Com Luís Freitas Lobo e João Rosado, sob a arbitragem de Mário Fernando

Às segundas, depois das 19h, com repetição depois da meia-noite.

Luís Freitas Lobo

Nasci em 1967. Em 1970, portanto, já estava presente para testemunhar as maravilhas de Pele, Jairzinho, Tostão e companhia no Mundial do México. Ainda não conseguia, no entanto, ver os jogos sob uma perspectiva táctica. Agora, como os tenho todos gravados na minha colecção particular de vídeos, vejo-os religiosamente. Como se viajasse no tempo e visse Puskas da mesma forma que hoje vejo Kaká. Para mim, mais do que cinco continentes e sete mares, o mundo é um infinito conjunto de campos de futebol com muitas casas á volta e desde 1998 que tenho procurado, em vários meios de comunicação, passar essa emoção. Porque, como gosto de dizer 'Quando um homem tem uma paixão, seja ela qual for, o melhor que tem a fazer é ir tratar dela!'
Da Revista Mundial e Publico, até ao Expresso e à sagrada A Bola, a Bíblia com que em menino aprendi a escrever lendo Mestres como Vítor Santos. Na rádio da Antena 1 à TSF, na televisão, da SIC Noticias até à RTP, onde hoje estou. Todos os dias penso em futebol. Por isso, em qualquer local, falo ou escrevo sobre futebol, partindo sempre da única forma que o entendo ser possível conceber: com emoção.

João Rosado

João Rosado nasceu em Évora, em 1970. É licenciado em Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Entre 1988 e 1992 foi colunista no jornal «A Capital». Foi redactor no jornal «Record» entre 1992-1995 e 2003-2004. Entre 1995 e 2002, foi redactor e editor no jornal «O Jogo». De 2007 a 2012 foi colunista no jornal «Diário de Notícias. Foi comentador de futebol na «Antena 1» entre 1999 e 2000, na «Rádio Renascença» entre 2001 e 2004, na Sport TV entre 2001 e 2007. É comentador de futebol na SIC, desde 2007, e na antena da TSF desde 2004.

Mário Fernando

Jornalista há 27 anos passou a maior parte da vida profissional na rádio. Comercial, Renascença, RFM, Correio da Manhã e XFM até aterrar na TSF. Foi em 1995 e, três anos depois, passou a editor de Desporto. Até hoje. É um fanático por futebol, por isso, não tem paciência para a forma como os dirigentes tratam a coisa, ou seja, quando resolvem que os clubes deles é que contam e o resto é paisagem. Não é, mas isso eles jamais vão entender. No meio de tudo isto houve três reportagens que o marcaram: a primeira visita de Nelson Mandela a Londres depois da libertação e duas edições dos Jogos Olímpicos, Sidney2000 e Pequim2008. Curiosamente, nenhuma delas tem a ver com futebol.

O ouro do Dragão

Colocado por mario.fernando em 16-04-2015 às 00h31

Basta passar os olhos para imprensa europeia para se perceber que está toda a gente um pouco confusa. Na Liga dos Campeões, a tal onde manda a elite, não era suposto o Bayern de Munique, o grande candidato à final de Berlim, sair de uma deslocação ao Porto a fazer contas. Mas é. Podem dizer que o que sucedeu no Dragão dificilmente encaixaria nos melhores sonhos de Lopetegui ou nos piores pesadelos de Guardiola. Simplesmente, a realidade é esta. O FC Porto ganhou e bem, mostrou ser mais coerente e solidário, soube dividir-se entre o empenho e o sofrimento, em suma, fez por merecer o que conquistou. Nada está fechado, naturalmente, mas a Europa já não pode ignorar o que isto significa.  

O começo. É um daqueles casos em que ninguém acertaria. Aos dez minutos o FC Porto estava a ganhar por dois. Xabi Alonso e Dante, ambos em momentos incompreensíveis para os jogadores que são, foram batidos por Jackson e Quaresma, dois elementos perante os quais não se pode errar daquela forma. O primeiro lance deu penálti (e o árbitro a "decretar" que Neuer ficava em campo) e o segundo uma execução irrepreensível do internacional português. De repente, os dragões estavam com o jogo na mão quando as coisas ainda nem tinham verdadeiramente começado. O processo defensivo bávaro tornou-se um fiasco.

