Óbito

Herberto Hélder - o Poeta Mistério e o "homem dos sete ofícios"

Herberto Hélder Luís Bernardes de Oliveira nasceu no Funchal, em 23 de novembro de 1930, numa família de origem judaica. Concluiu o curso liceal em Lisboa, para onde veio aos 16 anos com esse mesmo objetivo. Em 1948 entrou na Faculdade de Direito em Coimbra, mas logo no ano seguinte mudou de curso, transferindo-se para a Faculdade de Letras, onde se manteve durante três anos, a frequentar filologia românica, curso que não concluiu.

Regressado a Lisboa, teve o seu primeiro emprego, por pouco tempo, na Caixa Geral de Depósitos. Foi angariador de publicidade, mas em 1954 regressou à Madeira para exercer a profissão de meteorologista. Também esse novo emprego seria de pouca duração, pois logo no ano seguinte regressou a Lisboa, sobrevivendo na propaganda farmacêutica, e como redator de publicidade.

Vivendo com o mínimo de recursos, Herberto Hélder sentia-se realizado como um assíduo frequentador do Café Gelo, onde se associava a uma espécie de tertúlia informal ali "residente", constituída por nomes como António José Forte, Hélder Macedo, João Vieira, Mário Cesariny e Luiz Pacheco.

Aos 28 anos publicou "O Amor em Visita", o seu primeiro livro. Durante os três anos seguintes vagueou pela Europa, vivendo em França, Bélgica e Holanda. Sentiu a clandestinidade, nomeadamente em Antuérpia, onde sobreviveu como guia de marinheiros no circuito dos prostíbulos daquela cidade portuária. Mas no seu cardápio profissional, enquanto emigrante clandestino, constam outras profissões, tão estranhas como cortador de legumes numa casa de sopas, policopista, empacotador de aparas de papel para reciclagem, empregado de cervejaria, ou operário numa forja.

Em 1960 foi forçado a regressar a Portugal, prosseguindo a sua vida itinerante, agora como bibliotecário nas carrinhas da Fundação Gulbenkian, percorrendo vilas e aldeias da Beira Alta, Ribatejo e Baixo Alentejo. Como encarregado das bibliotecas itinerantes, Herberto Hélder aprofundou o gosto pela poesia, e publicou então os livros "A Colher na Boca", "Poemacto" e "Lugar". Entrou para a Emissora Nacional em 1963, como redator do noticiário internacional, mas permaneceu ali apenas cerca de um ano. Tempo bastante para publicar "Os Passos em Volta" e "A Máquina de Emaranhar Paisagens".

Após ter abandonado a Emissora Nacional, empregou-se nos serviços mecanográficos de uma fábrica de loiça, em 1964, envolvendo-se na organização da revista "Poesia Experimental". Em 1968, já funcionário da Radiotelevisão Portuguesa, envolveu-se na publicação de um livro sobre o Marquês de Sade, que o arrastou para um processo judicial, onde seria condenado, e despedido. De novo desempregado, voltou à publicidade, e mais tarde diretor numa editora. Nesse ano publicou quatro livros: "Apresentação do Rosto", suspenso pela censura; "O Bebedor Nocturno" e ainda "Kodak" e "Cinco Canções Lacunares".

Um peregrino do mundo

Se a década de sessenta foi intensamente vivida em Portugal, já a seguinte representou o regresso de Herberto Hélder às quatro partidas do mundo. Em 1970 viajou por Espanha, França, Bélgica, Holanda e Dinamarca, para no ano seguinte se lançar à conquista de Angola. Redator de uma revista, sofreu um grave desastre enquanto repórter de guerra, o que o atirou durante três meses para a cama do hospital. Mesmo assim, continuou a publicar, e nesse mesmo ano deu à estampa "Vocação Animal" e "Antropofagias". Recuperado, regressou a Lisboa em 1973, para logo partir para os Estados Unidos. Em 1975 circulou pela França e Inglaterra, mas por pouco tempo. De novo em Lisboa, a rádio e imprensa voltaram a abrir-lhe as portas, assegurando-lhe a subsistência.

Em 1976 envolveu-se na edição e organização da revista "Nova", cuja direção recusou por não se identificar com uma orientação editorial revolucionária, bem ao jeito da atmosfera política que então se vivia.

A personalidade instável de Herberto Hélder reflete-se na sua obra literária, sobretudo na poética, que nos remete quase sempre para «um tempo sem datas e para uma topografia não localizável, obrigando-nos, de maneira radical, a esquecer a longa história de rivalidades e conivências, de aproximações e diferenças entre as palavras e o mundo real», no dizer de um texto biográfico do CITI, da Universidade Nova de Lisboa.

Retrato desta realidade pessoal é uma declaração que em 1994, numa entrevista ao "Expresso", fez de si mesmo: «Tenho de inventar a minha vida verdadeira», disse. Ano em que, aliás, lhe foi atribuído o Prémio Pessoa, e que recusou receber. De então para cá, retirou-se de todas as atividades profissionais, vivendo em total e absoluto anonimato. Herberto Hélder casou duas vezes, sendo pai de Gisela Oliveira e do jornalista Daniel Oliveira.

"Ofício Cantante"

«Não sei como dizer-te que a minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e casta.

Não sei o que dizer, especialmente quando os teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima,

- eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram».

Assírio & Alvim, 2009