Internacional

Laos e Camboja estão a perder a floresta. E a Europa participa, acusa ativista.

Leng Ouch põe o dedo na ferida e diz que os negócios com a China e com o Vietname estão a incentivar a exploração de madeira ilegal no Laos e no Camboja, destruindo as comunidades locais.

Leng Ouch, ativista cambojano, passou pelo Gaia Todo Um Mundo, para deixar uma mensagem clara à União Europeia.

O ativista garante que o governo do Camboja sabe do problema, mas fecha os olhos. Leng Ouch diz que é difícil combater localmente as redes de máfia locais e da exportação ilegal de madeira, porque até as autoridades locais estão envolvidas.

Serviços militares, polícia, membros do governo... no Camboja todos sabem que existe exploração ilegal de madeira por parte do Vietname e da China, mas ninguém toma uma atitude, porque também todos estão envolvidos na máfia.

Leng Ouch, que ganhou o Goldman Prize 2016, uma espécie de prémio Nobel do ambiente, pelo ativismo que tem feito quer no Camboja, quer no Laos, passou pelo GTM, em Gaia, para deixar uma mensagem à União Europeia: "Encontrei muitas empresas ilegais de contrabando, do Camboja para o Vietname e daqui para a Europa. Temos de convencer a Europa a ficar afastada destes acordos ilegais de exploração de madeira com o Vietname, porque a Europa favorece".

Ouch recebeu o Goldman Prize por tentar proteger a floresta e lutar contra os negócios ilegais no Laos e no Camboja. Existem empresas vietnamitas e chinesas a importar milhões de metros cúbicos de madeira, destruindo a proteção do sistema natural, a floresta e a vida das pessoas. "O governo do Camboja também apoia os negócios do Vietname e em alguns casos concede licença às empresas de exportação do Vietname e do Camboja, tentando ignorar os negócios ilegais e a corrupção, tentando negar a informação das ONG sobre os negócios ilegais, dizendo que os negócios de exportação não existem", sublinha.

Leng Ouch vai mais longe e diz mesmo que, por vezes, o governo cambojano protege as empresas ilegais dizendo que estas pertencem ao Estado: "Só eu posso mostrar ao mundo as provas de que empresas do Laos exportam para o Vietname através de portas de entrada contrabandistas e isso significa que não pagam nada, cortam e transportam diretamente e ninguém se importa por onde sai".

E por isso perguntamos ao ativista se consegue fazer intervenção junto das comunidades e do próprio governo, sem qualquer tipo de pressão ou represália. Ouch confessa que não o pode fazer livremente.

"Eu não posso trabalhar abertamente ou livremente porque já fui atacado por grupos de máfia e até por funcionários do governo, porque o negócio da madeira também está ligado e desenvolvido pelas chefias militares, e pelas chefias da polícia. Por isso, desta forma não posso trabalhar livremente, trabalho para recolher provas para mostrar ao mundo estes negócios ilegais", refere.

As florestas do Laos, mas especialmente do Camboja estão a ser devastadas pelos chineses e pelos vietnamitas e a ligação das comunidades à floresta está a mudar.

As populações vivem em fracas condições económicas, o que faz com que se deixem iludir pelo pouco dinheiro que recebem dos contrabandistas.

"O único apoio financeiro que existe é da União Europeia e de algumas ONG, não há mais nenhum apoio financeiro, por isso a floresta deixou de ter proteção por parte das comunidades locais. É por isso que vêm as empresas de fora, do Vietname ou da China, e pagam mil dólares por mil hectares de floresta, é pouco dinheiro, mas é por causa desta ideia maluca que as populações deixaram de proteger a floresta."

Leng Ouch ganhou o Goldman Prize 2016, diz ele, por denunciar em voz alta toda esta exploração que faz com que as comunidades deixem inclusive de proteger árvores que eram antes tidas como um luxo das comunidades, árvores de grande porte, que agora são grande luxo para as empresas de contrabando.

O ativista sabe o que quer fazer com o prémio, mas também sabe que tem à partida as pernas cortadas.

"Posso fazer com que o governo reforme e restruture as florestas e a sua proteção. Mas não estou contente com a ação do governo que propagandeia a proteção da floresta, e defende a não exportação de madeira em grade escala, mas um par de meses depois vemos grandes empresas vietnamitas a contornar a situação".

Leng Ouch viaja pelo mundo para denunciar a devastação florestal cega de que o seu país é alvo. O Camboja, mas também o país vizinho do Laos, estão a ver dizimadas as suas florestas por empresas vietnamitas e chinesas, debaixo dos olhos dos seus próprios governantes.

Madeira que sai ilegal do país, e na China ou no Vietname embarca tendo como um dos seus principais destinos a Europa.

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