O meio. Em boa verdade, o Bayern de Munique só se mostrou a partir dos 20 minutos e até ao intervalo. Demorou muito - e mesmo assim sem atingir patamares aceitáveis para o "colosso" que representa - a contornar as enormes dificuldades que evidenciou na primeira fase de construção. Xabi Alonso andou literalmente sem rei nem roque, enquanto Casemiro/Herrera/Oliver agiam como um bloco único. Os alemães tinham bola mas não tinham espaço, precisavam de escapatórias mas não as encontravam. Só por uma vez o FC Porto se deixou "enganar", perante a fuga de Boateng e o esquecimento da subida de Thiago Alcântara.

O fim. Um resultado de 2-1 seria interessante para o adversário, simplesmente demasiado arriscado para os portistas. Ganhar representaria uma vantagem, por muito ténue que fosse, só que o FC Porto percebeu que esta era uma noite em que os impossíveis não eram assim tão improváveis. Fosse qual fosse o discurso dos treinadores ao intervalo, parece claro que Lopetegui bateu Guardiola. A segunda parte foi muito mais dragão do que bávara e em todos os planos. Quando foi preciso controlar e pressionar (o terceiro golo é um bom exemplo, muito além da falha de Boateng que deixou Jackson nas suas costas) e, depois, quando foi necessário - imperioso - cerrar fileiras e fechar portas e janelas no derradeiro quarto de hora.

Nomes e nomes. Também aqui o triunfo portista foi indiscutível. Do ponto de vista individual é fácil apontar meia dúzia de jogadores com desempenhos de alto calibre. Se Quaresma e Jackson foram, por todas as razões, os "príncipes" do reino, será injusto relativizar o papel de todos os outros. Aliás, o "nome" mais forte - e o determinante - foi o coletivo. Algo que, pelo contrário, o Bayern não evidenciou. De resto, se nem a componente individual lhe valeu, muito menos o grupo o salvaria.

Linguagens. Já o referi, Lopetegui venceu Guardiola. Ao abdicar da tão celebrada posse em favor do adversário, o técnico portista assumiu que a saída para o problema passava, em primeira instância, por anular a lógica de Guardiola. O objetivo era não permitir ao Bayern nem circulação, nem construção, nem nada. E ajustar a pressão à exata medida das necessidades do FC Porto. O técnico dos alemães só percebeu o logro bastante mais tarde. E tarde demais.

Medidas. A vitória do Dragão já é histórica porque nunca o Bayern tinha sido derrotado em Portugal. Já não é pouco, convenhamos. Chegar a 3-1 é ainda mais notório, pois ninguém esta época na Champions teve a ousadia de marcar três à máquina alemã. Mesmo que este não seja o Bayern "absoluto" que tanta apreensão provocou na altura do sorteio. Mas sendo isto verdade, também convém não esquecer que são os momentos que ditam o caminho. Ficou demonstrado que o super-Bayern existe, mas quando Guardiola tem as armas todas operacionais. Caso contrário, basta ter pela frente uma equipa que leve o jogo a sério para as fragilidades despontarem.

A esperança. Provavelmente, com outro antagonista dir-se-ia que o FC Porto estava bem colocado para avançar para as meias finais da Champions. Assim, e porque se trata do Bayern, deve dizer-se que está melhor colocado do que estava. Repetir a atitude e o pragmatismo da primeira mão é fundamental, tal como aguardar de Jackson um coelho da cartola que ponha Munique em sentido. Lopetegui terá de inventar soluções para as laterais - e que jeito dariam Alex Sandro e, principalmente, Danilo - , da mesma forma que deverá equacionar os problemas adicionais que podem constituir os regressos de Schweinsteiger e Ribéry. De qualquer modo, é assim tão impossível completar o sonho?


Jogo de luxo

Colocado por mario.fernando em 13-04-2015 às 20h19

A jornada passou e o mais importante que provocou foi lançar a expetativa sobre a que aí vem. Só que antes do Benfica jogar no Restelo e do FC Porto receber a Académica , no tal duelo à distância à espera do desafio crucial da Luz, os dragões têm o grande embate europeu da época. O confronto com o Bayern foi o tema em destaque no Jogo Jogado da TSF.

