Sociedade

"Não podemos fazer nada, nós não mandamos no fogo"

Em Figueiró dos Vinhos, muitos foram os que passaram a noite em sobressalto. Durante a tarde regaram o que puderam. A noite e a madrugada também não vão ser de descanso.

"É desolador, não consigo imaginar. A minha mãe não quer que eu vá lá, porque tem receio", conta Maria João. Em Avelar, esta mulher de 40 anos é apenas uma das pessoas que aguarda a reabertura do IC-8 para Figueiró dos Vinhos, onde a casa dos pais - que se manteve intacta - ficou cercada pelo fogo.

Ainda que sem prejuízos materiais, a habitação que em tempos foi construída no meio da vegetação está agora rodeada de cinza e madeira queimada, com o verde a dar lugar ao negro.

"Todos os nos há muitos incêndios, mas não me lembro de nada assim com esta dimensão e esta rapidez", diz à TSF Maria João, pouco antes de partirmos rumo a Figueiró dos Vinhos, onde o fumo, bastante denso, continua a preocupar muitos dos moradores.

"É muito complicado, é para esquecer", desabafa Fátima Simões que, com o marido doente, não deixou a casa onde vive - junto ao centro de Figueiró dos Vinhos - mesmo com o aproximar das chamas.

Ali ao lado, Batistina Silva lembra que foi a neta que a avisou da proximidade das chamas: "Estava em casa e ela disse-me: 'Avó vem que o fogo está a chegar'. Vim e comecei a regar tudo à volta e pronto, resta esperar, nós não podemos fazer nada, nós não mandamos no fogo", diz.

Na moradia junto ao campo de futebol, Luisete Lima e Francisco Hortelão, um casal de octogenários, também sentiram bem de perto o calor das chamas.

"Tem andado sempre aqui à volta, também ficou ali a 30 metros da casa do meu filho, mas o vento virou e o fogo foi para baixo. Foi sorte. A sorte de uns é o azar de outros", salienta Francisco, que aproveita a conversa para deixar um lamento pela falta de zelo nas limpezas de terrenos: "São terrenos de gente rica que não limpa nada, se cai ali uma fagulha arde tudo. A lei fala em limpeza a 50 metros das casas e ninguém cumpre a lei".

Um dos dos vizinhos também se insurge contra a falta de limpeza de terrenos privados e do Estado. Mas, com conhecimento da zona centro, Luís Baeta, aponta outra razão para o evoluir das chamas e para a dificuldade dos bombeiros em controlar os vários incêndios.

"Temos um problema grande na zona centro, que é o excesso de eucaliptos. Fala-se do pinhal de Leiria, mas não há pinhal. Os eucaliptos ajudam a propagar as chamas", defende, lembrando também os "difíceis acessos" e a "falta de bombeiros", que, admite, "não podem chegar a todo o lado".

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