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Empresas é que viveram acima das possibilidades

Estudo revela que famílias gastam hoje menos 200 milhões por mês em juros e mesmo assim poupam pouco, mas não porque não querem. Autores recusam leitura "moralista".

A descida das taxas de juro desde 2009 permitiu às famílias portuguesas reduzirem as prestações da casa num valor global próximo dos 200 milhões de euros por mês, mas mesmo assim isso não se nota nos números da poupança.

A conclusão é de um livro feito por quatro economistas da Universidade do Minho a pedido da Associação Portuguesa de Seguradores que revela que as famílias portuguesas são das que menos poupam na Europa e essa poupança está em mínimos históricos.

O trabalho chama-se "A poupança e o financiamento da economia portuguesa". É apresentado esta terça-feira e analisa décadas de números sobre poupança. Um dos autores explica que "às vezes há uma leitura moralista destes dados dizendo que as pessoas vivem acima das suas possibilidades... mas as pessoas não são estúpidas".

Fernando Alexandre recorda que o rendimento das famílias tem estado estagnado há vários anos ou até caiu e assim a prioridade das pessoas não pode ser poupar mas sim manter uma certa qualidade de vida e investir, por exemplo, na educação dos filhos.

O investigador dá o seu próprio exemplo: "Eu tenho três filhos e a maior parte do meu rendimento é gasto na sua educação".

O estudo revela, aliás, que, ao contrário de outros países, em Portugal quem está em idade ativa poupa pouco. A maioria da poupança vem de idades mais avançadas e sobretudo de quem está no leque dos 20% com mais rendimentos ao final do mês.

Quem viveu acima das possibilidades?

Outra das conclusões do estudo é que a culpa da crise e do resgate da troika não foi da falta de poupança das famílias. Pelo contrário, Fernando Alexandre aponta o dedo aos números muito negativos do Estado e também das empresas.

O economista diz que "as empresas portuguesas estão no grupo das mais endividadas do mundo (as terceiras com mais passivo na OCDE), ao contrário das famílias que apesar de muito endividadas não estão tanto, em percentagem do PIB, como em muitos outros países".

O investigador conclui que durante muitos anos, até ao resgate da troika, o país viveu de facto acima das suas possibilidades, mas não foram as famílias que o fizeram.

O grande desequilibro, o célebre 'viver acima das possibilidades', esteve no Estado e nas empresas que não conseguiram poupar. Um problema "sério" que segundo Fernando Alexandre continua a existir atualmente: "Os empresários portugueses retiram os lucros das empresas, não os mantêm lá e não os investem".

Hoje as empresas já poupam mais que no passado, mas o economista garante que ainda investem pouco e continuam a distribuir demasiados dividendos aos donos, não investindo no próprio negócio, esperando pela ajuda do crédito alheio.

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