Depois o que está em causa na próxima ronda do campeonato e uma interessante corrida pelos lugares da Liga Europa com tudo em aberto para várias equipas.  


O telefutebol

Colocado por mario.fernando em 10-04-2015 às 00h55

Suspensão por uma jornada foi a punição aplicada pela federação argentina àquele árbitro - um dos melhores do país, dizem lá - que alterou a sua decisão de assinalar uma grande penalidade, num jogo do campeonato, por causa de uma indicação do auxiliar que terá espreitado a televisão e percebeu que o chefe de equipa se tinha enganado. Ou seja, o homem até teve alguma sorte, pois arriscou-se a uma suspensão prolongada (ou pior) por ter transformado uma deliberação errada numa deliberação certa.

Ainda recentemente o International Board empurrou com a barriga, pela enésima vez, a discussão sobre a introdução das novas tecnologias no futebol, mas talvez seja altura para recuperar algumas reflexões sobre o assunto. Não se trata de uma análise definitiva, pois os ângulos pelos quais deve ser encarada a questão abrem espaço para uma discussão ampla que deve ser racional e profunda. Isto é, as coisas não devem resumir-se a ser completamente a favor ou ser completamente contra.

Assim, embora seja favorável à introdução de mais mecanismos para lá da linha de golo – felizmente, já adoptada no último Mundial -, gostaria de lembrar que só por crença infinita se poderá admitir que os erros serão erradicados do futebol. A grande vantagem é que diminuem substancialmente. O que, em relação ao cenário atual, representa um avanço importantíssimo.

A FIFA resistiu anos a fio a, sequer, discutir esta matéria. Nada que surpreenda nesta rejeição instintiva, porque quem demorou doze (!) anos a aderir a algo tão básico como o spray para a marcação de barreiras, muito mais dificilmente iria ponderar este cruzamento entre futebol e televisão. Por outro lado, recordo-me das palavras de Michel Platini (o grande defensor de um batalhão de árbitros nos jogos) no último Football Talks, no Estoril, em que o presidente da UEFA insistiu até à exaustão que o futebol, antes de ser um espetáculo, é um desporto. Verdade, mas convém não esquecer que foi a superestrutura do futebol que o transformou num espetáculo para lá de ser um desporto.

Quando a TV se instalou no futebol – estou a reportar-me ao Mundial de 66 – ficou aberto o caminho para uma industrialização irreversível. Hoje, ninguém consegue falar de futebol sem falar de televisão. Aliás, a UEFA faz da Liga dos Campeões, nos nossos dias, a maior competição mundial de clubes por causa da ligação futebol-televisão-patrocinadores. Se tirassem a cobertura televisiva à prova que aconteceria, sr. Platini?

A partir do momento em que a realidade é esta, a análise ao que acontece no terreno de jogo passou a ser escrutinada de maneira radicalmente diferente. Continuo convencido de que os pequenos e os grandes erros de arbitragem não aumentaram, simplesmente tornaram-se muito mais visíveis. Antes, as situações não podiam ser avaliadas ao pormenor, logo, muitas delas passavam em claro. Agora isto é impossível. Portanto, ignorar que estamos na era do telefutebol é uma brincadeira. De mau gosto e péssima para o negócio. Uma indústria, para ser credível, tem de dar garantias aos consumidores. Que, neste caso, são os adeptos do futebol, independentemente dos clubes da sua preferência.

A dúvida, a enorme dúvida, reside no modo como se aplicam as novas tecnologias e, em concreto, ao quê. Não vale a pena comparar com outras modalidades, porque cada uma tem as suas especificidades. Basebol, ténis, râguebi, voleibol ou basquetebol (falo do setor profissional, com predominância norte-americana) criaram mecanismos de supervisão video em função das suas necessidades, mas com limites claros às “reclamações”, porque seria um desastre permitir o replay em todos os lances que as duas equipas considerassem duvidosos. Portanto, o futebol precisa, antes de tudo, de definir o que pretende salvaguardar.

