Raul M. Braga Pires

Raul M. Braga Pires

Doha a quem "Doher" – Portugal irá para a lista negra do Qatar

O ajuste de contas diplomático será feito a partir de 19 de Dezembro, dia seguinte à entrega da Taça aos Campeões Mundiais. Estas tensões diplomáticas não são exclusivas de Portugal, por via das declarações dos nossos dirigentes políticos, com o Presidente Rebelo de Sousa à cabeça e a falar cá e lá também. Dinamarca, Alemanha e França também estarão na mira destes árabes, que têm nos arquivos um recente pedido de ajuda energética francês e um pedido português de ajuda para a compra da dívida pública nacional, nos idos tempos da Troika. A "bomba atómica qatari" são os hidrocarbonetos, em tempos de procura de alternativas ao gás russo para a Europa. O debate não é simples e passa sobretudo por uma barganha entre continuarmos a tomar banho com água quente e Direitos Humanos. Não se pode ter tudo, mas poderíamos ter políticos que começassem por se preocupar com os Direitos Humanos em Portugal os quais começam no direito ao cidadão nacional a ter um salário digno das funções que exerce, primeira forma de valorização do indivíduo e de um sentimento de pertença a uma sociedade justa. Tomar um duche com água fria e ganhar 700 euros por mês é uma temperatura, ganhar o dobro aquece a alma e a temperatura aumenta, apesar de a água ser a mesma! O que não compreendo é este comportamento colectivo da cúpula do nosso Poder, sem estarmos em campanha eleitoral. Tudo bem espremido, o que é que o trabalhador explorado no Qatar ganhou? Viu os seus ordenados em atraso pagos? Viu finalmente o seu próprio passaporte no bolso e a possibilidade de romper com o empregador e sair do país quando quiser? O assunto ganhou visibilidade, é verdade, mas a visibilidade é sempre capitalizada pelos grandes enquanto continuam empoleirados em cima dos pequenos, para conseguirem aparecer na fotografia. Esta visibilidade, importante e de certa forma inevitável, não resolverá o problema dos Direitos Humanos no Qatar e na região, tendo até os ingredientes necessários para os agravar, já que as câmeras e os microfones têm data de saída para breve e onde não há imagem, não há notícia!

Raul M. Braga Pires

Catar 2022 e COP27: Os pontos nos ís e os traços nos tês

Sejamos claros, o taco, o cacau, o dinheiro está todo no Golfo Pérsico e as economias ocidentais estão nas mãos, ou dos árabes ou dos chineses. Um dos sinais evidentes dessa realidade, do qual já ninguém se lembra, remonta a Fevereiro passado, quando a sonda "Amal" (Esperança) dos Emirados Árabes Unidos amartou em Marte, numa semana de tráfego intenso no planeta vermelho, já que 24 horas depois amartou também a "Tianwen" da China e uns dias depois a "Perseverança" americana. Esta corrida a Marte, bem como este pódio, definem a posição de força de cada um destes países na Terra, com base no fundo de maneio disponível para este tipo de investimento e bluff também. Não esquecer que foi o bluff americano sobre a "guerra das estrelas", que levou o bem-intencionado Gorbachev a reconhecer que não tinha um saco azul que fosse, para alinhar nesta competição e atirou a toalha ao chão assumindo aquilo que os russos por norma ainda hoje nunca assumem e que é o erro. O erro no sentido em que o modelo económico escolhido falhou, não vingara e foram claramente ultrapassados pelos americanos no plano do imaginário, do que ainda estava por construir.

Raul M. Braga Pires

Turquia investe na I Cimeira da Organização dos Estados Túrquicos. Porque será?

A Turquia de Erdogan Primeiro-Ministro (2003-14), tinha como Ministro dos Negócios Estrangeiros, um Professor de História, Ahmet Davutoglu (2009-14), que um dia explicou à Jazeera a perspectiva turca sobre a sua diplomacia, em plena Primavera Árabe, quando parecia afastar-se da prioridade "integrar a União Europeia", parecendo também estar a criar um novo olhar sobre o Oriente e o Mediterrâneo. Davutoglu disse que a perspectiva turca é a mesma de "Janus", com um olhar a Ocidente e outro a Oriente, ao mesmo tempo que fazia uma águia bicéfala com as duas mãos, que não deixava dúvidas sobre o que queria dizer. Depois disse também que tudo tem o seu timing e aquele era o de acompanhar as mudanças que a Primavera Árabe estava a trazer e tentar moldar o possível de acordo com os interesses e visão turcas.

