Entrevista TSF

"Armas nucleares são atos de legítima defesa"

Entrevista TSF de Margarida Serra a Kim Hyok-Chol, embaixador da Coreia do Norte.

"Tínhamos avisado formalmente que iríamos acompanhar as ações americanas e queríamos que eles acabassem com as manobras militares massivas que encaramos como exercícios de guerra contra o meu país. Mas os americanos seguiram em frente com os exercícios militares e ameaçaram o meu país. Nós não queríamos, mas tivemos que avançar com as nossas próprias medidas para fazer frente a essas manobras e, por causa disso, a situação na Península Coreana é muito tensa", afirma, em entrevista à TSF, o embaixador norte-coreano em Madrid, Kim Hyok-Chol.

O teste nuclear e o lançamento de mísseis são atos de legítima defesa?

Claro, quer dizer, no ano passado realizou-se o 7.º Congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia. Nesse congresso, o nosso partido realçou a importância de estabelecer forças nucleares que nos defendessem, ao meu país. E o teste recente do míssil balístico intercontinental foi realizado para que se atingisse o objetivo final de estabelecer uma força nuclear do Estado.

O mundo está preocupado com o que está a acontecer na Península Coreana. Como disse, o seu país já alcançou os objetivos. E agora, a Coreia do Norte está preparada para usar essas armas?

As nossas forças nucleares são só para a nossa defesa. Não temos qualquer intenção de usá-las de forma preventiva. São apenas para defender o meu país e, por isso, se os americanos, os nossos adversários, alguma vez tentarem invadir ou atacar a Coreia, então, avançaremos com uma resposta proporcional.

Então quer dizer que não há razões para as pessoas temerem as ações do líder norte-coreano?

Isto é apenas, quer dizer, é apenas um assunto entre nós e os americanos. Como sabe o meu país ainda está tecnicamente em guerra com os Estados Unidos. Os americanos têm prosseguido com políticas hostis e com ameaças nucleares à Coreia do Norte e, por isso, chegámos à conclusão que só nos podemos defender com as nossas próprias forças... e essas estão garantidas por armas nucleares fortes. Por isso, as outras pessoas, os outros povos do mundo, não têm que se preocupar com as nossas armas nucleares. Elas existem apenas para defender o meu país das políticas hostis e ameaças nucleares dos americanos.

O presidente da Rússia afirmou que a intervenção ocidental no Iraque fez com que Kim Jong-un visse o que podia acontecer à República Popular Democrática da Coreia se desistisse do programa nuclear. Acredita que ele tem razão?

Quer dizer, nós aprendemos que ao lidar com os americanos as palavras são completamente inúteis.

Mas os Estados Unidos e a Coreia do Sul fazem estes exercícios militares todos os anos e muito frequentemente. Porque é que os temem agora e porque é que aceleraram o ritmo dos testes nucleares?

Os americanos dizem o quê? Que estas manobras são anuais e com objetivos defensivos, mas, como sabe, na Península Coreana nós temos de enfrentar as forças massivas dos americanos, a presença de tropas no terreno que realizam os exercícios militares. Ainda recentemente trouxeram toda a força nuclear e passaram por duas vezes ao largo da Península Coreana para nos ameaçar. Por isso, o que é que podemos fazer? Esta é a única forma de defender o meu país e é por isso que o nosso Estado, o nosso Governo, avançou com a importante tarefa de construir uma força nuclear. Por isso, os recentes lançamentos de mísseis ou o teste com a bomba de hidrogénio, fazem desse esforço. O principal objetivo dessa força é proteger o meu país.

Mas não o preocupa a possibilidade de, depois destes testes, os Estados Unidos poderem enviar mais material militar e mais tropas para a Coreia do Sul?

Mesmo que não realizássemos qualquer teste nuclear ou parássemos os nossos esforços para nos defender, pensa que os americanos iriam retirar da Península Coreana ou parar de vender armas aos aliados na Ásia e que cercam o meu país? Não acho que fosse assim. Não faz sentido pensar que se parássemos os americanos também o fariam, por isso a lição que aprendemos em mais de meio século a fazer frente aos Estados Unidos é que só nos podemos defender com as nossas próprias forças.

Na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a embaixadora norte-americana disse que Kim Jong-un está a implorar por guerra. O seu país quer guerra?