Para começar, o primeiro problema sério prende-se com as condições de igualdade nos jogos de uma competição. Para exemplificar, olhando o caso português, seria necessário criar meios de cobertura televisiva idênticos para todas as partidas de cada jornada. Tudo o que não contemplasse este quadro constituiria uma subversão do princípio, porque nada justificaria que o escrutínio de um desafio que envolvesse qualquer um dos grandes fosse diferente do aplicável a outro entre equipas do meio da tabela.

Sobre o jogo propriamente dito, e abstraindo agora o resto, há dois tipos de lances cruciais responsáveis pela quase totalidade das polémicas : grandes penalidades e foras de jogo. Ora, ao adoptar o recurso às imagens, as normas de avaliação (não as leis) teriam de ser alteradas, pelo que temos logo aqui o segundo problema sério. Quer dizer que, além de discutir se as tecnologias devem lá estar, é determinante definir o modo como tudo se processaria.

O citado caso argentino é, aliás, um ótimo ponto de partida para a caracterização da metodologia. Desta vez, foi a equipa de arbitragem a decidir por si, mas se o julgamento não tivesse sido alterado teria a equipa "prejudicada" o direito de pedir uma "revisão"? E quantas vezes tais "reclamações" poderiam ser feitas por cada um dos lados para não transformar o jogo num pára-arranca que o mataria? E esgotado o limite acabariam as discussões mesmo que o árbitro, posteriormente, se enganasse?

Tudo isto e muito mais já deveria estar na mesa de trabalho - com testes concretos em provas de menor dimensão -, apontando para uma solução satisfatória para toda a gente e exequível no médio prazo. Nas grandes competições internacionais e nos campeonatos que possuam condições para avançarem. Claro que cada um de nós tem várias teorias sobre como resolver o imbróglio, mas este caso serve unicamente para sublinhar a obrigatoriedade da tal reflexão profunda para que a emenda não seja pior do que o soneto. É que, na defesa do futebol, este caminho não pode falhar.

PS : Obrigações profissionais vão afastar-me do futebol deste fim de semana. Voltarei a jogo depois.


Taça de leão

Colocado por mario.fernando em 09-04-2015 às 01h16

O Sporting está de regresso ao Jamor, confirmando a sua candidatura à conquista do troféu, algo que começou a afirmar-se de forma clara quando eliminou outro candidato, o FC Porto, em pleno Dragão. Agora, nas meias finais frente ao Nacional, não sobram quaisquer dúvidas quanto à justeza do apuramento se olharmos para o somatório das duas mãos. Na primeira os leões reagiram a uma desvantagem - no marcador e no número de jogadores - para imporem uma igualdade ; na segunda foram os donos do jogo durante quase todo o tempo. Ou seja, aqueles que mais fizeram pela qualificação.

É certo que o desafio de Alvalade foi muito marcado pelo resultado da Choupana. Mas isto nada tem de surpreendente ou criticável porque uma eliminatória é mesmo para ser entendida como um todo. O Sporting partiu em vantagem (bastava o desafio terminar como começara para estar na final), enquanto o Nacional só se salvaria se ganhasse no terreno do adversário. Cada um definiu o que pensou ser a melhor estratégia, mas, como se viu, os madeirenses acreditaram demais nos ventos da sorte, o que frente ao Sporting é um risco imenso para tão alto objetivo.

Os leões sabiam melhor do que ninguém o que estava em causa. A Taça de Portugal é o único troféu possível na temporada, uma prova na qual passaram a ser encarados como os principais favoritos, após o já referido afastamento do FC Porto, a que se juntaria depois a eliminação do Benfica pelo Braga. Portanto, a Taça é a aposta suprema da época (a ida à Champions é uma questão paralela, mas só dá dinheiro, não títulos). Neste quadro, ultrapassar o Nacional era obrigatório.

A ansiedade reconhecida por Marco Silva, na meia hora inicial, pode explicar-se por tudo aquilo. Mas não foi isto que inviabilizou a criação de um número de oportunidades mais do que suficiente para que o Sporting se adiantasse no marcador e, consequentemente, se colocasse à margem de qualquer problema. Slimani, por duas vezes na pequena área, e João Mário, sozinho perante Gottardi, repetiram a fraca eficácia que tinha saído cara em Paços de Ferreira.

