Opinião

Por que é que a polémica da TSU é incompreensível?

Costa prometeu o que não devia. Passos é contra o que já foi a favor. Bloco e PCP ganharam a arrogância do poder. O CDS está só a tentar ser invisível.

Se é daqueles que não compreende tanta polémica por causa da descida de 1,25% na TSU paga pelos patrões, não se preocupe, não é o único. Se também tem dificuldade em perceber porque é que 22 euros de aumento no Salário Mínimo Nacional dá para meses de discussão, relaxe. É, de facto, de difícil compreensão.

Comecemos pelo início. No permanente jogo de cintura que António Costa precisa de ter para conseguir governar mais um dia, mais uma semana, mais um mês, mais um ano, o Primeiro-ministro comprometeu-se com o Bloco de Esquerda a aumentar o salário mínimo, já este ano, para os 557 euros. Ou era assim, ou não havia Governo e, por isso, o acordo foi feito completamente à margem da Concertação Social. Sobre esse problema, António Costa pensaria depois.

Quando chegou à Concertação Social, o Primeiro-ministro usou a chamada lei da compensação. Se os patrões aceitassem a subida do salário mínimo, tal como estava negociada com o Bloco de Esquerda, o Governo baixava-lhes a Taxa Social Única em 1,25%. António Costa sabia que o PCP e o BE estavam contra, mas, sobre esse problema, pensaria depois.

O Bloco e o PCP podiam ter ficado satisfeitos com a subida do Salário Mínimo Nacional, cantar vitória e deixar seguir. Afinal, a principal conquista estava feita e a descida da Taxa Social Única não tem um impacto assim tão significativo nas contas públicas. Mas não. Há um eleitorado a preservar e a política também vive de aparências. Ajudar o patronato? Nunca. António Costa sabia disso, mas, sobre esse problema, pensaria depois.

Até porque esta posição do BE e do PCP tinha tudo para não ser um problema. Bastava que o PSD fosse coerente com o que defendeu no passado e António Costa conseguia o melhor de dois mundos: aumentar o Salário Mínimo Nacional e baixar a TSU aos patrões; manter a geringonça de pé e acenar ao país com um acordo na Concertação Social.

Mas no PSD há um líder que se chama Passos Coelho e isso faz toda a diferença. A discussão em torno da descida da TSU não faria cair o Governo de António Costa, mas provocaria seguramente algum desgaste. Com a posição que assumiu, a de votar ao lado do Bloco de Esquerda e do PCP contra a descida da TSU, Passos virou o foco da discussão para si próprio. E, assim, fica ele com o desgaste que devia ser do Governo e da maioria que o apoia.

É verdade que Passos Coelho defendeu uma descida da TSU num contexto e de uma forma totalmente diferente (bem pior, por sinal). E esse é o único argumento que o podia salvar. Mas Passos Coelho não vai por aí. Vai pelo lado mais comezinho da política e de quem nunca aceitou esta solução de Governo.

Por que é que esta polémica é tão incompreensível? Porque aumentar o Salário Mínimo Nacional devia ser um desígnio nacional. Porque a política é feita de compromissos. E porque quanto mais se alimentam estas polémicas, mais se afastam os eleitores dos eleitos.

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