Liga dos Campeões

A nostalgia jogou de cinzento: patrão e génio venceram no jardim de Brahimi

FC Porto encaixa os primeiros golos e sofre a primeira derrota da época. Talisca marcou, Quaresma assistiu e Pepe limpou quase tudo. Do lado português, Brahimi assinou grande exibição.

No futebol amador não há frescuras. Naqueles jogos quentinhos de rua, interturmas ou até entre escolas toda a gente sabe quem toca bem na bola. O craque assume sempre, leva uma instituição às costas, engole a timidez de quem o rodeia. Finta um, outro, remata. Falha. Encolhe os ombros. A seguir faz tudo igual, leva porrada e repete a brincadeira. Resolve, ajuda a resolver. Complicando a sua vida, simplifica a dos outros. A cada toque na bola ganha o respeito de quem o morde com os olhos. A glória vive no encanto que transmite aos outros. E cheira-se o medo no olhar alheio. É mágico, parece imparável.

Esta noite no Dragão fez lembrar esses tempos. De um lado, o rapaz que mudou de cidade e que levou na mochila o talento que parecia impossível (a exibição de Quaresma não foi incrível, mas há pormenores que o distinguem). Do outro, na escola antiga do primeiro, brilha um estrangeiro, com alguns problemas de adaptação. Tímido e fechado, Brahimi vai sorrindo através do seu futebol. Os génios reconhecem-se, encantam-se mutuamente com a flauta invisível. A nostalgia bate à porta. O respeito, pelo amanhã e passado, idem. Foi isto. Apesar da vitória do Besiktas (3-1), o Dragão não esqueceu as centenas de trivelas, golos e cruzamentos bonitos de Ricardo Quaresma e aplaudiu-o na hora de sair de campo. Brahimi, esse senhor que tem uma colher com cola em vez do pé direito, deixou água na boca. Ou um barril de 50 litros de água.

O jogo começou dividido, prometia bons duelos. Havia qualidade em todos os setores. Pepe, defesa do Besiktas, jogaria como quem ainda joga no Real Madrid. Um patrão. Mas até seria outro artista que escreve em português com açúcar a pingar da caneta o primeiro a brilhar. O FCP ainda não tinha sofrido golos e Iker Casillas celebrava um feito assinalável: 174 jogos depois, é o jogador com mais atuações na Europa (deixando Xavi para trás, com 173).

Aos 13' minutos a história desta partida começava a ser redigida. E logo por um homem que começou a encantar no Estádio da Luz, com golos e mais golos e com um jeito rivaldesco de bater na bola, mas que cairia em desgraça para os lados da Segunda Circular. Ricardo Quaresma recebeu na direita, cuidou bem da bola, tocou-lhe com aquele seu jeito e lançou-a com olhinhos para a área, onde surgiu Talisca ao primeiro poste para encostar para o um-zero. Os homens da casa reagiram logo a seguir: Óliver, o ex-futuro jornalista, rematou ao poste, com a canhota. Não teve uma noite feliz, o espanhol.

O universo conspiraria pouco depois, com um golo na própria de Tosic, que, em boa hora, ganhou no duelo a Marega, depois de um canto de Alex Telles, 1-1. Quando os dragões começavam a crescer, com o seu futebol móvel, de pé para pé, com amplitude, com coragem a jogar pelo meio, com passes verticais e tabelas, o Besiktas voltou a marcar. Tosun, o avançado que sentou Negredo, pegou bem de longe e enganou o senhor recordista, Iker Casillas, que até parece mal batido, 2-1. Admitamos: foi um balázio.

Até ao intervalo, Marega e Soares tentaram a sorte, mas nada feito. Sérgio Conceição não estava contente com a pedalada e acerto do meio campo e fez entrar ao intervalo André André e Otávio por Óliver e Corona. O FCP melhoraria um bocadinho, tocaria bem na bola, chegaria várias vezes à frente, mas paracia ter sempre pouco peso na área. Foi falhando golos. E tentou, tentou, tentou. Bateu à porta muitas vezes, mas Fabrício nunca mais deixaria nenhuma bola entrar na baliza que falava turco.

Apesar das pressas e aperto pelo resultado desfavorável, o futebol dos portistas manteve-se mais ou menos coincidente com o habitual. Entradas pelo meio, soltando depois para os laterais aventureiros, triangulações à entrada da área, viu-se tudo isto. Talvez com pouco acerto no último passe ou último toque. Aos 74' Quaresma foi substituído, bateu com a mão no coração tapado pela camisola cinzenta e o Dragão cravou uma mão na outra. Muitas vezes. Muitas. No fim, o ex-7 do FCP diria que "foram os piores 90 minutos" da sua vida, pois havia rezado para não calhar com o antigo clube. "Toda a gente sabe o sentimento que tenho pelo Porto. Quando estávamos a ver os grupos, só rezava que não saísse o Porto. Infelizmente, saiu. São dois clubes [Porto e Besiktas] que vão morrer comigo."

Quando a coisa saía bem aos da casa, muitas vezes aparecia o outro velho conhecido, Pepe, que resolvia bem. Era um comandante nas águas agitadas da Invicta. O Besiktas parecia estar no controlo do jogo. Aqui e ali vulnerável, mas sem cometer erros. Já só saía em contra-ataque, com Babel e Negredo, que entrou aos 73', a pedir a bola constantemente. Seria precisamente o holandês, um doppelganger de Dino Santiago, a calar de vez o marcador: 3-1. Devagar, devagarinho, os turcos entraram pela direita, até que a ex-pérola do Ajax rematou para o fundo das redes de Casillas. Ponto final no surpreendido Dragão. O FCP de Sérgio Conceição sofre os primeiros golos do ano e a primeira derrota. No futebol a sério, como no amador, há sempre um amanhã e muitas oportunidades de serenar a nostalgia.

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