pré-publicação

Os Dias do Fim de Ricardo Salgado: "Passos não percebeu nada!"

"No Estado é Jobs for the boys, numa empresa familiar é Jobs for the family", afirma o ex-banqueiro num livro que reúne conversas com a jornalista Alexandra Almeida Ferreira. A TSF pré-publica excertos da obra.

Foram quatro meses de conversas, registadas quando estava o ex-banqueiro estava em prisão domiciliária, no verão de 2015, que deram origem a "Os Dias do Fim", livro da jornalista Alexandra Almeida Ferreira, editado nesta quinta-feira pela Chiado Editora.

A obra debruça-se sobre a queda do império Espírito Santo vista pelos olhos de quem o liderou durante mais de duas décadas, e que não fazia declarações públicas desde a audição na comissão parlamentar de inquérito: "Eles sabiam que o BES ia desaparecer. Eles queriam que o BES desaparecesse. Resolveram aplicar a resolução. Porque é que eles recusam dois investidores a quererem o aumento de capital? Acha normal depois exigirem em 48 horas uma recapitalização que era completamente inviável?", questiona Ricardo Salgado numa das passagens.

As perplexidades e acusações de Ricardo Salgado dizem respeito à sucessão de acontecimentos no verão de 2014, imediatamente antes da resolução do BES. No final de julho de 2014, o Banco de Portugal exige à administração do BES que faça, no prazo de 48 horas, um aumento de capital de dois mil milhões de euros e apresente um plano de reestruturação, depois de, dez dias antes, ter rejeitado uma proposta de Ricardo Salgado que previa a entrada de investidores privados no banco.

A rejeição dessa proposta por parte de Carlos Costa foi replicada pelo governo. Numa reunião com Salgado, a ministra das Finanças rejeitou qualquer intervenção pública num grupo não financeiro: "Só temos dinheiro para apoiar bancos", disse Maria Luís Albuquerque, que se referia à linha de recapitalização pública destinada apenas ao sector financeiro". Mas não era isso que o BES procurava, recorda Ricardo Salgado: "Nós estávamos a negociar com outros bancos, o Deutsche Bank, o Nomura, entre outros. O que pedíamos era apoio institucional" E o que era isso, questiona a autora. "Apoio era o Governo mostrar que ficaria agradado com uma operação desta natureza. Portanto era normal que houvesse uma participação da Caixa Geral de Depósitos numa operação destas, garantida com ativos do Grupo. Podia ser de liderança ou não. Se houvesse uma palavra no sentido de haver um apoio institucional, tínhamos sido capazes de organizar um sindicato bancário internacional".

Ricardo Salgado lembra-se bem do conselho de Passos Coelho para resolver os problemas do BES: que fosse renegociar a dívida das empresas com os credores. "O que ele me dizia era espantoso! Não tinha percebido nada!", afirma.

Um homem "triste e desiludido" mas absolutamente convicto

Alexandra Almeida Ferreira colecionou, ao longo de 4 meses, dezenas de horas de gravações das conversas que manteve com Salgado em 2015. A autora diz ter encontrado um homem "triste e desiludido" com tudo o que aconteceu, mas absolutamente convicto dos seus argumentos: "Salgado está convencido que a resolução foi uma decisão eminentemente política e que noutro contexto político, outra solução teria sido viabilizada". As conversas, gravadas com recurso a telemóvel ("o que causou alguma estranheza ao ex-presidente do BES, que não gosta de computadores e escreve à mão") eram acompanhadas de muita documentação: "ele estava obviamente interessado em mostrar-me porque é que as coisas podiam ter sido resolvidas de outra maneira, e por isso havia sempre imensos dossiers em cima da mesa: relatórios e contas, relatórios de consultoras e de auditoras", revela.

Alexandra Almeida Ferreira, até há pouco tempo quadro do Diário Económico, garante que não sentiu nenhum condicionamento nos temas tratados, e que pode sempre perguntar tudo o que quis. Houve apenas uma restrição: o segredo de justiça: "existe um processo a decorrer e portanto falámos dos tópicos mas não em detalhes de matérias que estão em segredo de justiça".

A "persuasão moral"

Antes da resolução - e quando a liderança de Ricardo Salgado estava posta em causa - Carlos Costa afirmou que estava a exercer "persuasão moral" sobre Salgado para que o banqueiro abandonasse a presidência do banco. Salgado nega:

"Quando foi ouvido na Comissão Parlamentar de Inquérito, Carlos Costa diria que estava em curso um processo de "persuasão moral" para a saída de Ricardo Salgado mas ainda hoje o banqueiro não sabe do que fala Carlos Costa. "Eu não sei o que é que isso quer dizer, um processo de persuasão. Francamente, nunca por nunca eles me disseram que eu não tinha idoneidade".

