"As obras são um pouco como os filhos. Não se pode dizer que se gosta mais de um filho ou de outro!"

O arquiteto João Luís Carrilho da Graça é o convidado desta semana do programa Começo de Conversa.

Enquanto avança a última fase do arranjo do espaço entre o Terminal de Cruzeiros de Lisboa e a Estação Sul Sueste, o arquiteto tem já a atenção virada para a adaptação de um espaço em Belém para acolher a coleção de arte do pintor Julião Sarmento.

Estes serão decerto materiais para futuras edições do agora lançado Guia de Arquitetura que contem uma seleção de obras de João Luís Carrilho da Graça construídas em Portugal, um livro de bolso que nos ajuda a passear pelo trabalho do arquiteto nascido em 1952 em Portalegre.

No lançamento do Guia editado pela A+A, no CCB, Marcelo Rebelo de Sousa analisou e elogiou o seu trabalho, que admira há décadas, e anunciou que ai condecorá-lo - e a Eduardo Souto de Moura - com a mesma comenda que atribuiu a Álvaro Siza Vieira, a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública. No Jardim das Oliveiras, um pequeno pavilhão mostra um vídeo de Nuno Cera sobre três obras do arquiteto.

O Guia mostra como já construiu em todo o país, desde o coração de Lisboa, de que os casos mais recentes são o Campo das Cebolas e o Terminal de Cruzeiros. Este último é candidato ao prémio Mies van der Rohe.
Foi nomeado, faz parte de uma lista de 40 edifícios em todo o mundo e é o único português. [Foram entretanto anunciados os finalistas do prémio e o Terminal não está incluído]

Pensar nesse prémio mete um bocadinho de nervos?
Não, porque sigo aquela ideia do Jorge Luis Borges, que dizia que era já uma antiga tradição escandinava nomearem-no sempre para o Prémio Nobel e nunca o ganhar. Nunca lho deram. Nunca penso em prémios, sinceramente.

E no entanto é premiadíssimo. Até é Prémio Pessoa.
Não penso nisso.

As obras incluídas são todas construídas em Portugal mas houve uma seleção. Feita por si?
Por mim e pelos organizadores. São mais de 50 obras e eu terei mais mas algumas já não estão em bom estado, já não revelam o fundamental, o que é um problema que os arquitetos têm. Por outro lado, estou muito contente porque ultimamente inúmeras câmaras e proprietários de obras mais antigas que ou não chegaram a ser bem construídas ou estão em mau estado têm vindo ter comigo para as restaurar.

Isso é uma novidade?
Até há pouco tempo ninguém me tinha falado nisto.

Pode indicar quais, em concreto?
Uma das obras que nunca refiro mas que é das primeiras que fiz e que me dava um desgosto enorme, um pequeno mercado municipal no Gavião[distrito de Portalegre]. Adorava aquele projeto e a obra foi mal executada, acrescentaram janelas, não acabaram, e aquilo doía-me imenso. Agora a câmara veio ter comigo para recuperar o mercado e estou muito contente. Vou mudar-lhe um bocadinho programa, fazer um centro de atividades, vai ser impecável.

Os mercados hoje já não são o que eram, têm mais atividades?
Exato, hoje o mercado pode ser mais pequeno. E eles querem fazer uma espécie de creche, de empresas, de atividades, numa das alas do mercado, é interessante. O presidente da Câmara de Campo Maior também me telefonou para intervir na piscina, uma obra de que gosto imenso e que teve uma história muito atribulada durante a construção - vários empreiteiros, umas falências, aquele tipo de coisas. Apesar disso sobrevive e está no Guia e é das que eu mais gosto. A Câmara decidiu fazer uma intervenção de restauro ali.

