
Miguel Midões / TSF
O Entrudo nas aldeias de xisto é característico pelas típicas máscaras de cortiça, que tapam a cara de quem, com um funil de metal aproveita para deitar pulhas.
Estas máscaras de cortiça, que podem assumir as mais variadas formas, estão a ser construídas por um único artesão e, por isso, a arte pode até ter os dias contados.
Por isso mesmo, no sentido de preservar a tradição e valorizar este património cultural, a Câmara Municipal da Lousã criou uma exposição de máscaras de cortiça, que esteve patente no Museu Etnográfico da vila e, no final, o ancião José Cerdeira deu um workshop para ensinar esta arte a quem queira preservá-la.
Tem 83 anos. Chega ao espaço do Museu Etnográfico, abre o saco de serapilheira onde traz o material e espalha-o em cima da mesa. Pronto a criar mais uma máscara.
São de facto poucos os que querem aprender a fazer máscaras de cortiça. José Cerdeira foi pedreiro e artesão a meio tempo. Faz máscaras de madeira apenas há onze anos. E fá-lo porque não quis deixar morrer a tradição. "É pena. Também tenho dois netos, mas nenhum deles quer isto".
José Cerdeira explica que uma máscara de cortiça, começa-se pelos olhos, depois o nariz, a boca e os dentes. Por fim, coloca-lhe as orelhas. "A cortiça chega-me em tosco, em bruto, e depois vou fazendo à medida, conforme quero o tamanho. Se quiser uma máscara mais pequenina também a faço".
Pequeninas, grandes, de cortiça mais grossa, ou de cortiça mais fina, ainda virgem, como lhe chama. Daquela que é proibida ainda de apanhar. E por isso, nesta reportagem utilizamos cortiça velha e rija. "Tem uns 3 a 4 centímetros de grosso. A cortiça é só tirada a partir de maio, e tira-se a punho, com as mãos a abrir, e em agosto já é com o suor do rosto, já é preciso puxá-la com uma tranca pelo sobreiro acima", esclarece.
José Cerdeira diz que já fez entre 200 a 300 máscaras e com elas também já correu o país. A qualquer sítio que vá vende sempre dois ou três exemplares, porque são diferentes, porque são de cortiça e porque lembram o entrudo das aldeias de xisto.
Curiosamente, há quem queira que José Cerdeira lhe ponha os cornos. "Sou malandrote para estas coisas. Pergunto às senhoras se querem que lhes ponha com cornos ou sem cornos. E depois digo: olhe, é o que está a dar hoje", exclama.
E sem maldade ponhamos então os cornos na máscara e façamos um preço: "por volta dos dez euros cada máscara".
A iniciativa de fazer a exposição das máscaras de cortiça e dos ateliers em que José Cerdeirinha ensinou a fazê-las partiu da Câmara da Lousã, mas é em Góis, concelho vizinho de onde o artesão é natural, que se fazem ainda as corridas de máscaras de cortiça
A falta de poder económico nas aldeias de xisto levavam os habitantes a mascararem-se com o que havia por casa: serapilheiras, fronhas velhas, trapos, ou, para os mais criativos e engenhosos uma máscara feita a partir de cortiça.
Tanto quanto se sabe, segundo a Câmara da Lousã, José Cerdeira é o único artesão a criá-las atualmente.