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Ponte da Barca assinala centenário de aparições nunca reconhecidas pela Igreja

Santuário de Nossa Senhora da Paz fica no Barral e é local de culto de muitos peregrinos.

Dois dias antes das aparições de Fátima, em 1917, um rapaz de 10 anos, pastor e analfabeto, relatou ter visto um clarão no cimo de um monte, na aldeia do Barral, em Ponte da Barca, e reconhecido Nossa Senhora. O testemunho nunca foi confirmado pela Igreja que, no entanto, a partir dos anos 60 passou a apoiar o mistério, marcando presença nas celebrações.

Ficou conhecida pelas aparições de Nossa Senhora da Paz e, para assinalar o centenário, Luís Arezes dedicou-se a retratar o momento histórico no livro "Centenário das Aparições da Nossa Senhora da Paz no Barral", editado pelo município de Ponte da Barca.

A 10 e 11 de maio de 1917, Severino Alves, então com 10 anos, pastor da aldeia do Barral, em Ponte de Barca, regressa a casa relatando ter visto uma senhora coberta com um manto azul, de quem traz um recado: "Segundo o testemunho do miúdo, que manteve até ao fim da sua vida, a Senhora diz-lhe esta mensagem: 'Não te assustes, menino. Sou eu. Diz aos pastores do monte que rezem o terço, que os homens e as mulheres rezem o terço e cantem a Estrela do Céu e os pais e as mães que têm os filhos lá fora que rezem o terço, cantem a Estrela do Céu e se apeguem comigo, que hei de acudir ao Mundo e aplacar a guerra'", descreve Luís Arezes, autor do livro.

As primeiras multidões de devotos acontecem quando o relato chega aos jornais do Porto, a 9 de junho de 1917, muito antes das primeiras notícias sobre as aparições de Fátima. "O caminho seguido foi completamente diferente. No Barral, as pessoas, de forma muito zelosa, mantiveram-se fiéis e cumpriram as orientações do senhor arcebispo primaz de Braga, que recomendava contenção, reserva e que aguardassem as orientações das autoridades eclesiásticas, e nunca tomaram a liberdade de colocar, sequer, à veneração popular uma imagem", acrescenta Luís Arezes.

Só 50 anos depois foi autorizada a colocação de uma imagem no local das visões, após uma comunicação sobre as aparições do Barral levada ao Congresso Mariano Internacional, por ocasião do cinquentenário das aparições de Fátima, que desperta, de novo, o interesse e a curiosidade.

No local foi erguida uma capela, em 1969, e uma cripta, construída em cima do maior bloco de quartzo cristalizado que existe em Portugal, que todos os anos [na peregrinação que acontece no último domingo de maio] se enche de crentes nas aparições de Nossa Senhora da Paz, que, no entanto, nunca foram reconhecidas pela Igreja. "Oficialmente, a Igreja nunca declarou dignas de crédito mas a verdade é que ao longo destes 100 anos também nunca disse que não merecem qualquer crédito, muito pelo contrário. Os senhores bispos de Braga e, mais tarde, de Viana do Castelo presidiram aqui à peregrinação da Senhora da Paz e, portanto, temos, como comummente se diz, a aprovação tácita", explica Luís Arezes.

Severino Alves, o pastor que testemunhou as visões, morreu em 1985, aos 78 anos, após "uma vida muito discreta e humilde".

"Em miúdo, foi levado para Braga para o Seminário Maior, mais tarde foi para um colégio de jesuítas, em La Guardia, na Galiza, de onde fugiu. Tomou o rumo que todos os rapazes da época daquela altura seguiam, indo trabalhar para Lisboa, onde foi empregado de comércio numa drogaria. Casou e teve dois filhos. Os últimos anos de vida passou-os na terra Natal", descreveu o autor do livro.

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