Seja como for, percebeu-se que, à medida que o tempo passava, o domínio leonino se acentuaria e, de facto, a segunda parte foi muito elucidativa neste aspeto, com a posse de bola a atingir uma percentagem brutal. E as oportunidades a continuaram a surgir e a serem desperdiçadas. O golo, muito tardio, limitou-se a repor a realidade do jogo, ficando mesmo aquém do que devia.

Já o Nacional preferiu o "esperar para ver" que, na visão de Manuel Machado, se resumia a uma dupla prática : em primeiro lugar, limitar as movimentações leoninas a meio campo para evitar sofrer e, depois, aguardar pelas hipóteses de contra atacar em busca de um golo que pudesse para virar a eliminatória. Não sei se foi a pensar nisto que o técnico madeirense defendeu a tese bizarra - que continuo a não entender - de que o 2-2 na Choupana até tinha sido melhor do que vencer por 2-1...

O Nacional tentou, andou lá perto, mas não deu. Nos ensaios de meia distância o melhor que conseguiu foi um remate de Marco Matias ao ferro da baliza leonina e nos lances de área deparou-se com um Rui Patrício ao seu melhor nível, com três intervenções fundamentais, uma delas absolutamente extraordinária a um cabeceamento de Soares.

O Sporting está corretamente na final e, agora sim, com a possibilidade real de conquistar o primeiro título da era Bruno de Carvalho. Mas, como referia Marco Silva com a sensatez invejável que o caracteriza, os leões ainda nada ganharam. Até porque uma final é demasiado imprevisível para ter certezas antecipadas. E se o antagonista for o Braga, como é previsível, o favoritismo deve ser repartido entre quem eliminou o FC Porto no Dragão e quem afastou o Benfica na Luz.

PS : Apenas uma nota sobre o golo do Sporting, tão contestado por Manuel Machado, mas que não passa de uma polémica irrelevante para o desfecho da eliminatória. Logo, uma discussão que nem sequer é prioritária. Ainda assim, numa abordagem puramente interpretativa, também entendo que o fora de jogo de William não é determinante na conclusão do lance por Ewerton.


O reverso

Colocado por mario.fernando em 07-04-2015 às 00h26

Desta vez, Lopetegui pode dizer que a equipa fez o que tinha que fazer. O FC Porto precisava de manter a distância de três pontos para o Benfica e o jogo com o Estoril serviu na perfeição. Deu goleada de cinco - podiam ter sido mais dois ou três, é indiferente - , mas tudo isto se deveu igualmente a outras componentes. A começar pelo facto do próprio técnico espanhol não ter ido por "ensaios", apostando nas certezas. Ou, se preferirem, fazendo o que também ele tinha que fazer.

Os dragões nem necessitaram de uma exibição de luxo para reduzir o adversário à ínfima expressão. Uma equipa, como a do Estoril, que não faz um remate à baliza de Fabiano durante um jogo inteiro, está impossibilitada de aspirar a mais. Ou ao que quer que seja. Aliás, já deu para perceber que, fora do seu habitat natural, esta equipa evapora-se quando defronta os grandes. Já levara seis na Luz e mais três em Alvalade, sem conseguir marcar um para amostra. Portanto, sobre os estorilistas, estamos conversados.

Ora, porque o campeonato ainda não está fechado, o FC Porto que agora se apresentou já não enfermava dos equívocos que mostrara há dias na Madeira. É verdade que, do ponto de vista coletivo, está longe do deslumbramento, no entanto, há fatores que fazem alguma diferença. Por sinal, a diferença que realmente conta. Por exemplo, ter Quaresma a realizar incursões para a zona interior, permitindo as entradas de Danilo pelo corredor, ou Herrera a transmitir uma outra lógica ao meio campo que possibilita a Oliver libertar o que de mais criativo ele tem. Até mesmo Brahimi pode viver largos furos abaixo da intensidade que, sabe-se, pode ter, que não gera motivo de grande preocupação.

Como tantas vezes tem sucedido ao longo da época, também nesta partida houve uma individualidade a emergir, no caso, Ricardo Quaresma. Praticamente tudo o que de melhor o FC Porto produziu saiu dos pés dele e - mais importante - da leitura de jogo do internacional português. Verdade que Danilo e Oliver vêm logo a seguir na ordem de importância deste jogo, mas Lopetegui dispõe de um Quaresma que, porventura, mais do que a generalidade dos que ocupam o balneário portista, sabe o que pode implicar não recuperar o título esta temporada.

