A Vida do Dinheiro

Ricardo Reis: "O diabo ainda pode vir"

O economista Ricardo Reis avisa que a economia portuguesa é ainda muito frágil e que o "diabo", ainda pode aparecer. O erro de Passos, diz Ricardo Reis, foi fazer previsões de longo prazo.

O país viveu o último ano entre dois discursos políticos: de um lado, o governo e os partidos políticos que o suportam, a defender o modelo económico assente na reposição de rendimentos; do outro lado, o PSD a defender que "podia vir aí o diabo" e que este modelo não ia levar-nos a bom caminho. A verdade é que "o diabo" não veio. Mas pode vir?

Pode, com certeza que pode. O que penso que estava correto na previsão da direita, é que de facto Portugal continua a ter uma economia muito frágil, que está sujeita a choques. Nessa afirmação, Passos Coelho errou porque tentou fazer previsões económicas a médio/longo prazo, que os economistas bem sabem que essa é uma tarefa difícil e que põem-se em sarilhos quando o fazem, e ele, provavelmente, não o deveria ter feito. Portugal é uma economia frágil, e não é frágil por causa do Governo atual, mas é frágil há alguns anos. E como tal, não sei se lhe queremos chamar diabo, ou outra coisa, mas a verdade é que continuamos expostos a choques que venham de fora, tal como em 2010.

Uma das críticas feitas ao atual Governo é a falta de aposta no investimento. É grande lacuna?

Penso que, em parte, essa é uma avaliação injusta. No primeiro ano, este governo teve uma tarefa bastante difícil, que foi a crispação e normalização das questões políticas, no sentido de estabilizar o governo, e fê-lo com enorme sucesso. E agora que estamos a começar o segundo ano vamos ver qual é a agenda reformista. Em relação ao corte do investimento, é verdade que existiu e era necessário, tendo em conta os constrangimentos políticos que ele encontrava e tendo em conta, o que meu ver tem um grande mérito, que é ter-se mantido comprometido com os objetivos do défice e os compromissos internacionais e tê-lo feito. Espero para ver a agenda reformista que envolverá, com certeza, um aumento do investimento, e uma escolha de qual o investimento público a seguir. Mas não censuro o primeiro-ministro pelos cortes que fez nos últimos 12 meses.

Concorda com Teodora Cardoso, que diz ter sido um milagre ter um défice como o de 2016?

Não sei se essa foi uma expressão completamente feliz, mas tendo em conta o número de choques, é sempre uma espécie de milagre. Independentemente do que Teodora Cardoso estava a exprimir, é que todos os governos encaram os objetivos do défice como algo a atingir e talvez a exceder ligeiramente, mas nunca ficar muito abaixo. Nesse sentido, de facto, é um milagre, quando ficamos abaixo, mas isto não é uma crítica a Mário Centeno, mas a todos os ministros das Finanças que Portugal já teve nos últimos 20 anos, que é exigirmos sempre os limites do défice num absoluto limite e mesmo esticando a corda o mais possível.

Já se venderam vários modelos de crescimento, baseado nas exportações, consumo, serviços e agora no turismo e indústria 4.0... Que país devemos ter?

Acima de tudo, um país que se guie por princípios da abertura à concorrência externa, da competição sadia dentro do país, de eficiência na alocação de recursos, na distribuição de capital, na gestão que a banca faz, na interferência que os políticos têm na economia. Não gosto de falar em modelos, é uma expressão que tem uma inspiração marxista de coletivismo que já não existe no mundo há décadas, mas falemos antes em princípios.

Como ter a economia mais forte? É ir por tentativa e erro?

Não. Com certeza que há um elemento de tentativas e erros em saber quais os setores e indústrias, agora não na tentativa e erro no sentido do que são erros claros que fizemos no passado e que não devem ser repetidos, sobretudo em termos de políticas públicas. Primeiro, temos de fazer uma reforma do Estado e baixar o peso da despesa do Estado. Continuamos a ter umas contas públicas muito debilitantes, uma dívida pública muito grande, o que leva a uma enorme fragilidade em termos de sofrer qualquer choque. Segundo erro do passado: um sistema financeiro muito pouco moderno e muito pouco eficiente, em termos da forma como alocava capital, e muito capturado na perseguição de rendas assim como nos empréstimos que financiassem, não o investimento produtivo, mas antes o investimento que oferecesse garantias reais. Isto é um erro que não deveremos voltar a fazer. A limpeza do balanço, da reforma dos bancos, a venda dos bancos, a mudança do seu controlo acionista, tudo isso tem ajudado nessa direção, e espero que mais seja feito. Erro número três: um excesso de intervencionismo do Estado na economia, um Estado muito grande e que decide escolher setores e prioridade aqui e ali, e que ao fazê-lo acaba por criar rendas, distorcer incentivos e acima de tudo desencorajar a concorrência internacional e encorajar um certo protecionismo nacional. Isto é mais um erro que não deveríamos voltar a repetir. E há vários outros.