Não, quer dizer, penso que não é razoável ou de senso comum colocar as coisas dessa forma. Nós já expressámos a nossa posição de forma muito firme e repetimos que queremos paz, mas não temos medo da guerra. E quero dizer que os americanos estão sempre a implorar por sanções junto da comunidade internacional, mas não acredito que consigam algo com isso.

A chegada de Donald Trump à Casa Branca teve alguma influência neste aumento de testes nucleares nos últimos meses?

Como sabe, o confronto entre o meu país e a América já dura há mais de meio século. Já lidámos com dezenas de presidentes diferentes. A atual administração americana se visse a situação na Península Coreana como é na realidade e mudasse a política hostil contra o meu país, então, a situação na zona poderia acalmar. Mas os americanos, tal como sempre têm feito, não mostraram qualquer vontade de mudar de política.

Depois do teste até a Rússia e a China disseram que foi uma provocação. Admite a possibilidade de a República Popular Democrática da Coreia ter ido longe demais desta vez?

Recentemente, na Península Coreana, os americanos levaram a cabo exercícios militares massivos contra o meu país. A Coreia, através do nosso representante na ONU, enviou uma carta ao secretário-geral das Nações Unidas [António Guterres] para que ele tratasse deste assunto no Conselho de Segurança, mas ninguém nos deu ouvidos.

O que está a dizer é que nas Nações Unidas ninguém deu importância ao que a Coreia do Norte tinha para dizer?

Por exemplo, o Conselho de Segurança, do meu ponto de vista, aprovou várias resoluções com sanções sem nunca ter considerado qual era a principal razão dessas ações. O que realmente provoca o clima de confronto na Península Coreana. Ele apenas segue as instruções dos americanos e por isso sempre rejeitámos essas resoluções que para nós são injustificadas e têm dois pesos e duas medidas.
Nós vamos manter o caminho que o nosso povo escolheu, que é o de defender o nosso país, defendermo-nos através da nossa forte capacidade nuclear.

Mas até recentemente a China opôs-se a essas sanções. A China é o vosso principal parceiro. Pensa que se Pequim vos virar as costas os norte-coreanos vão sofrer?

Nós temos seguido o nosso caminho e não nos importamos com o que acontece fora do país, mas o povo nunca hesitará e irá até ao fim para alcançar o seu objetivo.

Então não o preocupa a possibilidade de a China e a Rússia vos abandonarem?

Ninguém no mundo nos pode desviar da nossa rota.

Então a Coreia do Norte diz que já tem a capacidade de ameaçar e até atingir os Estados Unidos. De que mais precisam para se sentirem seguros? Para sentirem que a sobrevivência do país está garantida?

Nós estamos na fase final de completarmos a nossa força nuclear e é tudo o que posso dizer por agora.

Mas pode dizer-me se a Coreia do Norte está a preparar um novo lançamento de mísseis?

Como é que eu posso saber isso? Isso depende dos nossos cientistas, dos nossos responsáveis tecnológicos, do Exército, que lidam com esses assuntos. Eu não sei nada sobre isso.

Estava a perguntar porque o vosso embaixador nas Nações Unidas disse que a Coreia do Norte vai enviar mais presentes aos Estados Unidos...

Claro, se os americanos, quer dizer, nós já dissemos claramente que vamos ver quais são as ações americanas contra o meu país e vamos responder de forma proporcional.

A Coreia do Norte estaria disponível para regressar à mesa de negociações para acalmar a tensão na Península Coreana?

A nossa posição é muito consistente e clara. Estamos prontos não só para dialogar como queremos a paz, mas, para se aclamar a situação na península, nós insistimos que os americanos têm que mudar as políticas hostis e parar as ameaças nucleares à Coreia.

Mas estamos numa situação em que nem os americanos dão um passo atrás, nem os coreanos o fazem, por isso qual pensa que vai ser a solução para esta crise?

Bem, depende tudo dos americanos.

Então a Coreia do Norte não tem qualquer tipo de responsabilidade?

Toda a responsabilidade está do lado americano. Eles são os principais responsáveis pela divisão do meu país e são os culpados por levarem a cabo políticas hostis contra a Coreia do Norte. Se não houver americanos na Península Coreana porque é que precisaríamos deste tipo de crise?

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