Duas notas ainda para o melhor e para o pior. O quarto golo dos dragões - o grande momento da noite - é uma obra notável, começada e finalizada por Danilo, com tabela de Hernâni e assistência de calcanhar de Aboubakar. Pelo contrário, o árbitro esteve abaixo do admissível : uma grande penalidade para o FC Porto assinalada mas que não existiu, outra não assinalada mas que existiu e o último golo portista nascido de uma falta de Quaresma. Isto num dos jogos mais fáceis de dirigir neste campeonato...

Assim, é esperar pelos andamentos que se seguem. O calendário portista é não só "apertado" como exigente, até ao desafio da Luz, mas duvido que Julen Lopetegui vá mudar muito o cenário de jogo para jogo. Agora que, muito provavelmente, fica sem Tello durante umas semanas, ainda menos riscos quererá correr. Enfim, supõe-se que não.

PS : Soube há pouco que os árbitros ameaçam não apitar nas últimas cinco jornadas do campeonato, o que inclui o clássico. Novela, outra vez?


Sair de cena

Colocado por mario.fernando em 03-04-2015 às 00h13

E Lopetegui falhou o segundo objetivo da época. Sem conseguir ganhar um único jogo na Madeira esta temporada, depois de ter perdido cinco pontos no campeonato, o técnico junta à lista a eliminação da Taça da Liga. Poderá sempre dizer - como disse - que lhe sobram as duas competições mais importantes, mas nada lhe garante nesta altura que o sucesso esteja ali à frente. De resto, o jogo com o Marítimo mostrou, novamente, que algo pode estar a regredir.

Os dragões passaram por uma fase de bom futebol (a melhor da temporada) durante os tempos recentes, em que a posse de bola e o controlo das partidas tinha consequências ao nível da construção de oportunidades que, por norma, as suas individualidades aproveitavam. Era díficil, para não dizer impossível, ultrapassar um FC Porto que se adiantava no marcador. Hoje já não é bem assim. E quando ouvimos Evandro afirmar - num rasgo de lucidez óbvia - que a equipa não pode deixar correr (a expressão é minha, mas o sentido expresso é dele) quando está em vantagem, ficamos com a noção clara de que eles sabem onde estão a errar.

Mas há mais. E é aqui que entra o treinador. Não discuto as qualidades que Lopetegui certamente terá, simplesmente as opções para um jogo crucial como este foram dele. Ficar com Brahimi, Herrera e Tello no banco, apostando na dependência de Oliver (que teve de realizar o trabalho dele e o de mais uns quantos) pode render mas só até certo ponto. O Marítimo percebeu isto e não desistiu, mesmo quando as coisas nem lhe estavam a correr de feição. O empate, primeiro, e a reviravolta no marcador, depois (a propósito, toda a defesa portista fica muito mal no foto do segundo golo madeirense), mostraram uma crença que, aparentemente, o outro lado dispensou.

Ivo Vieira fez bastante bem o seu papel durante toda a segunda parte nos Barreiros. Defendeu coerentemente - só por falta de senso se arriscaria a outra solução - , passando a responsabilidade integralmente para o FC Porto. Sem ideias nem saídas para a teia montada pelo Marítimo, os dragões tiveram uma única hipótese de voltar a marcar, mas Salin negou-a a Aboubakar. Isto para 45 minutos é infinitamente pouco, se nos lembrarmos que os dragões estavam a perder e tinham de ganhar. Se queriam ser finalistas, evidentemente...

Por outro lado, alguém deveria alertar Lopetegui para as constantes reclamações em relação aos árbitros. Sobretudo quando os usa como desculpa sem que tal faça o menor sentido. Na flash disse, preto no branco, que a grande penalidade não existiu, contrariando aquilo que toda a gente viu. Na sala de imprensa já não voltou ao assunto, fazendo uma clara marcha atrás. No atual contexto seria mais plausível que Lopetegui não fosse tão figura central neste palco. Aliás, tenho dúvidas que, neste momento, o FC Porto precise mais de um técnico "discursivo" do que de um "ativo". Não foi Pinto da Costa quem colocou este plantel no Olimpo?