E está a ver este Governo a cometer algum desses erros?

Acho que este Governo merece o benefício da dúvida. No último ano estabilizou o seu governo e tem agora a oportunidade de fazer as suas reformas e ainda vamos ver. Mas acho que os portugueses devem ser muito exigentes nos próximos meses, porque a verdade é que passámos um ano crítico em relação ao Governo, em que não fizemos reformas quase nenhumas, mas o próprio Governo assim o assume, foi o ano da reposição. A tal estratégia desta reposição para estimular o consumo interno não durou muitos meses e fracassou, nunca foi algo que funcionasse. Portanto, espero agora para ver qual é essa estratégia e que não cometa os erros do passado. E dou-lhe benefício da dúvida tendo em conta a situação débil da economia portuguesa, com uma rédea muito curta.

Não estamos livres de ter problemas em mais um banco, depois do BPN, BPP, CGD e BES?

Se estamos livres de um novo problema num banco, não estamos, porque todo o setor bancário, com muito poucas exceções, esteve sujeito um problema muito grave, em parte de má gestão, mas também de outros problemas anteriores. E o setor bancário em si, e olhando para o futuro, é irremediavelmente menos lucrativo do que alguma vez foi. E isto tem que ver com o facto de termos apertado a regulação financeira muito mais, termos posto controlo de capital no seio financeiro, portanto os retornos que costumava haver para um acionista nunca mais voltarão a ser os mesmos, e portanto os bancos não voltarão a ter os mesmos lucros, a não ser que revertamos estas relações e outras. Ou seja, os bancos atuais nunca serão o que foram em termos de capitalização bolsista, ou em termos de distribuição de dividendos. Isso obviamente que dificulta e diminui a margem de manobra para expiar os erros do passado, o que leva a que alguns bancos terão que ter mais dificuldades. Mas todos os bancos internacionais, nos últimos 6 ou 7 anos, mudaram radicalmente a sua organização. Isto em países que não tiveram os problemas que nós tivemos, porque o sistema bancário mudou e os bancos tiveram de se adaptar e não sei quais se adaptaram, ou se o Montepio se adaptou ou não.

Deve a CGD manter-se pública?

Mais do que público ou privado, tem é de ser um banco bem gerido. Houve erros graves de gestão nos últimos anos. O que sei é que, olhando para o futuro, esta intervenção na CGD vem - porque é um resgate a um banco público -, com uma série de condições de Bruxelas, assim como do regulador de Frankfurt, que implicam que a CGD, no curto a médio prazo, vai ser, pelo menos parcialmente, privatizada. E isso não foi anunciado com grande fanfarra, mas aconteceu nos últimos seis meses, quando a tal recapitalização da CGD é inevitavelmente uma privatização parcial, porque só assim seria aprovada em Bruxelas e Frankfurt.

Quer explicar-nos melhor como parcialmente fica privatizada a CGD?

A única razão pela qual as entidades da concorrência permitiram que a CGD fosse recapitalizada com capital público, sem que isso fosse concorrência desleal para os com os bancos privados, que têm de procurar capital privado ao contrário da Caixa, foi pondo enormes limitações na capacidade da CGD se expandir nos seus negócios, pois vai ter de contrair em números de trabalhadores e quota de mercado, e em segundo lugar excluir de forma muito assertiva qualquer outra recapitalização no futuro, e em terceiro lugar, implica que parte da operação é financiada com empréstimos a privados, obrigações que serão mais tarde convertidas em ações da própria Caixa Geral de Depósitos. Portanto, já fizemos em parte esta privatização, já limitámos recapitalizações no futuro, ao mesmo tempo que trouxemos os que vão ser os futuros acionistas privados, que esses sim podem recapitalizar a CGD. A tendência futura é que a Caixa venha a ser mais privada. E esta foi a única solução possível para salvá-la.

A maior parte dos bancos que estão hoje parqueados em Portugal estão maioritariamente em mãos estrangeiras. Considera que deveria haver maior controlo destas instituições por parte do capital nacional?

