Opinião

Não sejamos Trump!

A Marcha Mundial pelo Clima é a força da humanidade contra o desastre.

Há precisamente 150 anos, Marx escreveu que "a produção capitalista tende constantemente a exceder os limites que lhe são imanentes, mas só o consegue fazer utilizando meios que, de novo e em escala maior, recolocam perante si esses limites". A crise climática tornou-se um desafio maior ao capitalismo: a catástrofe ecológica é já uma ameaça sem precedentes sobre amplas áreas geográficas, resultando em destruição irreversível de territórios, extinção de espécies e êxodos humanos.

A economia predadora expandiu-se durante décadas como se a Terra pudesse sustentar indefinidamente a intensidade da exploração a que que tem sido submetida. A fase muito longa de crescimento do PIB global assentou na dependência do petróleo. Mas a libertação dos combustíveis fósseis como fonte energética é urgente e tem de ser antecipada.

O problema é que a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos veio recolocar o problema das alterações climáticas nos termos anteriores aos tímidos consensos estabelecidos no Acordo de Paris. Trump defende explicitamente o fracking e o recurso ao carvão. Ao mesmo tempo, autorizou infraestruturas como o oleoduto de Dakota ou o gasoduto Keystone XL, que tinham sido travados pela administração anterior. A maior potência do mundo nega o problema e ignora qualquer limite que a natureza imponha à ganância.

As mobilizações por justiça climática são portanto dos mais importantes sinais de esperança para a humanidade. São estes ativistas dos cinco continentes que hoje dão o sinal de alarme e apontam a transição energética e as alternativas globais capazes de alterar o modelo económico em nome da nossa sobrevivência.

Estão convocados para Lisboa (Terreiro do Paço), Porto (Aliados) e Aljezur (cujo mar territorial permanece ameaçado pelo consórcio Galp/ENI até final deste ano) os encontros portugueses da Marcha Mundial pelo Clima, marcada para a tarde deste sábado, 29 de abril. Entre os dinamizadores, estão as associações ambientalistas e centenas de ativistas contra a exploração de hidrocarbonetos em Portugal, a quem Portugal pode agradecer o mais eficaz esclarecimento público sobre importância das alterações climáticas. Terminar os contratos em vigor e proibir novas concessões no futuro, como o Bloco e o PAN recentemente propuseram no parlamento, são o primeiro exemplo internacional que Portugal deveria dar desde já.

Colocando em causa a sustentabilidade da nossa existência, a crise climática pode indicar ao capitalismo "o limite dos limites", para lá do que Marx podia prever. A luta será difícil e tem que ser vencida em tempo útil.

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