Raul M. Braga Pires

O Papa nas "Berlengas da Arábia Saudita"!

O Papa Francisco iniciou quinta-feira 3, uma visita de 4 dias ao Bahrein. Caso não saiba, uma simples consulta num mapa confirmam, o Bahrein da Praça da Pérola, que no início da Primavera Árabe tentou a sorte em tornar-se numa Praça Tahrir à cairota, é uma espécie de "Berlengas da Arábia Saudita", já que se trata de uma ilha muito próxima fisicamente da Península Arábica. Apesar de se tratar de uma Monarquia Constitucional independente, este reino de maioria xiita encontra-se bastante condicionado pela vizinha Casa de Saud, esmagadoramente sunita, a qual se arrepia cada vez que imagina uma potencial revolta na ilha apoiada por Teerão. Por isso mesmo em 2011 o Conselho de Cooperação do Golfo teve oportunidade de ter a sua primeira acção militar conjunta e coordenada, permitindo à Arábia Saudita uma "intervenção militar especial", que transformou a rotunda da Praça da Pérola num cruzamento, já que a bem da estabilidade regional os sauditas varreram tudo o que havia para varrer, anulando qualquer tipo de iniciativa posterior.

Raul M. Braga Pires

Umaro Sissoco Embaló, primeiro Presidente africano com Putin e Zelensky

Umaro Sissoco Embaló (USE) é o Presidente (PR) da Guiné-Bissau (GB), mas também o PR em exercício da CEDEAO, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental. Foi aliás mais nesta qualidade que visitou Moscovo (25 Out.) e Kiev (27 Out.). Esta visita complementa a do PR do Senegal, Macky Sall, também PR em exercício da União Africana, efectuada a Putin em Junho último. Presidindo a dois países da CEDEAO, Embaló e Sall, vizinhos fronteiriços, têm demonstrado uma sintonia inevitável nesta sub-região africana, já antes destes tempos de guerra.

Raul M. Braga Pires

A Turquia do "véu constitucional" e uma "Argélia de ferro"!

O Presidente (PR) Erdogan sabe carregar nos botões certos, nos momentos certos. Não fosse isso, este "homem feito por si próprio", sobre o qual há uma nebulosa relativamente à sua formação académica, nunca teria chegado a PR, nem tão pouco ao patamar de "Sultão incontestado". Passando ao concreto, a Turquia terá de novo eleições presidenciais em Setembro de 2023 e o tema "véu islâmico", que no vizinho Irão incendeia a sociedade civil, na Turquia torna-se assunto consensual, não em tirá-lo da cabeça, mas em pô-lo com dignidade constitucional. Perante os avanços e campanha do líder da oposição Kemal Kiliçdaroglu, do Partido Republicano do Povo, mais-que-provável candidato pelo seu Partido neste desafio presidencial, o mesmo propôs legislar-se sobre o direito da mulher a usar o véu, eliminando assim qualquer possibilidade futura de um "reviralho" político-social, que coloque em causa este direito, por muito torto que tudo isto nos pareça aos nossos olhos. Um Partido Republicano, em princípio estará nos antípodas ideológico de um Partido Islamista!

Raul M. Braga Pires

Turquia e Israel a todo o gás e Marrocos nuclear!

A semana que ontem terminou viu avanços interessantes nos bastidores da guerra na Ucrânia, a qual tem servido de catalisador para o estabelecimento de múltiplos acordos entre partes desavindas, promovendo assim e desta forma enviesada a paz e a estabilidade. Não acredita? Pois Israel e Líbano, oficialmente em guerra, são disso prova. A 11 de Outubro foi assinado um Acordo de Delimitação de Fronteiras Marítimas (ADFM) entre estes países vizinhos, cuja convivência antagónica em muito relembra o Portugal/Castela do "nem bom vento nem bom casamento"! Este precedente, de um acordo político com ganhos económicos entre inimigos declarados, deverá ser valorizado internacionalmente enquanto exemplo de que o "acordar em desacordar" numa escala micro, pode terminar em acordo caso a conjuntura macro assim o determine. Foi exactamente o que aconteceu entre Israel e Líbano, por via das reservas de gás "offshore" no Mediterrâneo Oriental. O imperativo em mantermos a velocidade de cruzeiro da indústria, da economia e os níveis de conforto de uma maioria que não abdica de escola, natação e um bom bife com batatas fritas para os filhos, obrigou a este entendimento entre soberanias desavindas. Ou seja, este imperativo obriga à procura de fontes alternativas ao gás russo, para que a Europa continue a ser a Europa do conforto, em que sempre vivemos e a qual nunca questionámos.