Isso corresponde a um reconhecimento do papel do arquiteto hoje em Portugal?
Eu adorava mas não tenho a certeza. Por exemplo, o arquiteto Álvaro Siza, que eu aprecio imenso, numa pequena introdução que faz ao guia da obra dele, começa por dizer que não percebe por que se faz o guia porque as obras dele estão abandonadas, maltratadas. Os arquitetos sofrem sempre muito com o estado e o destino das suas obras. A primeira vez que vi o Álvaro Siza, andava ainda na escola, fui ao Porto visitar uma das obras dele.

Andava na escola de Lisboa?
Sim. Fui visitar uma obra de que gostava imenso, uma intervenção dele em Caxinas, eu conhecia-a das publicações em bom estado. Quando cheguei lá, já estava um bocado transformada mas consegui abstrair e gostei imenso à mesma. E depois disse-lhe, quando falei com ele logo a seguir. E ele respondeu-me: "Ainda não tive sentido de humor suficiente para voltar lá". Porque realmente é preciso. Ele refere, e eu também às vezes tenho essa sensação, que custa voltar às obras porque as alterações doem sempre um bocadinho.

Às vezes não há alterações que fazem sentido, que pode pensar "poderia ter feito isto assim"?
Isso infelizmente ainda nunca me aconteceu. Vou referir o exemplo da Escola de Comunicação Social de Lisboa. O meu objetivo era fazer salas de aula, auditórios, escritórios da administração, da direção, o mais universais possível e depois conjugá-los. Eu dizia até: a sala de aula deve ser semelhante a uma sala de aula dos anos 1950, das que aparecem nos filmes americanos, coisas relativamente simples que funcionassem. A maneira como tudo está organizado é que faz a diferença, porque estava a responder à cidade, à situação particular em que estava construído, com imenso ruído da Segunda Circular, com aquela pequena colina que é lindíssima ao lado. Tudo se organizava em função da resposta à cidade ou àquela zona periférica, mas cada elemento era standard, utilizei caixilhos de fábrica e outras coisas. Nunca tive a ideia de desenhar de uma ponta à outra um edifício e tento sempre ir o mais possível ao encontro dos programas. Quando comecei a dar aulas, dizia aos meus alunos que imaginassem que o projeto que estavam a fazer entrava em ruínas e "o que é que se salva, o que é que as pessoas continuam a conseguir ler, o que é que interessa?" Tenho esta preocupação de imaginar as coisas no tempo e tentar fazê-las uma certa indiferença em relação aos percalços. Numa pequena introdução que fiz ao Guia, recordo uma entrevista que dei há imensos anos em que dizia que não há beleza humana que não tenha preocupações com o estado da pele. E o estado da pele é um bocado um edifício. Nós tentamos apostar numa série de coisas e depois às vezes esse equilíbrio rompe-se e isso é pena.

Pelos vistos, as coisas estão a mudar?
Estou muito contente e acho que é o caminho.

As obras do Terminal de Cruzeiros e do Campo das Cebolas têm uma enorme importância no coração da cidade de Lisboa. Intervir com aquela afirmação numa zona tão importante dá uma responsabilidade especial?
Claro. Dá uma responsabilidade enorme que tenho sentido sempre, ainda não deixei de sentir e hei de continuar a sentir. Tentar perceber até que ponto tudo é verdadeiramente adequado. Quer uma obra quer outra foram precedidas de um concurso internacional com um júri extremamente qualificado. Eu apresentei - e por isso é que os concursos são interessantes para os arquitetos e os arquitetos investem imenso nisso - aquilo que me parecia que fazia sentido, quer num caso quer no outro. E depois o júri podia ou não ter escolhido. Felizmente para mim escolheu-me nos dois casos.

Foi uma coincidência, portanto, mas são projetos contíguos, que permitem tecer ali a cidade.
Um foi um concurso em 2010 e o outro foi em 2012. Por sorte consegui ganhar os dois.

Não foi só sorte, a sorte é uma coisa...
... que se constrói...

