Hungria

Rikardo, o bebé que fez "nascer" uma polémica racista na Hungria

Rikardo Racz nasceu um minuto depois da meia-noite. Foi o primeiro bebé de 2015, na Hungria. Recém-nascido foi notícia e agora volta a ser porque o seu nascimento despertou uma onda de comentários racistas. Tudo porque Rikardo é cigano.

A fotografia de Peter e Sylvia, pais de Rikardo, com o bebé ao colo foi destacada em muitos jornais. Tinham ao colo o bebé do ano, que nascera quando passava um minuto da entrada do novo ano.

O acontecimento levou Elod Novak, vice-líder do partido de extrema-direita Jobbik, no Facebook, essa imagem ao lado de uma fotografia da sua própria família.

À fotografia, o político juntou um comentário explicando que Rikardo é o terceiro filho de uma mãe cigana de 23 anos ao qual acrescentou as palavras que deram origem uma polémica racista. «O número de húngaros não está apenas a cair de forma vertiginosa, como em breve seremos uma minoria no nosso próprio país. Quando é que vai chegar o dia em que eles vão decidir mudar o nome da Hungria? E quando é que finalmente enfrentaremos o maior problema do país?».

O comentário provocou uma "avalanche", tanto de condenação como de apoio, e refletiu o racismo que existe na sociedade húngara.

«Eles (ciganos) estão procriar-se como ratos, como parasitas», comentaram os simpatizantes do Jobbik. Noutros comentários também há quem repudie estas observações.

Com tão poucos dias de vida Rikardo tornou-se o cigano mais famoso da Hungria. A BBC conversou com os seus pais, em Mako, na primeira entrevista que concedem após o sucedido.

Peter, o pai, conta que a família é a única de origem cigana que mora na pequena aldeia de Mako. Diz que se dá bem com toda a gente e que nunca tinha vivido qualquer episódio racista até ao nascimento deste filho. O pai de Rikardo diz estar plenamente integrado. Faz trabalhos comunitários e está tirar a carta de condução para trabalhar com tratores e as duas filhas mais velhas estão no jardim da infância.

«Só quero uma vida familiar tranquila. Com minha família perto de mim. Sem a atenção da imprensa», referiu à BBC.

A mãe, no mesmo tom, afirma que «as pessoas não deveriam ser estigmatizadas a partir do momento em que nascem».

«Quando meu filho tiver 18 anos, ele decidirá se se identifica ou não como cigano. Ele não tem culpa de ter vindo ao mundo pouco depois da meia-noite e ter tanto destaque. Talvez houvesse racismo antes disto, mas nós não sentíamos. Todos são gentis connosco aqui».

Peter alega que as diferenças sublinhadas no debate social que se instalou resumem-se «à cor da nossa pele». «Temos os mesmos corações, sangue e almas. Rikardo vai para o jardim da infância e depois para a escola e aprenderá um ofício, como qualquer criança».

Os dois pais terminam a entrevista. Dizem que estão cheios de pressa porque têm de ir buscar as outras duas filhas à escola e depois têm de ir para casa. Recusam boleia dos jornalistas. Preferem ir de autocarro, como uma outra família qualquer.

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