Opinião

A corrida como instrumento de formação

Correr é ideal para quem procura ter uma vida com mais saúde e felicidade. Os estudos demonstram isso.

A quantidade de estudos que nos mostram os efeitos positivos que advêm da prática regular da corrida impressionam pelo aumento da esperança média de vida e melhoria da qualidade de vida ao longo desses anos, até aos efeitos na saúde mental com adaptações insubstituíveis, mesmo com os fármacos mais atuais.

Para quem corre regularmente, a corrida transforma-se ainda num prazer enorme muitas vezes traduzido por alterações hormonais que geram sensações de bem-estar. A corrida surge assim como a prescrição ideal para uma vida mais ativa, saudável e feliz.

Para os mais jovens, a prática regular da corrida pode ser uma oportunidade de começarem desde cedo a descobrirem uma atividade desportiva de fácil realização e de retorno imediato e prolongado no seu bem-estar, ou seja, uma preocupação que os pais deveriam ver como crucial na educação dos seus filhos.

Numa sociedade nem sempre dada à formação de valores de perseverança e autoconhecimento, a corrida pode ser uma das melhores estratégias para ensinar o jovem a lidar com os seus limites, a ganhar confiança nas suas capacidades, transformando-se numa pessoa com maior capacidade de trabalho. A prática da corrida permite uma construção permanente de um importante diálogo interior com as fraquezas e forças de cada um, numa tentativa constante de melhorar diferentes competências. Se queremos jovens capazes de adoptar um estilo de vida saudável e de moldar um conjunto de valores de responsabilidade e perseguição de objetivos, a corrida pode ser a "arma secreta".

No futuro, queremos jovens capazes de se apaixonar pelo seu trabalho e pelas pessoas com quem trabalham e que entendam os valores da cooperação e trabalho de equipa para atingirem metas comuns. E que, por isso, orientam o seu trabalho em função de objetivos muito bem definidos, porque foi assim que aprenderam a crescer desportivamente, transformando-se fortes emocionalmente para darem respostas positivas às exigências desse percurso. Têm ainda de gerir uma prática desportiva com a vida escolar e familiar, o que dará um domínio ímpar de gestão de tempo e até de capacidade de liderança, suportada em princípios éticos, que a competição desportiva lhes ensina. A corrida, como modalidade individual, de superação com os limites de cada um e de procura pela excelência em diversos domínios, pode marcar a diferença nesta formação de valores. A mensuração é constante e os resultados menos positivos não podem ser atribuídos a terceiros...

Para que esta ferramenta seja bem utilizada e eficaz, o papel do treinador é decisivo!

Pretende-se alguém motivador e capaz, não de impor, mas de ensinar a desenvolver sentimentos de esforço e perseverança. Valores que devem vir de dentro e não impostos de forma externa e altiva. Valores de competência técnica e humana que façam o jovem sentir o quanto tem a aprender e o quanto se pode enriquecer com uma prática de desafios constantes. É por isso que defendo que os pais devem também procurar os melhores ambientes e os técnicos mais formados para que a experiência seja um momento de formação muito elevada. Pouco interessa se essa criança ou jovem terá boas performances na corrida... Os seus filhos vão aprender a canalizar as suas energias, a tornarem-se mais responsáveis, mais saudáveis, mais receptivos à aprendizagem, mais sociáveis e mais confiantes.

A prática da corrida, pode e deve ser motivadora, diversificada e capaz de construir homens e mulheres com carácter e elevada capacidade adaptativa. Os técnicos devem suportar a sua intervenção em ações cirúrgicas dignas de uma escola de formação humana única em que o jovem deve ser preparado para saber fazer as suas opções, ganhar a sua autonomia e ser capaz de ir mais longe por si próprio.

As adaptações fisiológicas positivas que advêm da prática da corrida são enormes e cada vez mais bem documentadas. Mas a aprendizagem de valores pode ser única e nem sempre tão bem reconhecida, porque a competição com nós próprios e com a superação das nossas capacidades tem uma tradução para toda a vida numa simbiose perfeita corpo/mente para a formação de pessoas mais ativas, mais capazes e mais saudáveis, física e mentalmente.

Paulo Colaço é docente na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e treinador no projeto run4excellence.

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