Júlio pinta os mais velhos com aguarela. Agora, há um prémio internacional à vista

Chama-se Júlio Jorge e utiliza aguarelas para retratar os velhos da aldeia alentejana, onde os pais cresceram. São retratos que já chegaram aos Estados Unidos.

Um dos cerca de 60 retratos de velhos, pintado pelo português Júlio Jorge, foi selecionado para a exposição anual da The American Watercolour Society . E antes mesmo de a exposição encerrar, no final deste mês, em Nova Iorque, o retrato já está vendido.

"Não olhamos para os nossos idosos, deixamo-los abandonados, tristes e solitários", lamenta o artista, à conversa com a TSF. Júlio Jorge obriga o público a olhá-los de frente: rostos do desamparo na terceira idade, esboços da desertificação do interior alentejano. À superfície das suas rugas, emergem as sombras e a luz, impressas numa paisagem nova onde só os velhos têm lugar.

"Eu nasci e vivo no meio rural. O interior do país - não só onde vivo, mas em todas as zonas - está a ficar desertificado. Os mais jovens não têm oportunidades de trabalho cá e têm de procurar outras paragens", denota Júlio Jorge.

A aldeia onde cresceu, em pleno meio rural do Alentejo, é um cenário de aguarela, técnica difícil de quem está habituado às adversidades da terra. No Almoço TSF, Júlio Jorge admitiu que seria mais fácil fazer os retratos com óleo, mas foi com a aguarela que sempre trabalhou, e assim que vai continuar.

Este ano, o alentejano voltou a escolher um dos retratos dos velhos para se candidatar à exposição, a maior de aguarelas, que ocorre todos os anos em Nova Iorque. No ano passado, um outro retrato foi distinguido numa exposição em Los Angeles.

A arte que espelha a decadência dos corpos continua a trazer algo inovador ao mundo. Júlio Jorge, entrevistado antes de entrar no avião, a caminhos dos Estados Unidos, para estar presente na exposição, disse à TSF que os retratos dos velhos são uma forma de tentar impedir o desaparecimento da aldeia dos pais. Os mais velhos são, agora, mais de 80 por cento da população da aldeia.

"A aldeia está a desaparecer. Daqui a 10 anos, ou não existe, ou tem meia dúzia de pessoas. Esta é a minha maneira de gritar a minha revolta por ver o interior do país a ficar desertificado", remata o pintor que imortaliza os rostos antes de eles irem desaparecendo.

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