Praxes

Praxes de nojo, de castigo... e músicas que não podem estar neste título

Universidades e politécnicos têm praxes para todos os gostos. Mas umas são muito piores do que outras. Na Covilhã até o frio da Serra da Estrela tem de ser enfrentado pelos alunos.

Devemos falar de "praxe" (no singular) ou praxes (no plural)? O estudo encomendado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, cujas recomendações pode encontrar aqui, tentou responder a esta pergunta e encontrou uma "multiplicidade" de praxes.

Por exemplo, praxes de exercício físico e de punição; de medo e de susto; de nojo; mas também de troça, lúdicas, charadas ou jogos. Mais raras, segundo o estudo, mas que também existem, são as praxes pedagógicas ou com ações de solidariedade.

Um dos autores do estudo, João Teixeira Lopes, conta que encontraram, generalizadas, praxes que envolvem práticas de humilhação, com linguagem sexista, sexual, homofóbica, músicas "escandalosas" que apelam ao "libido dos estudantes e à sua pujança sexual", além do uso (e abuso) de bebidas alcoólicas, em atividades frequentemente patrocinadas por empresas do setor.

Num relatório com perto de 270 páginas, os exemplos são tantos que o difícil é escolher. Mas, resumindo várias das músicas que ouviram, os investigadores falam numa linguagem sexista que é "traço comum à maioria dos cânticos pelo país fora".

Citando o estudo: "As mulheres dos outros cursos são acusadas de serem "putas", pela forma como se vestem e por estarem sempre "dispostas"; a linguagem é claramente homofóbica, utilizando-se as expressões "enrabar", "levar no cu", "gays" e "paneleiros" como sinónimos de depreciação e de insultos aos alunos de outros cursos".

O "frio da serra estalava os ossos"

Nas praxes de nojo, "bastante comuns", os exemplos também são vários, mas o estudo diz que na Covilhã a ideia é "levada ao extremo".

Num dos rituais acompanhados pelos investigadores, num dia em que o "frio da serra estalava os ossos", "os "caloiros" foram levados para junto de uma fonte da Serra da Estrela onde tiveram de se sentar na água. De seguida, os alunos levam com um ovo na cabeça e polpa de tomate".

Na segunda fase do ritual, "os caloiros são deitados no chão e os veteranos despejam-lhes em cima garrafões cujo conteúdo é preparado durante todo o ano: uma mistura de leite estragado, ovos podres, óleo, farinha, leite de coco, vinagre, azeite, vinho, mostarda e ketchup estragados, pasta de dentes, enfim, tudo o que vier à cabeça do "veterano"".

Para veteranos e caloiros, "uma vez vencido este teste de repugnância, fica provada verdadeira adesão à praxe, ao curso e à universidade". A situação na Covilhã é uma das mais citadas no relatório que, como explica João Teixeira Lopes, revela que no Interior as praxes são levadas mais a sério.

Praxes de crime e castigo

Flexões ou agachamentos, mas também a permanência na posição "de quatro" são alguns dos exercícios de castigo identificados neste estudo sobre praxes. Mas os dois sítios "onde os rituais de punição e castigo são levados mais a sério são Coimbra e Covilhã".

Os investigadores dizem que em Coimbra "alguns praxistas organizam-se em trupes que a partir da meia-noite circulam a cidade à procura de caloiros que estejam na rua para os punir com castigos que podem ser severos".

Citando o código de praxe, o castigo será o "rapanço, se as crinas do animal [caloiro] tiverem mais de dois dedos de comprimento no caso dos Caloiros Nacionais e de unhas no caso dos Caloiros Estrangeiros, a aplicar por trupe".

Na Covilhã, estes grupos chamam-se "Melícias e esperam os caloiros à saída dos espaços onde estes estão a construir os carros da latada, levando-os para praxes em locais isolados que muitas vezes podem durar até de manhã".

As sanções expressamente previstas no Código de Praxe são "igualmente duras": "orelhadas com a mola; considerando-se uma orelhada a colocação da mola de madeira no lóbulo da orelha do mesmo modo que se coloca um brinco com a duração de 15 segundos, podendo o Forum Veteranum ou Forum Praxis estabelecer acertos e criar sanções extraordinárias".

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