Opinião

A Chave do Futuro

Há cerca de um ano, afirmei - num Congresso partidário - que o País vivia um momento decisivo de afirmação numa nova era de grandes transformações à escala global. A exponencial evolução tecnológica trará imensas oportunidades, mas também novas ameaças para as sociedades modernas. A mais evidente será o impacto no emprego. Diversos estudos internacionais dizem-nos que metade das atuais ocupações poderá ser substituída pela automação no curto prazo. Como contraponto, várias soluções vão sendo apresentadas pelos mais visionários e inspiradores líderes globais. Bill Gates sugere que se cobrem impostos aos robôs, Carlos Slim propõe que se trabalhe apenas três dias por semana e Elon Musk vaticina um rendimento básico universal a que todos terão direito independentemente da sua situação e condição social.

Se olharmos para a História, facilmente verificamos que as sucessivas "revoluções" tecnológicas implicaram o desaparecimento de um número muito significativo de empregos, mas acabaram por ter um saldo líquido positivo. Isto é, os novos empregos gerados pelas novas dinâmicas económicas e sociais suplantaram o número de empregos perdidos. Contudo, para que tal acontecesse, foi necessária uma fase conturbada de transição e foi imprescindível uma aposta na formação e na melhoria das competências individuais. Também hoje, talvez mais do que nunca, este é o fator-chave para enfrentar os obstáculos que este novo mundo trará.

O nosso sistema de ensino e formação, que teve e tem méritos inquestionáveis, precisa de se adaptar a uma nova realidade. É um sistema concebido noutros tempos, visando responder a expetativas muito diferentes. É crucial trazê-lo para o século XXI onde a realização pessoal e a preparação profissional dos cidadãos passam por critérios e conceitos inconcebíveis há uns anos atrás. Outros começam a perceber isto. Nas últimas semanas, a Dinamarca avançou com a introdução nos curricula, desde os primeiros anos de escolaridade, da "compreensão da tecnologia", como lhe chamou o Ministro responsável. E a Suécia aprovou uma reforma profunda dos primeiros doze anos de escolaridade através de uma abordagem holística do digital, desde a programação às redes socias, passando pelo estímulo à criatividade e à análise crítica.

Portugal tem de arrepiar caminho se quiser apanhar este comboio. A discussão em torno do novo "Perfil do Aluno", ocorrida no início deste ano adiado pelo nosso Governo alegadamente por razões eleitorais, soa a mais uma oportunidade perdida. Saibamos olhar para o futuro com a ambição que estes novos desafios exigem. Não chega navegar à vista. É preciso ter sentido estratégico, focando-nos nas próximas gerações.

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