... e que dá muito trabalho. O presidente da Câmara de Lisboa disse-me que o seu trabalho de preparação para o Campo das Cebolas tinha sido tão exaustivo que poucas coisas tinham sido surpreendentes em tudo o que foi encontrado. Porque apareceram muitas coisas, muitos barcos. Dezasseis?
Sim, para aí. Os barcos são fotografados, desmontados, não têm presença direta lá. Mas nós fizemos um estudo histórico muito aprofundado e portanto conseguíamos prever todos os muros, todas as escadas, tudo aquilo que apareceu. Um dos momentos que mais me impressionou foi uma escavação preliminar, uma sondagem em que atingimos a areia da praia de há dois séculos que estava completamente imaculada. É impressionante, nem hoje parece que a areia da praia pode estar tão imaculada como aquela. Descobrimos uma areia virgem. Aquilo era uma praia.

Diz-se por vezes que os arqueólogos são os inimigos das obras porque quando começam escavações e se descobre alguma coisa tem de parar tudo. Não teve essa sensação?
Nunca tive essa sensação. O primeiro trabalho que fiz com uma incidência muito forte da arqueologia foi o restauro das Ruínas de São Paulo em Macau. Aí fez-se uma coisa interessante, as campanhas de escavação arqueológica antecederam muito a nossa intervenção. Quando fizemos o projeto e depois executámos a obra, já os arqueólogos tinham feito o seu trabalho. Outro caso semelhante a esse é o do Castelo de São Jorge. As arqueólogas estavam a trabalhar há 16 anos, fizeram um trabalho exaustivo, quando eu lá cheguei estava tudo descoberto e tudo visto. Mas há um mecanismo de que às vezes as pessoas não se apercebem e que faz todo o sentido mas complica um bocadinho. Por exemplo, no Campo das Cebolas eu gostaria de ter começado as escavações muito antes da obra, assim que se soube que tinha ganho concurso. Mas a lei não o permite, por razões a que se tem de atender: imagine que se começa a escavar e depois a obra não acontece - ficavam buracos por todo o lado.

Faz sentido.
Faz sentido mas é pena. Há sempre uma certa colisão entre a demora que é normal num trabalho de arqueologia, que tem de ser muito bem feito, e a urgência que há em fazer as obras a partir do momento em que tudo está decidido. Faz confusão por que é que não avança.

Já lhe devem ter dito isto muitas vezes, mas quem passa na Avenida Infante D. Henrique embirra com o muro do Campo das Cebolas. Há uma razão para ter construído assim?
Felizmente, é a única pessoa que tem essa opinião... estou a brincar.... Há muita gente que tem essa opinião. Mas vou explicar. Isto é relativamente simples. Quando do outro lado tudo aquilo for limpo...

Do outro lado?
Do lado da Doca da Marinha. Vão-se retirar ainda gradeamentos e edifícios meio abandonados e portanto aquilo vai ficar tudo aberto.

A própria Estação Sul-Sueste vai ser recuperada, não é?
Já está a ser recuperada. Mas antes vamos ter uma vista aberta sobre a Doca da Marinha e sobre o rio. E isso é um elemento importante, o muro passa a fazer quase costas para essa relação.

Portanto nós distraímo-nos. Em vez de olharmos para o muro, olhamos para o rio?
Mas há outro aspeto mais interessante. O parque de estacionamento está semi-enterrado, o que é muito agradável porque se desce umas escadas de um metro e tal e estamos no parque de estacionamento. E o parque de estacionamento refaz, por uma série de razões que vou tentar enumerar, uma relação direta com a cidade que é importante e raramente se consegue. Está muito perto da cota de cima; não podíamos escavar excessivamente, não só porque íamos enterrar muito o parque, o que não era, talvez, tão interessante, mas também porque temos a arqueologia - quanto mais escavássemos mais arqueologia, provavelmente, iríamos encontrar.

