérgio Oliveira, Carlos Mané, Raphael Guerreiro, Bruma, Gonçalo Paciência, Ricardo Pereira ou Rony Lopes, aos quais podem juntar-se, já numa perspetiva olímpica, William Carvalho, André Gomes ou João Mário, deve encarar seriamente o ataque a uma medalha. Os vencedores só podem olhar para o futuro desta maneira.

3 - O futebol, na sua dimensão planetária, é um negócio. O que já não havia necessidade era torná-lo num negócio perigoso. Na noite do Sérvia - Albânia deixei aqui uma nota sobre o sarilho em que a UEFA se meteu, sem qualquer necessidade. Suponho que em Nyon já devem ter ouvido falar do Kosovo, pelo que incluir sérvios e albaneses no mesmo grupo de qualificação seria sempre uma cartada de risco.

A UEFA separa sempre a Arménia do Azerbaijão, tal como passou a separar a Ucrânia da Rússia e até a Espanha de Gibraltar (neste último caso, por ínfimo que o problema fosse, houve esse cuidado). Calcularam que não permitir adeptos albaneses na Sérvia e sérvios na Albânia resolveria a situação. O problema é que a imaginação de quem quer gerar confusão é imensa. Agora, qualquer que seja a decisão desportiva, as marcas já não desaparecem. A UEFA provocou precisamente o inverso do que pretendia.

Entretanto, de África vem o alerta. Marrocos avisou a CAF de que não quer organizar a CAN2015 nas datas previstas (Janeiro/Fevereiro) , porque tudo aponta para que o surto de ébola se intensifique nos próximos meses. É uma posição sensata, mas a Confederação Africana resiste à mudança de calendário e até já procura países alternativos. Pondo de lado a embrulhada desportiva e económica que uma alteração de local iria provocar, fica vincado o total desinteresse da CAF em relação à questão que conta : colocar mais vidas em risco.

Que em quase todas as áreas de atividade a submissão a uma certa irracionalidade financeira (depois do Papa Francisco ter falado do assunto, creio que acabaram os paninhos quentes) seja a regra dos nossos dias, é algo que não espanta. Que o negócio futebol não se importe de se transformar num perigo público é que já é demais. 


Procurar "a sorte"

Colocado por mario.fernando em 15-10-2014 às 00h57

Aguardar 95 minutos por uma boa notícia, torna-se quase sempre numa espera inglória. Desta vez, em Copenhaga, ficou pelo quase, porque Cristiano Ronaldo, o homem certo no lugar certo, encontrou a saída para um problema que ameaçava deixar a seleção portuguesa em branco. Quando Quaresma arrancou pelo corredor direito e cruzou, a poucos segundos do soar do gongue, percebeu-se que aquela era a derradeira oportunidade. E foi. O estado de graça de Fernando Santos prossegue.

Como se calculava, o selecionador fez uns acertos em relação ao jogo de Paris. Maior consistência no meio campo, com William Carvalho e Tiago nos lugares em que devem estar, e Ricardo Carvalho como parceiro de Pepe numa reedição de experiência que, num desafio como o da Dinamarca, seria sempre recomendável no eixo defensivo. Aliás, e este é um ponto fulcral, todo o processo defensivo português se desenrolou de uma forma mais equilibrada, confirmando a lógica que derivou do teste na segunda parte do encontro com a França.

A Dinamarca, mesmo com mais posse de bola, raramente conseguiu transpor a barreira, sendo que, em boa verdade, o único lance de perigo efetivo que gerou saiu dos pés de Krohn-Dehli e terminou no poste da baliza de Patrício. Uma exceção à regra que ditou uma noite mais tranquila do que o guarda-redes português pensaria. Portanto, em termos globais, por este lado, as coisas praticamente correram como se pretendia.

Agora, aquilo de que se necessitava para cumprir integralmente o objetivo - um grau de eficácia que, pelo menos, andasse por um índice aceitável - , é que já foi mais difícil de atingir. Num jogo em que nem se esperavam muitas oportunidades, Portugal construiu as suficientes para não sofrer até ao apito final. Ronaldo e Nani, ainda na primeira metade, tiveram um par de situações cada que, com outra ponderação, teriam colocado a equipa nacional numa posição bastante mais confortável.

Mas o momento de "desespero" de quem seguia a partida, surge nos minutos iniciais da segunda parte, quando Ronaldo, isolado perante Schmeichel (filho) não consegue bater o guarda-redes dinamarquês, num daqueles lances em que o internacional português acerta nove em dez. Foi um momento psicologicamente relevante, pois Portugal pareceu ter acusado o que se passou.