PS : Boa Páscoa para todos. Marcamos encontro para depois.


O equívoco

Colocado por mario.fernando em 01-04-2015 às 01h40

Convenhamos que esta é uma situação tão incomum que, mesmo com a melhor das boas vontades, não é simples analisar o que deriva da derrota de uma seleção portuguesa frente a Cabo Verde. Precisamente : de "uma" seleção e não "da" seleção. Depois de um jogo muito bem ganho pelos africanos - conjunto que já tinha demonstrado na CAN qualidades evidentes e tendência para evoluir ainda mais - há uma natural apetência para acentuar que "estes" jogadores escolhidos por Fernando Santos pouco ou nada têm a ver com os "outros". O que sendo absolutamente verdadeiro não invalida que o balanço seja dececionante. Provavelmente, porque nos deparámos com um enorme equívoco.

Antes do mais, é bom sublinhar que esta partida constituía um risco (com largas dúvidas sobre se se deveria corrê-lo). Juntar um grupo de jogadores sem qualquer tipo de rotina entre eles, apenas com o objetivo de os observar, podia dar para tudo. E deu para o torto. Desde a desarticulação entre André Gomes e Adrien, até à confirmação de que Hugo Almeida e Éder são fonte de desinspiração (até quando têm oportunidades flagrantíssimas para concretizar), passando pela inconsistência do corredor esquerdo (esperava-se mais de Vieirinha enquanto andou por aquele lado), emergiu aquilo que não deveria suceder.

Significa isto que nada ficou de aproveitável? Pouco. Do ponto de vista individual, Bernardo Silva, na ala ou (sobretudo) na zona central do terreno, esteve acima da média, algo que nem surpreende face ao aproveitamento que Leonardo Jardim tem feito dele. E João Mário o outro elemento que reforçou a ideia de que é um nome que Fernando Santos não deve esquecer "na" seleção. Tanto um como outro não têm, nesta altura, lugar no onze de Portugal, mas seria uma desatenção deixá-los para trás quando se pensa na tal "renovação".

Entretanto, a seleção de sub21 terminou a sua preparação para o Europeu com uma derrota em Praga. Mas o triunfo da República Checa tem tanto de ilusório como de alerta. A jovem equipa de Rui Jorge até jogou bem, foi globalmente melhor que o adversário durante praticamente todo o encontro - com Iuri Medeiros em grande destaque - , mas mostrou "aquele" defeito que necessita de ser ultrapassado rapidamente para não se repetirem fatalidades destas : um índice de desaproveitamento das oportunidades geradas que chegou a roçar o absurdo. E não me refiro apenas às quatro vezes em que a bola foi aos ferros da baliza checa.

Atendendo a que na fase final já se poderá contar, entre outros, com Raphael Guerreiro, Paulo Oliveira, Ruben Vezo, Rafa, Bernardo Silva ou Ivan Cavaleiro, há boas razões para acreditar que esta equipa pode atingir o verdadeiro objetivo no Campeonato da Europa. Que nem é ganhá-lo (se for possível, melhor) mas sim assegurar a qualificação para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Confesso já estar um bocadinho cansado de ouvir os meus colegas estrangeiros perguntarem-me, de quatro em quatro anos, por que razão o futebol português falha uma prova daquela dimensão. E mais incomodado ainda por ter de lhes explicar... 

PS : Danilo confirmado no Real Madrid e com números elevados para um lateral. A tal reformulação (profunda?) dos plantéis dos grandes entrou em andamento acelerado.


Jogo de táticas

Colocado por mario.fernando em 30-03-2015 às 20h06

Semana de seleções, Portugal a fazer o que lhe competia frente à Sérvia e a testar novas caras perante Cabo Verde. As nuances táticas e as grandes opções estratégicas - com um Europeu no horizonte - foram os pontos em análise no Jogo Jogado da TSF.

Mas também uma primeira abordagem à reformulação dos plantéis dos três grandes para a próxima temporada. É que todos eles já assumiram que as alterações são inevitáveis. O dinheiro que faz (muita) falta vai condicionar a componente desportiva até que ponto? Além das dúvidas que pemanecem em relação à continuidade dos treinadores, por motivos distintos. 


