Cultura

Tintin: Primeiro livro lançado em versão colorida

Chegou hoje às livrarias a versão a cores do primeiro livro de Hergé. Tintin no País dos Sovietes foi editado, pela primeira vez, em 1929.

Ao contrário do que fez com todas as obras que desenhou a seguir, traço a preto e branco, neste livro, nunca viria a ser alterado, até hoje.

A empresa Moulinsart, que administra os direitos de exploração da obra do desenhador belga, coloca hoje nas prateleiras das livrarias uma edição totalmente colorida.

A TSF já foi ao museu da Banda Desenhada na cidade natal de Tintin, em Bruxelas, onde o livro já está à venda.

A belga Carine Schmitz, apaixonada pela banda desenhada e que há 27 anos se dedica à coordenação do museu, descreve Tintin no país dos sovietes como um livro encantador, até pelas suas imperfeições.

"Este é o primeiro livro de toda [a série] Tintin. Vemos bem que não o mesmo traço de Hergé quando chegou ao décimo álbum. Já não desenhava da mesma maneira. Mas, aqui, ele tinha apenas 21 anos. É a primeira banda desenhada dele. É normal que tenha defeitos", nota a diretora do museu.

Em Tintin no país dos sovietes, encontramos por exemplo bananas em Moscovo, postos de combustível da Shell na Rússia e algumas personagens têm nomes com origem na Polónia. Nada disto existia na Rússia de 1929. Mas, é isso "que lhe dá o charme, ao vermos que ele era tão jovem quando fez o primeiro livro", nota Carine Schmitz.

Aos 21 anos, Hergé inaugurou um novo estilo que, a partir daí, marcaria a banda desenhada. Os traços fortes, sem sombreados, pouco contraste são "o princípio do que chamamos a linha clara".

"Na verdade, em Tintin no país dos sovietes, o mais interessante é o movimento e a forma como ele faz mexer as personagens, as perseguições de carro, Milu que já tem imensa graça. Francamente é o início de uma grande aventura de Tintin", afirma.

No início da história, Tintin é enviado de Bruxelas em reportagem para Moscovo. Por sabotagem dos serviços secretos russos, uma bomba destrói o comboio, durante a passagem pela Alemanha. Tintin é detido sob acusação de atentado terrorista. Algumas semelhanças com a atualidade poderiam levar a pensar que é um livro recente. Mas, Schmitz considera que se trata de um livro confinado no seu tempo e "Tintin no país dos sovietes já não tem atualidade".

Hergé escreveu sob as orientações da direção do Jornal católico, conservador, anti-comunista, Le Vingtième Siècle. A história da investigação ficcionada, do repórter imaginário, que se tornou num dos principais heróis da banda desenhada, foi publicada semanalmente, em capítulos, entre 1929 e 1930, como um instrumento de propaganda anti-soviética.

Misturadas com as peripécias do repórter, ao longo das 140 páginas, encontram-se as conclusões da investigação, do enviado à Rússia, por exemplo, quando descobre a forma como o regime soviético iludia o povo sobre o Paraíso Vermelho.

Hergé escreveu a história sem nunca ter estado na Rússia, com base nos escritos do consul belga, em Moscovo, naquela época. Isso mesmo nota-se quando Tintin descobre que os bolcheviques ameaçavam o povo para conseguirem a vitória nas eleições. É uma transcrição quase integral dos relatos do cônsul que viveu nove anos em Moscovo.

Numa das passagens o repórter vai parar a um esconderijo, cheio das riquezas supostamente roubadas ao povo por Lenin, Trotsky e Stalin. Tintin consegue escapar daqui com a ajuda do companheiro inseparável, o cão Milu.

O repórter imaginário ficou conhecido, ao longo de mais de duas dezenas de alguns que se seguiriam, pelo andar ligeiramente curvado, as pernas fletidas e pela madeixa de cabelo levantado. Mas, não é exatamente esta a figura apresentada nas primeiras vinhetas do livro. Esta imagem de marca do repórter é lhe atribuída mais adiante na história.

"É durante uma perseguição de carro que os cabelos dele ficam para trás e o Hergé continuou a desenhar-lo desse maneira. É em Tintin no país dos sovietes que Tintin fica com a sua pequena madeixa", lembra a diretora do museu.

Carine Schmitz acredita que a reedição colorida vai ser um sucesso, relançando as vendas das Aventuras de Tintin. "O facto de se fazer Tintin no país dos sovietes [em edição] colorida, aqui no museu da Banda Desenhada, [acredito] que as pessoas que são amantes da Banda Desenhada possam descobrir, ao mesmo tempo, o livro a preto e branco", afirma.

Schmitz acredita que a paixão dos mais novos com o Tintin ainda é como dantes e, aos 88 anos, o famoso repórter belga ainda encanta os jovens de hoje. E, isso nota-se nas vendas.

"Aqui, pelo que vemos, continua ainda a ser o melhor. O Tintin e os Estrunfes são os "Bestsellers". É importante saber que estamos no museu da Banda Desenhada. E, muitas das pessoas que aqui veem querem os clássicos. O Tintin mantém-se como a nossa melhor venda", garante.

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