Opinião

Centeno não mente. Só não diz a verdade toda

O folhetim entre o ministro das Finanças e António Domingues era dispensável e já roça o ridículo. Mas se Centeno insiste, então vamos a isso.

Mário Centeno convidou António Domingues para presidente da Caixa Geral de Depósitos. António Domingues colocou uma série de condições. Mário Centeno aceitou. António Domingues foi presidente da Caixa Geral de Depósitos. Vamos todos concordar sobre isto?

Se uma das condições de António Domingues para ser presidente da Caixa Geral de Depósitos era não ter que entregar a declaração de rendimentos e se Mário Centeno nunca lhe prometeu isso, António Domingues não teria assumido o cargo. Certo? Errado. António Domingues aceitou ser presidente da CGD e só tomou posse depois do Presidente da República promulgar as alterações à lei do gestor público.

Para quem ainda tem paciência para acompanhar esta novela mexicana, é bastante óbvio que o Ministério das Finanças aceitou a exigência de António Domingues sobre as declarações de rendimentos. Mais: achou, o Ministério das Finanças, que, mudando a lei do gestor público, a administração da Caixa Geral de Depósitos ficava isenta da apresentação dessas declarações. Enganou-se. Primeiro, porque nunca foi esse o entendimento do Presidente da República. Pior: não foi esse o entendimento do Tribunal Constitucional.

Encurralado, Mário Centeno decidiu fazer a chamada "fuga para a frente". Podia ser que o assunto passasse. Podia ser que António Domingues cedesse à pressão. Enganou-se outra vez. António Domingues não abriu mão das exigências que fez e, mais que isso, ficou com Mário Centeno na mão.

O ministro das Finanças podia ter resolvido o assunto com menos dor e o país escusava de estar a assistir a este triste espetáculo: assumia o engano, o erro, a falha, o que fosse; perdia António Domingues, um secretário de Estado, se fosse o caso, e a vida continuava. A esta hora estava a colher os louros de um défice historicamente baixo e já ninguém se lembrava disto. Mas não. Centeno tornou-se um especialista em pingos da chuva: raramente lhe cai um na cabeça, até ao dia em que fica todo molhado.

A conferência de imprensa do ministro, rodeado dos secretários de Estado, como se de um Orçamento do Estado se tratasse, é a prova evidente da fragilidade do titular da pasta das Finanças. Se o Presidente da República chamou Centeno a Belém, é porque está preocupado. Se Centeno recordou ao Primeiro-ministro que o seu lugar está sempre à disposição, é porque sentiu necessidade de o fazer. E se o Primeiro-ministro sentiu necessidade de reafirmar a confiança política no Ministro, é porque alguma coisa continua muito errada: quando é preciso segurar alguém, é porque esse alguém esteve - ou está - para cair.

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