Tratar do necessário

Colocado por mario.fernando em 29-03-2015 às 23h37

Pela primeira vez, desde que se iniciou esta fase de qualificação para o Europeu, a seleção nacional ocupa a liderança do respetivo grupo de apuramento. No fundo, o verdadeiro objetivo do jogo frente à Sérvia era este, ganhar para liderar. Por este prisma, o trabalho está feito, voltando a colocar Portugal nos carris. A questão, portanto, não era o brilhantismo, mas construir um caminho. E, de facto, brilhantismo não houve (até sobrou uma lentidão global, pouco ou nada apelativa), mas os três pontos sim. Chama-se a isto tratar do necessário.

Umas pequenas notas que convém registar. A opção de colocar Fábio Coentrão em terrenos mais adiantados, com Eliseu na lateral esquerda, provocou uma dupla consequência. Ao ser interior esquerdo "liberta" boa parte da vocação ofensiva que Fábio sempre possuiu, sem prejuízo do apoio a Eliseu. Utilizar Coentrão como o "suporte" de Ronaldo na sua relação com o corredor, à semelhança do que já se viu no Real Madrid, é uma espécie de contribuição "clubística" que uma seleção pode aproveitar. Aliás, o capitão, desta vez, andou literalmente por todo o terreno. A única dúvida que sobra é se isto é aplicável em todos os jogos, isto é, com qualquer adversário. À partida, não tenho tanta certeza. 

Há um outro aspeto que se prende com a experiência dos jogadores que estiveram na Luz. O selecionador precisava - e escolheu nesse sentido - um leque de gente suficientemente rodada para lidar com situações em que o grau de exigência emocional é acentuado. Na perspetiva de preservar o fundamental - um resultado que empurasse para a qualificação - Fernando Santos deixou a "renovação" em pausa e apostou na solidez. É certo que Portugal passou tempo demais a gerir a vantagem de 1-0 - além do fantástico remate de Ronaldo, superiormente defendido por Stojkovic, pouco mais se viu nesse período - , mas também não é menos verdade que reagiu rápida e eficazmente ao golo (de grande execução) de Matic e terminou o jogo claramente em cima do adversário. 

É um dado adquirido que esta seleção com Ronaldo é uma coisa e sem ele é outra. Mas as coisas ficam melhores se ele está e "outros" também. Por exemplo - porque foi o caso mais visível - quando João Moutinho surge neste nível. Quando o médio do Mónaco se distanciou mais do posicionamento como interior direito, notoriamente, foi ele quem pegou no jogo. O que sucedeu na segunda parte foi o reflexo daquela mutação que, por muito pequena que pudesse ser, transformou o cenário voltando a colocar o controlo do desafio do lado português. O resto é capacidade técnica e visão. Como no segundo golo em que ele vê Coentrão surgir no "tal" sítio.

Portugal tem mais quatro encontros para realizar, três deles fora. Contudo, e olhando para a qualificação "ampla" que esta fase permite, caso confirme triunfos na Arménia e na Albânia, a presença no Europeu ficará praticamente encerrada. Entretanto, vem agora a oportunidade de apresentar uma equipa completamente nova perante Cabo Verde. Uma boa hipótese para aferir a capacidade de resposta dos jogadores chamados e, em paralelo, prosseguir os testes para a tão falada renovação a que o futuro inevitavelmente nos vai obrigar.


Jogo selectivo

Colocado por mario.fernando em 23-03-2015 às 20h11

O campeonato parou, porque vem aí a seleção. E com Fernando Santos a ver reduzido o castigo da FIFA, o que coloca um cenário bastante mais desanuviado para o selecionador e para a FPF. Precisamente na semana em que a Sérvia é o adversário que se segue no apuramento para o Europeu.

Isto enquanto, no plano interno, se discutem as implicações da diferença pontual entre Benfica e FC Porto ter passado de quatro para três. Mas igualmente as debilidades (emocionais? táticas?) que fizeram com que ambos escorregassem na mesma jornada. Isto é sintoma de alguma coisa?

Dois temas que centraram a análise no Jogo Jogado da TSF.



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