Miguel Poiares Maduro

Miguel Poiares Maduro

O governador e o Governo

Na última semana o país dividiu-se a tomar partido entre o ex-governador do Banco de Portugal e o atual primeiro-ministro. No livro de memórias do Governador são retratados vários episódios em que, alegadamente, o primeiro-ministro terá interferido com as competências do Banco de Portugal e, mesmo, pressionado o governador. O primeiro-ministro já desmentiu alguns desses factos. Não estou em condições de saber quem fala a verdade e, por isso mesmo, não me vou pronunciar sobre as alegações em concreto.

Miguel Poiares Maduro

A austeridade de Costa

Este é um orçamento paradoxal: promete distribuir muito dinheiro e assume como grande mérito a redução da dívida e do défice. A razão é a diferença entre a inflação e a proteção de rendimentos. Por muito que o Primeiro Ministro diga o contrário, voltámos a ter austeridade. Se os salários e pensões aumentam menos que a inflação, há um corte do rendimento real que pode ser maior e mais permanente que um corte nominal. Quando o Primeiro Ministro insiste que não há corte pois não se recebe um montante menor de salário ou pensão faz um truque semelhante ao daquelas empresas que não aumentam o preço de um produto, mas diminuem a quantidade no pacote. O preço é o mesmo, mas recebemos menos.

Miguel Poiares Maduro

O Presidente da porta ao lado

O Presidente da República escandalizou o país com uma aparente desvalorização do número de casos de abuso sexual detetados pela Comissão Independente nomeada pela conferência episcopal portuguesa para investigar os abusos sexuais na Igreja. Marcelo disse que não lhe pareciam assim tantos. Veio depois explicar-se, dizendo que não tinha pretendido desvalorizar a gravidade da situação e que se referia antes a que lhe pareciam poucas denúncias face ao número provável de casos. Em vez de assumir o erro tentou convencer as pessoas de que não o tinham compreendido. Isso acabou por ser o pior: pareceu usar a sua inteligência para tentar fugir à responsabilidade do erro que que cometeu.

Miguel Poiares Maduro

Afinal há austeridade boa e austeridade má

A austeridade aí está. Assume a forma mais cega. Chama-se inflação. Corta todos os rendimentos por igual e, se nada for feito, de forma permanente. O governo nega. Diz que não há austeridade porque não corta os salários nominais. Mas pensem no seguinte exemplo. Imaginem que vos prometo um salário de 1000 euros e arrendar-vos uma casa por 600. Imaginem também que o ano seguinte vos aumento o salário em 50 euros mas, ao mesmo tempo, também aumento o custo de arrendamento em duzentos. Na prática estou a cortar-vos o salário em 150 euros. Mais do que se vos cortasse o salário nominal em 50 sem aumentar o custo da renda... Quando o primeiro-ministro diz no parlamento que não há cortes, porque isso só acontece quando se diminui o salário nominal, deve achar que o dinheiro vale pelo papel em que se imprime e não por aquilo que se pode comprar com ele. Ou então está apenas a procurar enganar-nos.

Miguel Poiares Maduro

Quero mais e menos impostos

Diferenças de opinião são normais dentro de um governo. Os governos são órgãos colegiais e logo plurais. São é arbitradas dentro do governo. É raro que se tornem públicas. Não é este o caso da recente controvérsia que opôs o ministro da Economia, defensor de uma redução dos impostos sobre as empresas, a outros membros do governo (em particular das Finanças). Não é a primeira vez que o ministro exprime uma opinião em matéria fiscal e é depois corrigido. A outra, curiosamente, foi no sentido oposto: quando suscitou a possibilidade de criar um imposto sobre os lucros extraordinários que algumas empresas do sector energético estão a ter.

Miguel Poiares Maduro

Futebol – Uma proposta

O futebol voltou a trazer-nos maus exemplos. Casos recentes, envolvendo crianças adeptos de clubes visitantes, vítimas da raiva de adeptos locais voltaram a chamar a atenção para o clima que se vive, com triste frequência, nos estádios de futebol. Para quem, como eu, é um adepto de futebol com presencia assídua nos estádios isto tem tanto de triste como de pouco surpreendente. São quase mais os cânticos ofensivos contra as equipas visitantes do que os cânticos de apoio à equipa da casa. São mais as agressões verbais contra árbitros e atletas, incluindo os da casa, do que os festejos com os golos ou entusiasmo com as jogadas mais belas.

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O que é informar

Há dias circulava um vídeo de um comentador (ou analista) televisivo militar que dizia que tinha uma fonte que colocava em causa a autenticidade do ataque russo ao porto de Odessa no dia seguinte ao acordo entre a Ucrânia e a Rússia sobre o comércio dos cereais que se encontram nesse porto. Na sequência dessa revelação o jornalista pergunta-lhe, não sobre a credibilidade dessa informação, mas sim sobre a gravidade que essa informação comportava: que significado podia ter se se tivesse tratado afinal de uma ação (ou invenção) ucraniana.