Arte

Será o artista do futuro um robô?

Leonel Moura é pioneiro no cruzamento da arte com a robótica e defende que "o grande artista do futuro não é humano". O assunto está, este sábado, em debate no Encontro da Fundação Francisco Manuel dos Santos, em Lisboa.

Uma tela em branco e quatro robôs que parecem carros telecomandados com canetas. É este o ponto de partida para uma pintura de Leonel Moura (em rigor, dos seus robôs) como aquelas que estiveram em exposição no Grand Palais, em Paris.

É ou não arte? O artista português não tem dúvidas. "Neste meu trabalho há dois artistas: um sou eu e outro é um robô. Cada um faz uma coisa um bocadinho diferente. Eu, como artista humano, com o meu trabalho, estou a questionar o próprio conceito de arte", começa por detalhar Leonel Moura à TSF, acrescentando que está seguir a evolução da história da arte a partir do momento em que a arte se começou a questionar a si própria.

"Do ponto de vista do robô, um robô com capacidade para fazer uma coisa original, aí o interesse é de outro tipo. Abre caminho ou, pelo menos, questiona a possibilidade de as máquinas se tornarem autónomas e evoluírem por si próprias", explica o artista português que, em 2009, foi convidado pela Comissão Europeia para ser embaixador do Ano Europeu da Criatividade e Inovação.

Os mais céticos levantam bastantes questões acerca destas máquinas artistas. Onde ficam as vivências, o empirismo, o pensamento ou as emoções?

Com quase 20 anos de dedicação ao cruzamento da arte com a robótica, Leonel Moura já maturou o assunto. "A emoção na arte não está na pessoa que cria o objeto de arte, o artista pode não ter emoção nenhuma ao fazer uma obra de arte. A emoção está no espetador, o espetador é que fica ou não emocionado com uma obra de arte", começa por responder. "As pessoas emocionam-se a ver os meus robôs, a vê-los a pintar e, inclusive, as pinturas. As pinturas são muito bonitas e as pessoas gostam, outras não gostam. Mas aqui a componente emocional está no espetador", sublinha.

Arrumando a questão da emoção, onde ficam as vivências do artista que consciente ou inconscientemente são retratadas nas peças? Aí, sendo máquinas, não têm vivências. Ainda assim, Leonel Moura explica que estes robôs que criou são máquinas criativas e que a partir de uma tela em branco conseguem fazer uma pintura abstrata.

"Não se baseia tanto nessas ideias gerais sobre a arte, mas nos princípios criativos da natureza", nota. "O meu modelo de inteligência e de criatividade não é sequer humano, é baseado no comportamento das formigas. Estes meus robôs são criativos, não porque tenham conceitos sobre o que é arte ou emoções... Nada disso! Seguem é um processo criativo de base quase biológica, aí é que é extremamente interessante. Sendo máquinas, são robôs que, em certa medida, também têm ali muita relação com a própria vida", diz Leonel Moura à TSF.

O artista do futuro

Não, não vai ser humano. É essa a perspetiva já há muito defendida por Leonel Moura e que tem tudo para gerar polémica. "O grande artista do futuro não será humano. E porquê? Nós, artistas humanos, temos uma história e cada artista acrescenta mais um bocadinho a essa história - é o meu caso com os robôs", afirma. "Temos dificuldade em sair dessa referência e as máquinas quando evoluírem muito não têm essa história, essa história não lhes diz nada. Portanto, vão criar coisas absolutamente surpreendentes", prevê o artista, acrescentando que, nesta altura, já são produzidas coisas fascinantes.

"Estou mesmo convencido que quer nas artes visuais, quer na música, as máquinas inteligentes vão-nos surpreender. E nós vamos adorar!", conta.

Reconhecendo que o futuro da sociedade e das máquinas em conjunto é algo complexo e até preocupante, Leonel Moura mantém-se otimista em relação à convivência com os robôs. "É uma época bastante fascinante, vamos lá ver no que é que dá!".

Será a arte o último reduto do humanismo?

A pergunta dá nome ao painel onde o assunto vai ser discutido, este sábado, no Encontro da Fundação Francisco Manuel dos Santos . Leonel Moura é um dos oradores e responde taxativamente que não: "a arte não é o último reduto do humanismo".

"A arte é repetitiva, é derivativa, é muito conservadora e muito centrada nas ideias de que o artista é fantástico e uma pessoa excelente, muito humanista. Quando vamos ver, não é nada disso!", conclui.

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