Lisboa

Carlos Lopes já tem pavilhão novo para o aniversário

O Pavilhão Carlos Lopes renasce depois da ruína. A TSF já lá esteve e usou as memórias de António Ramalhete, um homem que se cansou de vencer neste pavilhão, para ver o que está diferente.

Na véspera da reabertura, as obras continuam. Ninguém diria que estará tudo pronto a tempo de coincidir com os 70 anos de Carlos Lopes, nascido a 18 de fevereiro.

Faltam horas. À chegada ao Parque Eduardo VII, deparamo-nos com um imenso estaleiro. Há carrinhas, camiões, gruas e guindastes. Há dezenas de empresas, operários por todo o lado. Há fios, ferramentas, cimento e tinta que nunca mais acaba. Percebe-se que nada vai abrandar até à inauguração: há holofotes para trabalhar toda a noite.

António Ramalhete fez vezes sem conta este caminho. Nos anos 70, para treinar e para jogar, chegava e saía como vencedor num edifício onde só entravam os melhores. É um dos cinco da chamada Equipa Maravilha que venceu tudo a jogar hóquei em patins. Campeonatos do Mundo, da Europa, Nacionais.

Mal chega, avança por entre o caos à procura do que lhe era mais familiar, o pavilhão de jogos. "Aqui vivi o dia mais feliz da minha vida: foi a primeira vez que vesti a camisola da Seleção Portuguesa, foi contra a Espanha". Logo na estreia do guarda-redes que havia de ser chamado o melhor do mundo, nuestros hermanos foram para casa derrotados por 1-0.

Ao primeiro relance pelo espaço, António fica desiludido: "Parece mais pequeno, menos grandioso..." A desilusão é porque não há bancadas, nem piso, nem balizas. Agora há só um espaço vazio onde uma grua ajuda a colocar as iluminações e decorrem os ensaios de uma exposição multimédia que há de estar aberta o público, gratuita, até meados de março. Depois presume-se que a utilização do espaço passe a ser paga. Não se sabe se haverá competições desportivas.

De volta à luz da entrada, António Ramalhete depressa começa a ver o lado bom. "Isto era uma zona de guerra, estava tudo podre, tudo esburacado... Agora está tudo refeito, está bonito, digno." Enchem o olho os painéis de azulejo. "Quando vínhamos treinar, de manhã, já havia sempre muita gente à porta. Adeptos para assistir ao treino e também muitos turistas". É uma das glórias do restauro, muitos azulejos foram roubados, mas acabaram por ser "recomprados" na Feira da Ladra e até a Polícia Judiciária veio entregar remessas.

Na transformação do espaço, o hall onde havia acesso aos camarotes e onde os jogadores se juntavam no intervalo está agora um museu. É pequeno o espaço para tanta medalha de Carlos Lopes. "Um grande amigo. E fazemos os dois 70 anos", pontua Ramalhete.

O museu Carlos Lopes continua do lado oposto. Dizem-nos que há de ter o equipamento e vídeos do maratonista em pleno esforço. Ainda só tem muita gente a limpar vidros e paredes. Era aqui, antigamente, o bar. "Já estávamos habituados a ganhar. Havia sempre garrafas de champanhe guardadas", e António Ramalhete abriu tantas que lhes perdeu a conta.

Cada recanto desencanta mil memórias. António Ramalhete também foi ao Pavilhão dos Desportos como convidado. "Nunca me filiei em nenhum partido, mas todos me convidavam. Por educação aceitava, mas sempre fui mais de esquerda, só entrei em comissões de honra do PS. Lembro-me de ver aqui um comício do PCP com o Álvaro Cunhal. Gostava de o ouvir falar, mas sempre me cansei dos comícios, nunca consegui ouvir nenhum até ao fim..."

Mesmo à saída há uma placa com letras douradas que o devolve às origens. António Ramalhete até muda o tom de voz, parece outra vez o miúdo de 19 anos a olhar para os seus heróis. "É isto, é isto". É uma placa evocativa dos primeiros campeões de hóquei em patins, a equipa de 1947. "Eles sim, foram os melhores do mundo. Porque foram os primeiros!" Estão todos juntos, outra vez, no Pavilhão.

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