Porque é uma zona aterrada?
É ainda uma zona de aterro. O parque tem ventilação natural e aquele muro tem em cima uma guarda onde estão sempre pessoas. Por baixo tem uma grelha e o vento dominante, que é de norte, entra por aquele lado, desce e varre o parque todo. Mesmo no caso de um incêndio, a desenfumagem é feita desta maneira. Este conceito foi estudado pelo meu filho que é engenheiro físico, especialista nesta área. Se estivermos dentro do parque sentimos quase uma corrente de ar a atravessá-lo, é extraordinário.

Em vez de ser aquele ambiente pesadão e horrível de parque de estacionamento?
E com ventiladores que fazem barulho. Ali não, ali é tudo ventilação natural e iluminação natural. Claro que também tem iluminação artificial. O parque é relativamente natural, o que é uma coisa...

...rara, para não dizer inexistente?
Exatamente. Porquê? Parece que quando entramos num parque de estacionamento, ou quando se trata de deixar o automóvel, entramos num mundo qualquer que não nos interessa, que aceitamos que seja horrível, escuro, que não tenha ar de qualidade. Depois saímos e então já vale. Mas parece que o parque de estacionamento não faz parte da realidade da cidade e da realidade que nós vivemos. Ali a aposta era exatamente a contrária. Resulta que temos um desnível entre a cobertura do parque e a Avenida Infante D. Henrique de um metro e tal, mais aquele muro em cima. Podia ser uma guarda metálica e então as pessoas já viam qualquer coisa mais parecida com o que se lembravam. Mas existe para fazer este efeito de recolha do vento e fazê-lo atravessar o parque. Nós, arquitetos, estamos sempre a ser confrontados com isto, porque quando construímos estamos sempre a tapar qualquer coisa.

É inevitável.
Tive logo queixas na altura e não estava à espera, aquilo foi muito polémico. Podemos pensar que se vamos de carro na avenida, mesmo junto ao muro, vemos pouco do que costumávamos ver, mas só durante um minuto. Se viermos na outra faixa já vemos mais um pouco e se viermos no sentido contrário vê-se tudo.

É um convite a deixar o carro e ir lá ver?
Por exemplo. Nós não estávamos habituados, mas não há nada que tenha desaparecido, os edifícios continuam lá, está lá tudo.

Aquilo estava cheio de carros, caótico.
E agora está bastante simpático. E depois tem outra coisa. A cobertura do parque de estacionamento está inclinada em direção à Casa dos Bicos, o que dá um panorama sobre a cidade. Se o muro fosse uma guarda metálica, não cortava o ruído dos automóveis que passam, não dava aquela paz ao espaço que entretanto se criou, que tem uma vista lindíssima. A cidade é lindíssima naquela zona.

Quando começou a projetar o Terminal de Cruzeiros, não sabia que ia fazer também o Campo das Cebolas?
Não fazia ideia.

Ainda falta uma parte, como disse.
A Doca da Marinha.

Mas não houve ali um aterro por causa das obras do Metro?
Agra a Doca está um pouco assoreada mas não está aterrada. A que foi aterrada foi a Doca do Jardim do Tabaco, onde está construído o Terminal de Cruzeiros.

Daqui a quanto tempo fica pronta a obra de limpeza do espaço?
Um ano, penso, vai ser bastante rápido.

Volto ao Terminal de Cruzeiros porque ainda é pouco conhecido o facto de ter sido feito com uma mistura de betão e cortiça, que lhe dá uma cor um pouco acastanhada. Esta é uma caraterística sua, a capacidade de arriscar em novas tecnologias.
Tenho feito isso e até agora com um certo êxito. Já no caso do Pavilhão do Conhecimento dos Mares, na Expo"98...

...que hoje é o Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva...
... eu mostrava o projeto aos meus colegas em conferências e toda a gente gostava mas a opinião era que era temerário, porque não tínhamos tradição de obras em betão branco à vista. O vão não tem uma única junta de dilatação, só horizontal, tem uma dimensão enorme, e o prazo era curto. Tudo aquilo parecia...

...impossível?
...já não era corajoso, era temerário. Mas conseguiu-se e foi um enorme êxito até do ponto de vista do controlo de custos, pelo que me disseram na altura, unanimemente. Prazos e tudo, correu tudo super bem.