A experiência, em Portugal, tem-nos mostrado que não é óbvia a resposta a essa pergunta e que não é claro que a resposta é sim ou não. Hipoteticamente seria bom que um setor tão chave como o bancário estivesse nas mãos de capitalistas nacionais, que pudessem por isso ter sensibilidade a algumas questões do país, sabendo nós, sobretudo, que no caso de dificuldades financeiras, como vimos em Portugal, os bancos todos no seu conjunto foram chamados para a resolução do BES, o chamado Fundo de Resolução e Outros, e permitirem que o setor como um todo sobrevivesse, o que poderá ser mais difícil quando os bancos são todos detidos por estrangeiros. Ao mesmo tempo, a nossa experiência dos últimos 15 anos é que a proteção de campeões nacionais e a tentativa de manterem o controlo de várias empresas, levou, regra geral, a enormes ineficiências, a enormes rendas políticas e a enorme interferência política nesses campeões, e a decisões de gestão desastrosas. Tendo em conta esse balaço, parece-me que olhando para a experiência recente, prefiro que sejam os estrangeiros a gerir os bancos de forma a que não levem à má afetação de recursos e aos problemas até mesmo de corrupção política que vimos, infelizmente, a surgirem, quando protegemos interesses nacionais. O melhor dos mundos seria que houvesse capital nacional que pudesse ser o dono dos bancos. E porquê que ele não existe? Não existe por causa desta questão dos últimos 15 anos, da chamada dívida externa, ou seja, do facto do país ter deixado de crescer, ter continuado a consumir, e como tal ter pedido emprestado fora. Ora, descapitalizamos o país desde o ano 2000, ou seja, não há capital. Noutra perspectiva, Portugal, há cinco anos, quando entrou a Troika, tinha uma dívida externa brutal, de 160% do PIB, tínhamos um défice da balança de transações correntes, um acumular da dívida que aumentava todos os anos, e nos últimos anos conseguimos, com enorme mérito do Governo anterior, reverter a situação da balança de transações correntes, de forma a que hoje em dia estamos a reduzir a dívida, ao nível de 2% a 3% por ano, quando ela está nos 170%, e isto implica que a única forma de pagar a dívida é vender alguns dos bens, dos ativos. E portanto as vendas aos estrangeiros, quer seja das privatizações do Governo anterior, quer seja da compra dos bancos agora, são o outro lado da medalha do que foi um enorme fardo de dívida acumulada durante 17 anos. E o único remédio para não vendermos os ativos seria ter um superavit ainda maior da balança de transações correntes, ou seja, estarmos a consumir ainda menos ou a produzir ainda mais. Perante as opções é claro que os portugueses disseram não querer mais austeridade e voltar a consumir. A taxa de poupança das famílias caiu de forma extraordinária nos últimos 12 meses, o que é altamente preocupante. Os portugueses parecem ter decidido com o seu voto que preferem vender os bancos e os seus ativos do que poupar mais.

Ainda temos muita coisa para vender, tendo em conta tudo o que vendemos nos últimos anos e se conseguimos resolver o problema da dívida dessa forma, ou se, como defende a esquerda, é inevitável renegociar a dívida pública?

Eu estava a falar em dívida nacional externa e agora estamos a falar de dívida pública. Em termos de dívida nacional externa temos muitas coias para vender, temos s país todo, podemos vender prédios, podemos vender casas, podemos vender tudo o que faz Portugal, temos muitos ativos. O PIB é o que o país produz num ano, a dívida é de 160 ou 170%, portanto, temos acumulados à nossa volta tudo o que fizemos em Portugal nos últimos 900 anos, logo há ativos nesse sentido. Mas, na questão da dívida pública, que é gémea desta, de facto que ativos públicos ainda há para vender? Muito poucos. No caso do Estado o que se tem que fazer é balançar as contas públicas, alcançar os limites do défice e aí ainda bem que o Governo atual continuou com esse compromisso, porque a opção de vender ativos já não chega. Ou seja, já não há ativos o que importa é, de facto, continuar a equilibrar as contas públicas.

Mas se o défice tem sido reduzido a dívida pública nem por isso, pois voltou a subir o ano passado...

Porque tivemos um ajustamento de austeridade muito suave - o que é uma coisa difícil de dizer às pessoas que a sentiram muito -, mas a verdade é que o ajustamento, em termos de défice foi suave: estamos há cinco anos a reduzir o défice de 7% para 2,5%. Um programa típico do FMI, em média, o ajustamento das contas públicas é de cerca de 5% por ano, no espaço de dois a três anos, e ajusta em 10% a 15%. Nós ajustámos 5% em sete anos.