A sucessão que o Banco de Portugal não aceitou

Em 2014, nos meses finais de vida do BERS, Salgado propôs Amílcar Morais Pires como seu sucessor na presidência da instituição. O ex-banqueiro afirma no livro que o Banco de Portugal, durante meses, não se opôs a essa solução, assegurando que Carlos Costa sempre lhe garantiu que seriam os acionistas a escolher a liderança. Até que em Junho tudo mudou:

"Durante toda aquela semana, depois da reunião do dia 19 de junho, a expectativa sobre a sucessão aumentava. Tinha passado sexta-feira, depois segunda, depois terça, e ainda quarta-feira. O Banco de Portugal não se pronunciava e pior, não respondia às solicitações de Joaquim Goes. É ele que liga a Ricardo Salgado bastante nervoso. Tinha acabado de ser avisado pelo Banco de Portugal que não seriam autorizadas mais operações. O garrote apertou até ao fim. Carlos Costa estava em Frankfurt quando tocou o telefone. No visor, o nome de Ricardo Salgado.

- Sr. Governador, está a passar-se uma situação muito má, a catástrofe do grupo. Fui informado pelo Dr. Joaquim Goes que a supervisão não autoriza mais operações para o grupo.

Carlos Costa, sempre nervoso no confronto, reagiu mal:

- O Sr. Presidente está a pressionar-me!

- Sr. Governador, eu não estou a pressionar de maneira nenhuma. Estou a transmitir-lhe o que se passa. Há operações que têm de ser feitas para reembolsar papel comercial e que se não for reembolsado pode-se desencadear um colapso!

- O Sr. Presidente está a pressionar-me para as nomeações para o Conselho de Administração!

Ricardo Salgado reage. Está perplexo com a reação e, de facto, preocupado com o atraso nas nomeações:

- Mas o Sr. Governador disse-me que seria como eu entendesse e portanto estava de acordo com o Amílcar Morais Pires. Aliás, as convocatórias já estão vistas pelo Banco de Portugal e está lá o nome do Amílcar e nós não tivemos nenhum reflexo negativo sobre as nomeações que foram feitas.

Carlos Costa, em Frankfurt, acaba por dizer ao telefone o que não disse em dezenas de reuniões pessoais e e-mails trocados com o BES nos meses que serviram para preparar a sucessão. Reagia quando a confiança do mercado estava já destruída:

- O Sr. Presidente não soube ler nas entrelinhas. Faça o favor de escolher outros administradores num prazo muito curto".

Audição de Ricardo Salgado na comissão de inquérito parlamentar ao caso BES (09/12/2014)Diana Quintela/Global Imagens

"O banco não faliu. Foi obrigado a desaparecer"

Salgado garante que achou, até ao último momento, que o desfecho não podia ser a resolução:

"Ainda hoje não se conforma. Nunca se conformará. Os últimos anos da sua vida serão dedicados a isso mesmo: salvar a honra da sua família, mesmo que a família seja hoje um conceito bastante diferente daquele que teria há um ano atrás. O mesmo dos amigos. Recorda o que lhe dizia o pai. "Costumava dizer-me que na vida tudo passa, só a amizade perdura. E de facto a conclusão a que eu chego passados todos estes anos é que amizades à séria contam-se pelos dedos de uma ou duas mãos. Mas essas valem tudo. Às vezes somos também surpreendidos pela positiva. Amigos de infância que voltaram e que vieram ter comigo e me fazem companhia". Não há mágoa. Diz que não teve surpresas negativas".

O GES e o Estado: vidas semelhantes?

Uma vida acima das possibilidades: é esta a ideia que sobressai da comparação que Salgado faz entre o Grupo Espírito Santo e o país:

"Faz sentido, a comparação, claro. Por três ou quatro fatores semelhantes. O endividamento excessivo do Grupo, não do BES. O GES soçobrou e foi a área não financeira que arrastou o banco. Portugal também tem um problema de dívida oculta que pode chegar aos 70% do PIB., que arrastou o sistema financeiro. O problema da gestão: a influência da gestão no Estado leva a que a gestão seja alterada por influência política. Jobs for the boys. Numa empresa familiar, a gestão é influenciada pela família. Jobs for the family. Não vê as semelhanças? Nós tínhamos um problema evidente. E olhe que mesmo assim, no banco, só três dos 10 membros da comissão executiva eram da família". Um deles especialmente letal".

Memórias de um terramoto, um ano e meio depois

"Hoje está obviamente triste. Assume as suas responsabilidades mas não a culpa do fim do BES. Havia outros caminhos. "Fica uma enorme deceção. Uma tristeza grande pela forma como o banco acabou. Não cheguei a pedir desculpa aos clientes porque sigo a máxima expressa no verso de Fernando Pessoa: é pior pedir desculpa do que não ter razão. Sempre atuei para salvar o BES, sempre invoquei as razões que me moviam. Pelos vistos não foram compreendidas nem aceites. Mas não vou desistir de apontá-las. O que não me resigno é a pedir desculpas e considerar que, com isso, fica tudo bem. Quero que os clientes percebam que procurei, até ao fim, salvaguardá-los. O banco foi forçado a desaparecer e foi forçado a desaparecer por uma total falta de visão dos governantes do nosso país e da ação da parte do Banco de Portugal que, no fundo, julgo já tinha intenção de acabar com um banco de família".

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