Trabalho

Ter mérito no trabalho conta muito pouco em Portugal

Estudo conclui que desempenhar um trabalho de forma competente tem muito pouca relevância nas promoções e na progressão profissional. Na prática, o mérito parece ser irrelevante em muitas empresas e no Estado.

Um estudo promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) concluiu que a chamada meritocracia é um fator sem grande relevância na evolução profissional dos portugueses. Ou seja, o recrutamento e as promoções baseadas em critérios universais de qualificações e desempenho continuam a ser uma 'miragem'.

O estudo de mais de 350 páginas, a que a TSF teve acesso, foi feito por oito investigadores e tem por título "Valores, Qualidade Institucional e Desenvolvimento em Portugal". Foi avaliado, a fundo, o funcionamento de seis entidades: Autoridade Tributária; EDP; ASAE; CTT; Bolsa de Valores; e Hospital de Santa Maria.

Uma das coordenadoras do trabalho, Margarida Marques, sublinha que uma das conclusões a que chegaram é que as instituições portuguesas, em regra, "funcionam bem" e têm "qualidades muito evidentes" como a "abertura a novos procedimentos e novas tecnologias".

Margarida Marques sublinha, contudo, que a maior falha é mesmo a "quase irrelevância do mérito", algo "estranho num país que pertence à União Europeia, moderno e virado para o futuro". A este nível, a EDP, a Bolsa de Valores e a Autoridade Tributária até ficam bem na fotografia, mas a ASAE, os CTT e o Hospital de Santa Maria recebem nota negativa.

A austeridade no Estado que congelou os recrutamentos, suspendeu os concursos públicos e travou as promoções são fatores relevantes nesta falta de importância do mérito, mas não são os únicos. Os investigadores defendem que "as preferências e conexões pessoais têm um papel fundamental em várias situações".

A falta de importância do mérito sai reforçada por um inquérito respondido por 1.346 funcionários das seis entidades estudadas. Apenas 16% acredita que, "se seguirem as regras e fizerem o seu trabalho de modo competente, as pessoas são promovidas". Uma percentagem que é maior na EDP e na Bolsa de Valores de Lisboa, mas que cai para 11,1% nos CTT e 0% (nenhuma resposta positiva) no Hospital de Santa Maria.

O estudo relata que nos CTT, por exemplo, antes da privatização, a "cor do governo", os "pequenos favores" e as "relações pessoais ou políticas" eram fatores importantes. Na ASAE muitas promoções também dependerão das "relações pessoais".

A situação mais problemática parece ser, contudo, o Hospital de Santa Maria, onde a meritocracia estará comprometida "pela presença de diretores influentes e praticamente inamovíveis", mas também pela "permeabilidade a lealdades ideológicas associadas a partidos políticos, lojas maçónicas e organizações católicas".

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