Raul M. Braga Pires

Irão e Burkina: As não novidades!

No Irão a senda da contestação continua, na sequência da morte de Mahsa Amini, a iraniana cujo lenço torto na cabeça descambou numa morte duvidosa, em consequência da violência com que se imagina sejam tratados/as todos/as que entrem em esquadras de polícia em regimes totalitários. A intensidade e consistência destas manifestações diárias, incluindo gritos de ordem "vai-te embora" ao Presidente, aquando da cerimónia de início do Ano Lectivo, Sábado 8, na Universidade de Teerão, levam já os especialistas no país em considerarem este momento como uma "mini-revolução"! Não se pode considerar uma novidade, já que a cada 2 anos tem-se registado no últimos 10 anos, este pico de contestação sazonal, por alguém que é acusado publicamente pelo vizinho de adultério, por não ter cumprido o jejum na integra, pela realização de eleições, tem sempre havido este movimento contestatário e que no fim tem sido sempre abafado.

Raul M. Braga Pires

Afectos com Letras ONGD ganha Prémio Associativismo Lusófono 2022

Decorreu no Casino Estoril neste Primeiro de Outubro a VI Edição da Gala Prémios da Lusofonia. Na Categoria Associativismo, o prémio foi merecidamente para a Afectos com Letras, ONGD cujo foco recai sobre a Guiné-Bissau, sobretudo na promoção de construção de escolas e criação de bibliotecas neste país irmão. Animado por Joana Benzinho, conhecida assessora parlamentar e chefe de gabinete de um eurodeputado, é desta forma que esta "cidadã-voluntária" encontra a felicidade, com um número invejável de realizações realizadas, de capítulos concluídos deste livro de afectos com a Guiné-Bissau que começou a ser escrito em 2009. Seis bibliotecas (acervo total 12 mil livros), quatro escolas, toneladas de medicamentos, paletes de ajuda humanitária e muitas muitas descascadoras de arroz para empoderar as meninas. O "fanado", a excisão, também é uma das guerras de Joana Benzinho, cujo programa de actividades da Afectos com Letras contempla e apoia campanhas de esclarecimento contra esta prática. Neste capítulo, fruto de uma acção prioritária e mobilização conjunta de todos os/as guineenses, o fenómeno da excisão, uma prática tradicional hoje considerada nefasta, tem diminuído em número considerável, sendo este um sucesso também da Afectos com Letras. Recorro à página Facebook de Joana Benzinho para lhe captar "um directo" pós-prémio:

Raul M. Braga Pires

O Irão já não é Persa!

Sazonalmente, em média a cada dois anos, o actual Irão das virtudes e dos bons costumes volta aos noticiários por razões que no limite, nos confortam pelo facto de sermos portugueses e de vivermos no país mais livre do Mundo (o que me obriga a abrir aqui este "pequeno parêntesis" em jeito de tributo àqueles/as que conheço e que se encontram na prisão por uma caricatura ou uma simples linha publicada nas respectivas redes sociais. Piadas que se transformam em pesadelos, por terras onde rir também é pecado. Uma vez, no lóbi de um hotel no Cairo, a recepcionista veio ter com o grupo de portugueses onde me encontrava inserido, para nos pedir que "ríssemos à vontade, mas baixinho"! Conseguem imaginar as nossas caras e a gargalhada subsequente ainda mais barulhenta? E a cara da zelosa recepcionista quando percebeu que com "tugas" não iria a lado nenhum? Depois ainda há as outras e os outros que com cara mais fechada, sem risos, lutam contra as incongruências dos códigos civis e penais que estabelecem legalmente as diferenças entre sexos, nas liberdades, nas oportunidades, nas heranças e nas clausulas de salvaguarda que protegem sempre o violador colocando o ónus na violada, pela forma como se veste, como anda do verbo andar e como "anda do verbo acompanhar"! O meu respeito a todos/as aqueles e aquelas que se disponibilizaram a "queimar as próprias asas" para os outros poderem voar mais alto).