E foi uma inovação?
Relativamente.

Com a Cimpor?
Normalmente tenho trabalhado com a Secil. Já tinha feito uma outra intervenção com betão branco, uma experiência, e este, pelas dimensões, realmente era arriscado. Agora pensei nesta hipótese do betão com cortiça porque as fundações para o edifício estavam feitas quando aterraram a Doca, e havia uma grelha de pontos onde tínhamos de pousar os pilares. O engenheiros começaram a calcular o projeto, a estrutura, e disseram-me que o que tínhamos desenhado estava no limite da capacidade de resistência e de carga daquelas fundações. Os alçados tinham de ser leves. Já tenho feito - por exemplo no Castelo de S. Jorge aquele branco das casas islâmicas são painéis leves em Aquapanel - e eles sugeriam que fosse uma coisa nesse género e eu não queria. Tinha pensado várias vezes na hipótese de fazer betão com cortiça, que eu espero que tenha muito futuro, porque é um betão estrutural. Não é só adicionar a cortiça, isso já se fazia para encher zonas e ser mais leve. Ali nós temos uma resistência próxima de um betão normal e menos 40 por cento de massa.

De peso?
Sim. Portanto, aquele plano da frente está pendurado, tudo tem consistência, tem uma armadura, e é muito mais leve. Conseguiu-se fazer esses dois alçados com este sistema que foi arriscado mas resultou.

Tem novos projetos com inovação?
Quando comecei a trabalhar com um arquiteto de quem gostava imenso, que vinha do Movimento Moderno, Artur Pires Martins [Lisboa, 1914-2000], ele surpreendia-me porque conseguia, com a experiência que tinha, arriscar coisas que não me passariam pela cabeça, que não conseguia controlar, não se tinha ainda sensibilidade para a resistência dos materiais. Sempre gostei imenso disso, de explorar os sistemas construtivos, experimentar com segurança e levá-los até aos seus limites. Tenho feito isso.

Não tem neste momento mais projetos com cortiça?
Não, mas queria construir era um pavimento interior, porque tem um toque maravilhoso, uma espécie de betonilha mas macia.

E deve fazer menos ruído.
Não prometo, mas se andar descalço ou se tocar é maravilhoso. Foi apresentado no Mosteiro dos Jerónimos, numa exposição feita pela experimentadesign - que foi quem tomou a iniciativa, a Guta Moura Guedes fez este desafio. Nesta exposição estavam pessoas, creio que da Amorim, que diziam: "Isto não se pode pôr em pavimento? É maravilhoso." Ainda não experimentei. Gostava de experimentar fazer um edifício com paredes de betão que se vejam no interior e no exterior. Isso já existe mas de uma forma um bocado estúpida. Há um edifício lindíssimo na Alemanha feito por uma arquiteta japonesa que tem paredes de betão, relativamente estreitas, e depois tem uns tubos lá dentro que metem calor ou frio. Mas o calor ou frio está sempre a perder-se, e do ponto de vista ecológico e energético é bastante discutível. O que se pode fazer com este betão é uma parede com uma certa dimensão que isola e é resistente. Podemos usar o betão tal como gostamos de ver a pedra e de imaginar, embora a pedra não tenha estas características infelizmente.

Falou da questão ecológica e energética, que é hoje um tema central da nossa vida. Os edifícios podem ser mais ecológicos?
Claro que sim. Quando estas preocupações começaram a aparecer, os arquitetos e engenheiros que as levaram mais longe obtinham resultados ótimos mas edifícios feiíssimos. E isso afastou um pouco as pessoas. Neste momento está-se a conseguir reequilibrar e a ter soluções muito interessantes em termos de arquitetura e que correspondem a esses parâmetros. Todos temos essas preocupações e no mundo em geral começam a estar regulamentadas. Em França, por exemplo, é obrigatório. Em Portugal também, mas é um país tolerante e às vezes é obrigatório mas agora está suspenso, coisas deste género. Mas lá irá.