Vendo bem o cenário, Fernando Santos vai em escalada. Entra João Mário, para o lugar do desgastado Nani, e cria-se um suplemento de criatividade para Danny e Ronaldo colocados na frente. Depois, troca Danny por Éder apostando numa outra dupla com Ronaldo. Finalmente, lança Quaresma e retira Tiago, ajusta o modelo e...sai-lhe o jackpot. Deve ser a isto que chamam "procurar a sorte".

Portugal venceu - era o que realmente interessava - , mas este resultado não deve deixar já a ideia de que o modelo está consolidado, ou que o "apertar uns parafusos" está feito. Fernando Santos está no arranque de um processo e seguramente não são dois jogos e um triunfo in extremis que geram rotinas. Vai ser preciso mais tempo para se obter o tal equilíbrio entre os processos defensivo e ofensivo. Por ora, "sacar" três pontos em Copenhaga é um passo. Crucial, certamente, mas apenas um passo.

Nota à margem : a UEFA tem um assunto bicudo para resolver em relação ao Sérvia - Albânia. A equação é esta : como transformar um caso político dentro do desportivo, num caso desportivo sem conexões políticas?

PS : Os sub21 estão no Europeu, depois de um duelo alucinante, de ambos os lados, com a Holanda. Dez vitórias em dez jogos de qualificação é notável. A ver vamos até onde vai a equipa de Rui Jorge, num campeonato aonde Espanha e França não chegaram.   


Jogo de seleção

Colocado por mario.fernando em 13-10-2014 às 19h58

O ensaio com a França está para trás, vem aí o que realmente conta. Na véspera de um desafio fundamental da seleção nacional com a Dinamarca, o Jogo Jogado da TSF refletiu sobre os dados de Paris, projetando o que pode - e deve - aproveitar-se em Copenhaga.

E, porque há um clássico da Taça de Portugal no horizonte, apontámos o que está em causa no FC Porto - Sporting em fase tão prematura da competição.


O ensaio

Colocado por mario.fernando em 12-10-2014 às 01h41

Perder com a França, em Paris, não é propriamente motivo para grandes apreensões. Pode ser irritante, face ao histórico entre os dois países, mas não passou de um jogo de preparação. Portanto, é precisamente por aqui que devemos ir. Serviu para preparar um modelo. Há sinais positivos, mas, como se percebeu, também existe muito trabalho pela frente.

1 - Portugal tem jogadores para um 4x4x2 losango, simplesmente não se pode esperar que uma longa tradição do 4x3x3 seja ultrapassada rapidamente, como se bastasse mudar o chip. Perante uma França que adoptou a mesma solução, Portugal registou uns 20 minutos iniciais em que quase nada bateu certo. A seleção nacional teve problemas imensos no meio campo para lidar com os desdobramentos do adversário, acabando os corredores por pagar a fatura. Sobretudo o lado esquerdo - e a responsabilidade não é só de Eliseu - por onde entravam Sagna, Pogba e Valbuena, como se o território fosse só deles.

2 - Partindo do princípio de que Ronaldo e Nani não estão lá para se dedicarem a tarefas defensivas, a articulação de Danny com os restantes elementos do losango atrás dele, terá de levar sempre em conta a proteção dos laterais. Portugal só bastante mais tarde conseguiu o reequilíbrio necessário para evitar danos maiores. E, por outro lado, também convém lembrar que a única forma de aproveitar a velocidade dos dianteiros é não perder a capacidade de recuperar bolas. Aliás, em primeira instância, ter bola. Este é um modelo em que o "jogo intermédio" é crucial. Como se viu na segunda parte, em que a seleção esteve muito melhor.

3 - Do ensaio de Paris fica uma dúvida ou, pondo a questão de outra maneira, uma conclusão. Tiago poderia ser um "6" noutras circunstâncias, mas, havendo William Carvalho, o médio do At.Madrid será muito mais útil a "8". Basta comparar o arranjo do meio campo antes e depois da entrada do jogador leonino. Dificilmente terá sido um simples acaso o registo superior que a seleção manifestou. Claro que isto implica o sacrifício de André Gomes, mas não a sua exclusão como alternativa em função do andamento do jogo.

4 - Com Pepe em grande nível - foram quatro as situações de real aperto, ainda na primeira parte, que ele resolveu -, justifica-se uma palavra para os "regressados". Sobre Danny e Tiago já está falado, mas qualquer um dos restantes cumpriu. Quaresma, que teve o "azar" de entrar no minuto anterior ao 2-0, ainda foi a tempo de converter a grande penalidade (aqui para nós, não há penálti) e Ricardo Carvalho completou convenientemente o trabalho de Pepe. Mas há mais : João Mário alinhou um quarto de hora, tempo em que justificou plenamente a convocatória.

