Arte

"Gravidade". Um batalhão de cimento para lembrar as vítimas da Primeira Guerra

Esta terça-feira inaugura no Museu Militar "Gravidade" - uma instalação de José Teixeira. A TSF acompanhou o processo de criação do escultor.

É a sétima exposição de um projeto de arte contemporânea que começou no ano passado para assinalar o centenário da Primeira Grande Guerra. "Gravidade" é o nome desta instalação de José Teixeira, um jogo que o escultor faz entre o que é grave, sério e a gravidade que nos prende ao chão.

Estima-se que cerca de cem mil soldados portugueses tenham participado na I Guerra Mundial. Morreram mais de 7700. José Teixeira decidiu representar uma centésima parte dessas mortes a partir dos pés - 77 pares de pés.

No atelier, enquanto molda os pés da repórter, José Teixeira explica o processo desde que recebeu o desafio de integrar "Evocação", um projeto de arte contemporânea que arrancou no ano passado, com curadoria de Ilídio Salteiro, numa parceria entre o Museu Militar e a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

A ideia de representar os soldados portugueses mortos durante a I Guerra Mundial surgiu durante a investigação, quando descobriu que os militares passavam muito tempo com os pés dentro de água, nas trincheiras.

"O pé tem algo de singular em termos do processo de identificação de cada um", explica, "percebi que havia depois um conjunto de analogias que eu podia estabelecer desde logo com um conjunto de expressões que são do senso comum, mas que traduzem bem aquilo que é o sentido de pertença a este planeta que habitamos: "põe os pés no chão", "assenta". Uma espécie de chamada à realidade. E esse sentido metafórico é simultaneamente o estar presente, o estar vivo, poder passar por cá, poder deixar uma marca, uma pegada e também de sentido de pertença ao lugar".

Decidiu fazer uma representação real de pés e utilizou o cimento, "uma marca do século XX", relacionado com a construção dos bunkers e com o esforço de guerra.

Convidou 77 pessoas, entre amigos e conhecidos, para participar. A todos pediu que subissem a uma mesa e iniciou uma espécie de ritual: contornou cada pé com um lápis numa folha de papel para conseguir a posição natural de cada participante; aplicou gaze molhada com gesso em cada pé; criou o molde e fechou-o; preencheu-o com cimento.

Os pés, todos com um número atribuído, vão assumir uma posição própria no Museu Militar. "Era importante manter esse nexo, estarem todos presentes no mesmo conjunto, criarem uma espécie de floresta, mas eles são simultaneamente individualizados. Cada um tem um espaço vital de 50 centímetros - o seu espaço próprio, individual, mas que depois coabita com os restantes".

São 77 pares de pés. Uma centésima parte de quem não voltou de uma guerra há 100 anos, mas também de quem continua a lutar.

No texto que escreveu sobre esta exposição, que estará na folha de sala, José Teixeira explica "a evocação dos que morreram há cem anos serve para lembrar, no presente, os milhares de migrantes, os refugiados, oriundos de zonas de conflito bélico, as crianças soldados recrutadas por grupos extremistas e, simultaneamente, para celebrar a vida simbolicamente representada nos setenta e sete participantes que comigo colaboraram na elaboração deste trabalho".

São 77 pares de pés. Um contingente, um batalhão de cimento que espera e impressiona.

"Gravidade", a exposição de José Teixeira, pode ser visitada até 25 de janeiro no Museu Militar de Lisboa.