E não tem nada a ver com o erro na receita, na fórmula, na estratégia?

Tem a ver com a enorme permissividade que o FMI e a Troika tiveram com Portugal. Nós tivemos um programa de ajustamento - quem sai de Portugal e vai para Washington, o que ouve não é: ai que terrível a austeridade em Portugal, mas como é possível que os portugueses e os gregos tenham tido um programa tão suave, quando na Argentina, na Bolívia, na Turquia, na Coreia do Sul e no resto do mundo tiveram de fazer um ajustamento três vezes maior quatro vezes mais depressa. Sei que isto custa a ouvir e que é politicamente incorreto dizer isto às pessoas que sofreram, mas as pessoas sofreram quatro vezes mais na maioria dos programas do FMI. Aliás, os portugueses sofreram quatro vezes mais em 1983, em termos da velocidade e da dimensão do ajustamento. Daí, ao fim dos sete anos ainda estamos nos 2,5% e ainda temos de ir para um superavit de mais 1% ou mais 2% para a dívida começar a descer. Nos últimos cinco anos o que fizemos foi estabilizar o crescimento da dívida, foi esse o plano da Troika, foi esse o plano negociado.

Está a querer dizer que precisámos da Troika novamente para fazer maior austeridade?

Não, não, o que digo é que o plano que assinámos em 2011 foi um de ajustamento suave, e ainda bem que assim foi - estou muito contente que tenha sido assim porque acho que minorou algumas das consequências drásticas que vêm destes ajustamentos - e nós continuamos a seguir o plano. E acho muito bem que o Governo atual tenha mantido os compromissos internacionais e que continue este ritmo de ajustamento que espero que continue nos próximos dois ou três anos, porque é importante para pagar a dívida. Há uma questão ligeiramente diferente, que é a da renegociação da dívida pública. Este tem sido um tema que depende, não só do devedor, mas do credor. Nos últimos dois ou três anos na Europa, sobretudo graças ao senhor Varoufakis, e da forma como antagonizou todos os credores da Europa, tornou-se um tema tabu, impossível, e é uma enorme pena para nós.

Então Portugal não deveria colocar essa questão?

No último ano e meio, assim como hoje, com eleições na Alemanha daqui a uns meses, é impossível. Daqui a um ano, com Renzi em Itália, com Macron em França, com Schulz na Alemanha, quem sabe? Espero que este Governo, assim como o anterior, esteja disposto a abrir esse debate, e a contribuir para ele, no próximo ano. Com certeza que renegociar a dívida seria sempre boa ideia. Se lhe devo dinheiro a si, e se está disposto a perdoar alguma parte dele, é impossível achar que não é boa ideia. É óbvio que sim. A questão é como é que eu posso tornar isto uma posição que seja agradável para si também, e que queira perdoar essa dívida. Graças a Varoufakis e a outras má gestões, não foi possível fazê-los nos últimos dois anos. Há quatro anos Vitor Gaspar conseguiu uma enorme redução da nossa dívida, que não foi muito reconhecida, porque estas reduções não vêm com perdões, mas com reestruturações. A nossa dívida caiu bastante com Vítor Gaspar, em 2012. Depois entrou Varoufakis e tornou-se impossível fazer fosse o que fosse, e claramente a estratégia da extrema-esquerda portuguesa, que é a mesma de Varoufakis, de fazer muito barulho, não funciona, e espero que o novo Governo volte à estratégia de Passos Coelho e Vítor Gaspar, que é: antes de mansinho e falando com cuidado para conseguir esse objetivo.

Ricardo Reis vive e trabalha em Londres, e por isso temos de falar do Brexit. Como vê este processo e o impacto que terá para Portugal?

Continua a ser um processo muito difícil, com imensa indefinição. O Governo inglês parece não estar certo do que quer fazer e do que não quer fazer, e é um problema altamente complexo, como é qualquer divórcio, e portanto continua com imensa incerteza. Quanto às oportunidades, a verdade é que não faltam países europeus que vão hoje em dia em digressões a Londres para tentar atrair empresas para o seu país, tal como Portugal. E o país poderá ter muito a beneficiar com isso, vai haver uma redefinição de onde é que as empresas estão baseadas, e Portugal, em termos de serviços de backoffice nos quais já temos tido muito sucesso, faz todo o sentido que tentemos ser competitivos. Também se fala nas questões das novas tecnologias, que Portugal pode tentar aproveitar. Este é um mundo concorrencial e se os ingleses decidem dar tiros nos pés, eu espero que Portugal tente aproveitá-los.

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