Opinião

Rirmos de nós próprios

"Terá sido coincidência, mas foi sintomático que os atentados no Bataclan tenham decorrido num concerto dos Eagles of Death Metal, uma banda que é movida a autoironia, a passos de dança gingões, guitarras desabridas e asfaltadas a encarar o deserto que nós, europeus, desconhecemos."

"Roubaram-lhes o palco deles há três semanas. Nós gostaríamos de lhes oferecer o nosso hoje". As palavras de Bono, na noite de anteontem em Paris, quando devolvia os Eagles of Death Metal ao palco, a encerrar um concerto dos U2, faziam sentido. Contra a bárbarie, retomar o nosso modo de vida: os palcos, os concertos de rock"n"roll, o álcool partilhado por homens e mulheres. O hedonismo e a liberdade que nos diferenciam e, não devemos temer dizê-lo, que nos superiorizam. O rock"n"roll é, talvez, uma das conjugações mais precisas disso mesmo.

Recordo-me sempre que Tony Judt, uma vez, quando questionado sobre quais eram os principais ativos dos Estados Unidos da América, respondeu, com exatidão, "Thomas Jefferson, a New York Review of Books e Chuck Berry". A liberdade, a crítica, e o vigor da contracultura. Talvez tenha faltado um quarto elemento, algo que representasse a ironia, o humor. Não uma ironia qualquer, mas a que nos faz rir de nós próprios, das nossas certezas e das coisas de que gostamos.

Terá sido coincidência, mas foi sintomático que os atentados no Bataclan tenham decorrido num concerto dos Eagles of Death Metal, uma banda que é movida a autoironia, a passos de dança gingões, guitarras desabridas e asfaltadas a encarar o deserto que nós, europeus, desconhecemos. O Francisco Mendes da Silva, num texto notável escrito há semanas, sublinhava isso mesmo, "Os Eagles of Death Metal são outra loiça. São, aliás, de partir a loiça toda. Não escrevem as canções da nossa biografia, mas dizem tanto sobre nós, tanto sobre o nosso modo de vida. O seu rock irónico é ao mesmo tempo desconstrução e homenagem a uma tradição comum, a do rock clássico americano, feito de guitarras aditivadas, cabedal, referências sexuais desbragadas, barbas barrocas. Nas sociedades pós-modernas do Ocidente, brincamos com coisas sérias. É também isso que nos define, saber que a pilhéria é uma forma de celebrarmos com dignidade aquilo que amamos".

Regresso ao concerto de Paris dos U2 (uma banda que se leva a sério, muitas vezes demasiadamente a sério). Quando os EODM irromperam pelo palco e juntos com os irlandeses cantaram o "People Have the Power" (lá está, a versão da Patti Smith para a ideia magnífica, forjada pelo Thomas Jefferson algures na Virgínia, no século XVIII), percebeu-se bem o que foi, por momentos, suspenso no Bataclan e devolvido agora. Jesse Hughes avança pelo palco, de smoking impecavelmente branco, e logo arrisca um passo de dança gozão, enquanto entoa os primeiros versos:

"I was dreaming in my dreaming of an aspect bright and fair and my sleeping it was broken but my dream it lingered near in the form of shining valleys where the pure air recognized and my senses newly opened I awakened to the cry that the people / have the power to redeem / the work of fools upon the meek / the graces shower it's decreed / the people rule"

Que no meio da tragédia continuemos capazes de rir de nós próprios e, até, das coisas sérias que formam a nossa vida em conjunto. A ironia privada como condição para a liberdade e o poder soberano do povo. De todos os povos.

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