ONU

Austeridade fiscal e redução salarial enfraqueceram o crescimento dos países desenvolvidos

A austeridade fiscal e a diminuição salarial não produziram os resultados esperados e estão a enfraquecer ainda mais o crescimento nos países desenvolvidos, indica um relatório divulgado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).

De acordo com o relatório, a austeridade fiscal e a compressão salarial estão a enfraquecer ainda mais o crescimento nos países desenvolvidos, sem alcançar os resultados esperados na redução de défices fiscais, criação de empregos e renovação de confiança dos mercados financeiros, tal como tinham previsto os peritos da UNCTAD.

O documento, apresentado em Genebra, sublinhou os avisos emitidos pela agência da ONU, ao longo dos últimos dois anos, de que uma série de países desenvolvidos estão a trocar muito cedo as medidas de estímulo económico por cortes no orçamento do Governo.

O resultado é que, sem gastos suficientes do Estado para injetar alguma vida no mercado doméstico, a procura de bens e serviços, já baixa, estagnou ou enfraqueceu ainda mais.

Em vez de aumentar os negócios e a confiança do mercado financeiro, a abordagem tem deixado muitas empresas pessimistas sobre o futuro e sem vontade de investir em novas produções ou contratar novos trabalhadores.

Na avaliação às tendências da economia global, o relatório advertiu que o crescimento está a desacelerar em todas as regiões do mundo, paralisado, em parte, pelas medidas de austeridade que estão a prejudicar a procura nos mercados dos principais países desenvolvidos, reduzindo assim as perspetivas de exportação dos países em desenvolvimento.

Um número de países em desenvolvimento está a realizar políticas que apoiam a procura doméstica - indicou -, mas estas não serão suficientes, se o crescimento não atingir as grandes economias avançadas.

O crescimento global caiu de 4,1 por cento em 2010 para 2,7 por cento em 2011, de acordo com o relatório. Uma queda ainda maior é esperada pela UNCTAD -- de menos de 2,5 por cento -- em 2012.

O relatório avançou uma queda nos países desenvolvidos para um crescimento de apenas 1 por cento este ano -- uma combinação de uma recessão renovada na União Europeia com o crescimento de cerca de 2 por cento nos Estados Unidos e Japão.

A expansão económica nas economias em desenvolvimento e em transição deverá ser mais forte ao longo de 2012 -- 5 por cento e 4 por cento, respetivamente --, mas também abaixo de anos anteriores.

O relatório observou que, entre 2006 e 2012, cerca de 74 por cento do crescimento da produção global foi gerado nos países em desenvolvimento, em comparação com apenas 22 por cento nos países desenvolvidos.

No entanto, os países em desenvolvimento ainda são vulneráveis ao enfraquecimento da procura das exportações das economias desenvolvidas, afirmou o relatório, o que se poderá verificar, uma vez que os programas de austeridade continuam e atingem especialmente e mais profundamente a Europa.

O principal problema, segundo a UNCTAD, que dificulta a recuperação da recessão global são as pressões da recessão nos países desenvolvidos.

Isto inclui ajustes de balanço no setor privado - desemprego elevado, o que diminui as receitas domésticas e dificulta o consumo das famílias - e governos a lutar prematuramente para reduzir a dívida.

As reformas estruturais não podem ser um substituto para as políticas macroeconómicas de apoio, sublinhou.

No entanto, podem contribuir para uma recuperação ao criar ou reforçar as redes de segurança social e ampliarem o papel económico de apoio do Estado, como está a acontecer em vários países em desenvolvimento.

As reformas também devem abordar as raízes da crise, reformulando os sistemas financeiros de cada país e a nível internacional, e ao reverter a tendência de aumento da desigualdade de rendimentos que a maioria dos países tem sofrido desde a década de 1980, disse.

O estudo afirmou que a crescente concentração de rendimento limita o potencial económico das nações ao diminuir a procura de bens e serviços e ao reduzir as perspetivas educacionais e a mobilidade social das populações.

Os resultados podem e devem ser revertidos pela intervenção do governo, através de fiscalização e da criação de políticas para o mercado de trabalho, sublinhou.

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