5 - Voltando, contudo, aos aspetos que urge emendar. Portugal sofreu dois golos em duas falhas coletivas, o que levanta, isto sim, algumas apreensões. Qualquer uma delas não é aceitável a este nível de competição. É certo que todo o processo defensivo também está em reformulação, mas é uma daquelas prioridades absolutas para Fernando Santos. Não há muito tempo para calibrar as coisas (e como o factor tempo seria importante nesta altura), só que em Copenhaga é de toda a conveniência que não se repitam desacertos fatais deste tipo.

6 - Enquanto Portugal ensaiava na capital francesa, os nossos adversários na corrida ao Euro2016 realizaram uma jornada em que ninguém ganhou. Tudo com empates, algo que baralhou ainda mais as contas do grupo. Paradoxalmente, uma "baralhação" que dá jeito às pretensões nacionais. Na verdade, o facto de nenhuma seleção ter descolado - Dinamarca e Albânia não chegaram aos seis pontos, Arménia e Sérvia só têm mais um do que Portugal - deixa tudo em aberto para o resto da campanha. O que reforça, se fosse preciso, a necessidade de vencer em Copenhaga.


Notas laterais

Colocado por mario.fernando em 10-10-2014 às 00h20

1 - Desde que começou a campanha para o Europeu de sub21, a nossa jovem seleção ganhou tudo. Até agora, no play-off, foi à Holanda dar um passo provavelmente definitivo para marcar presença na República Checa, no próximo ano. Rui Jorge está a realizar um trabalho muito importante, alicerçado no facto de dispor de vários jogadores que integram e jogam nos plantéis principais dos seus clubes.

Quando Fernando Santos chegou à FPF, sublinhei que uma das suas incumbências era não ignorar estes sub21 e tratar de aproveitar o que por lá anda. É verdade que nem todos vão ser jogadores de primeiro plano, mas é nos outros que penso. Naqueles que seria criminoso desperdiçar.

2 - Uma das maiores curiosidades no trabalho que Fernando Santos vai desenvolver na seleção portuguesa prende-se com o modelo que pensa adoptar daqui para a frente. Depois de vários anos no clássico 4x3x3, discute-se agora até que ponto o selecionador não poderá derivar para um 4x4x2 losango, algo que não desagrada ao técnico como é sabido, e que até poderá entender-se face à realidade do quadro - ou perfil - de jogadores disponíveis.

Já nos tempos que antecederam o Mundial, salientei que a equipa nacional se sentia mais confortável em 4x3x3, mas que talvez fosse boa ideia pensar - e trabalhar - um modelo alternativo, porque não raras vezes a seleção precisou dele e não o tinha "operacional". Nesta altura, contudo, o debate já não é a criação de um alternativo, é sim uma mutação efetiva. Não me surpreenderia se o selecionador aproveitasse o desafio com a França para averiguar até onde pode ir.

Chegados aqui, parece claro que o tridente ofensivo é crucial para o escalonamento. Danny, Nani e Ronaldo vão ter um papel determinante, faltando saber quem faz o quê, porque a capacidade dos três jogadores dá para múltiplas hipóteses. E, quem ficar mais atrás, terá de articular-se com um meio campo onde apenas Tiago e João Moutinho devem ter lugar garantido. Em tese, será isto, mas é melhor esperar para ver, não vá Fernando Santos reservar-nos alguma novidade suplementar. 

3 - Está a tornar-se penoso o guião desta tragicomédia em que se transformou a saga da Liga de clubes. A confusão jurídica que deriva das várias deliberações, cruzadas com as interpretações de cada uma das partes, faz com que, quem está de fora, já tenha perdido a paciência para tanto "jogo", tantos avanços e recuos, tantos "lances laterais" e, principalmente, tanta inconsequência.

O futebol profissional não merecia estar dependente dos interesses individuais dos clubes, que pouco ou nada se preocupam com as reais necessidades de um negócio no qual, pasme-se, estão todos envolvidos. O tacticismo sobrepõe-se a qualquer definição estratégica, o que nos levaria a concluir que isto não tem solução. Na verdade tem, só que parece existir uma enorme vontade de tratar da cosmética deixando o essencial na mesma. Tudo isto é patético, mas é assim.


Jogo de caminhos

Colocado por mario.fernando em 06-10-2014 às 20h09

Primeiro a fase-Champions, depois a fase-campeonato. Dificuldades dos grandes na Liga dos Campeões, pleno de vitórias na Liga portuguesa, logo a seguir. Gerir de que forma e com que objetivos, quando há duas frentes em causa? Este foi o tema central do Jogo Jogado, desta semana, na TSF.

Por antecipação, quando a seleção nacional se prepara para voltar à corrida pelo Euro2016, tentou responder-se à questão imediata : o jogo com a França serve para Fernando Santos testar exatamente o quê?



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