Incêndios

"Sei lá como é que a gente se safa... é na miséria"

Na localidade de Barraca da Boavista, no Pedrogão Grande, tão cedo os habitantes não vão esquecer a noite em que o fogo ceifou vidas humanas e animais, mas também a esperança num futuro mais risonho.

Na freguesia de Vila Facaia fica o lugar de Barraca da Boavista. A escassos metros deste lugarejo do concelho de Pedrógão Grande passa Estrada Nacional 236-1 que, na madrugada de sábado para domingo, ficou coberta pelas chamas que encurralaram e vitimaram várias pessoas.

Nessa noite, não muito longe, Anabela Silva estava em casa com a filha. "Via-se que andava aí fogo, mas diziam que era para o lado do Pedrógão Grande. Quando olho para o lado estava tudo a arder aqui à volta, porque levantou-se muito vento, um vento forte e intenso. Não havia nada a fazer", conta, lamentando que, num momento de pânico, não houvesse "luz, nem água, nem telemóveis, nada funcionava".

Depois da luta para proteger a habitação, vem a avaliação dos prejuízos, que são muitos.

"O meu filho tinha uma exploração florestal que tinha aberto há pouco tempo. Ardeu o camião e ardeu tudo. Era a ferramenta de trabalho dele e do meu marido. Agora, não sei como vai ser a nossa vida. Eu estou desempregada, a minha filha tem necessidades especiais e eu não consigo arranjar trabalho", diz Anabela Silva, em declarações à TSF, acrescentando que também em casa houve danos além de veículos, estruturas e de um sótão que acabou por impedir a propagação das chamas para o interior da casa: "Perdi animais. Tenho por aí as minhas galinhas espalhadas, todas mortas".

Uma noite de verdadeiro sobressalto é também relatada pelo vizinho Eduardo Abreu: "Parecia fogo-de-artifício. E incendiou tudo. Cada um defendeu-se como podia".

Na Barraca da Boavista, onde, na rua principal, há ainda alguns veículos queimados à espera de serem removidos, as chamas mais fortes - que chegaram com a noite - roubaram os sonhos de um final de vida mais ou menos descansado para muitas pessoas.

Tal como Anabela Silva, também Eduardo, perdeu alguns animais para o fogo. "Tinha coelhos, galinhas e um palheiro de palha. gora não tenho nada para dar de comer os animais".

Aos 62 anos de idade, com uma pequena reforma por invalidez - e sem boa parte dos animais que criou durante anos -, Eduardo, teme agora pelo futuro e, às questões colocadas, acrescenta mais alguns pontos de interrogação".

"O que é que eu vou fazer agora? Tenho de parar com isso tudo. O que é que eu vou fazer agora? Nada. Sei lá como é que a gente se safa...É na miséria", diz Eduardo enquanto suspira, adiantando que também a mulher tem poucos recursos e uma profissão que muito dificilmente pode ser exercida nos terrenos em torno da localidade: "Trabalha no campo".

Nos próximos dias e nas semanas e meses seguintes, a cor negra que rodeia as casas deste lugar não vai tirar da memória a noite em que todos lutaram contra o fogo e aquilo que se perdeu nesse combate, mas, ainda assim, para Eduardo há uma certeza: a de que a vida é o bem mais preciso.

"Podemos dar graças a Deus. Morreu tanta gente, famílias inteiras e crianças. Ai...", conclui.

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