Análise

Real crise

A crise do dólar é real, mas também é a do Real. Parece confuso? Pense apenas que, aos primeiros sinais de crise política, a moeda é que paga.

A nossa previsão para o Real Brasileiro tem estado na casa dos 3,40 face ao dólar, precisamente porque considerávamos que o mercado estava a negligenciar as possibilidades de uma nova crise política no Brasil. O governo de Temer, que substituiu o governo de Dilma escolhido nas ultimas eleições diretas, já era muito impopular, e estava sob pressão nas ruas, greves e constantes inspeções regulamentares.

Mas agora, com a publicação de gravações que implicam o presidente Temer em casos de corrupção, confirma-se que não está claro qual será o governo brasileiro para os próximos meses. O mercado está muito atento e a avaliar este risco, por isso temos visto nos últimos dois dias uma desvalorização do real brasileiro, que já está a ser negociado nos níveis que tínhamos vindo a prever.

Já, nos EUA, os investidores já começaram a reagir à incerteza sobre o futuro de Trump estando neste momento a aplicar um preço de risco político no dólar. A moeda norte-americana começou a cair a 9 de maio, quando foi anunciada a demissão de Comey, mas tem acentuado a queda. Este tipo de "prémio de risco" associado ao dólar parece ser o oposto do "prémio de risco político" de que ouvimos falar durante as múltiplas crises do euro. É, no entanto, a primeira vez que vemos tal desenvolvimento no outro lado do Atlântico.

Seja qual for o resultado real da atual crise política nos EUA, será muito difícil que já este ano, Trump consiga aprovar no Congresso qualquer estímulo fiscal significativo ou gastos com infraestrutura, o que vai pesar sobre a subida das taxas de juro da Reserva Federal e sobre o valor do dólar.

Isto significa provavelmente que, tal como aconteceu na Europa no passado, temos de começar a prestar muita atenção à evolução política nestas duas fortes economias, a fim de explicar os movimentos dos ativos financeiros e dos mercados monetários.

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