Vou voltar ao tema que abordámos há pouco, a intervenção numa zona central que estava degradada - o Campo das Cebolas e Terminal de Cruzeiros. Não foi só construir o edifício, refez todo aquele espaço, não foi?
O aspeto que eu acho mais interessante no terminal de Cruzeiros, até porque está a falar de ecologia e também tem a ver com isso, é o seguinte: logo na proposta de concurso, eu propunha um parque verde urbano ao longo do rio naquela zona. Em Alfama não há praticamente jardins. Esse espaço verde era o que o terminal dava à cidade.

Uma contrapartida?
Sim, porque o Terminal vai perturbar. Lembro-me de ir às gares do Pardal Monteiro, mesmo quando não havia navios e estavam abandonadas, há sempre um cafezinho, um sítio onde se pode ir, e sempre pensei que deveria haver um percurso público - que há, que chega àquela espécie de loggia onde agora existe um cafetaria que tem uma rampa e depois pode ir até à cobertura. Isso era uma contrapartida que o terminal dava à cidade, uma forma de se relacionar não só com os viajantes, que são os clientes, mas também com a cidade em geral. É o edifício mais pequeno dos que apareceram no concurso e fiz sempre questão, cumprindo todas as áreas e o programa que pediam, de só climatizar as zonas onde fosse completamente indispensável. Deixa logo sair as pessoas quando chegam dos navios, quase diretamente para o exterior.

Um arquiteto que tem obra feita desde 1990 pode dizer de qual gosta mais?
Há pouco tempo numa entrevista também me perguntaram isso e eu disse que as obras são um pouco como os filhos. Imagine o que é ter cem filhos! Há sempre coisas a acontecer, estamos sempre preocupados - os filhos ainda mais, naturalmente, e são muito menos. Não se pode dizer que se gosta mais de um filho ou de outro, mesmo que isso eventualmente aconteça. A maior parte das pessoas nem quer pensar nesse assunto. E com as obras é a mesma coisa, não posso estar a eleger uma.

Qual é a próxima? Podemos até partir do princípio de que a próxima é a preferida, ou a que lhe ocupa mais o tempo neste momento.
As próximas são sempre as que nos entusiasmam mais. Estou a fazer um projeto muito interessante para um espaço museológico para a coleção do Julião Sarmento. É um espaço da Câmara de Lisboa, perto do Centro Cultural de Belém, que a câmara vai ceder. Eu estou a fazer o projeto de arquitetura, o Julião Sarmento cede a sua coleção que é completamente extraordinária, esteve exposta em parte no MAAT e na Fundação Carmona e Costa. Ele foi, ao longo da vida, trocando obras com outros colegas e comprando. Estou muito entusiasmado.

Em Belém, do lado do rio?
Não, é a seguir a uns armazéns onde era o ateliê do Lagoa Henriques, um pavilhão azul, onde já foram a ModaLisboa, a experimentadesign. O edifício antigo é muito bonito, estou a adaptá-lo e é um desafio interessante. Fiz poucos espaços para arte, fiz a [galeria] Módulo, logo ao princípio, mas oiço sempre os curadores e os artistas a queixar-se das condições dos edifícios que se constroem para expor arte. Vou tentar ultrapassar essas reservas.

É o novo desafio?
E estou a fazer outros projetos. Ganhei há muitos anos um concurso internacional para a renovação da Escola Alemã [de Lisboa]. Já fiz lá algumas intervenções que correspondiam a esse concurso. E agora telefonaram-me para mais intervenções. Estou muito contente porque gosto sempre de continuar, acabar, melhorar, e também gosto de que as pessoas me chamem. Fiz esse projeto na sequência do concurso e aparentemente eles estão contentes, aquilo correu bem.

Há os grande projetos, e temos o caso do Terminal de Cruzeiros ou a Escola de Comunicação Social, e há outros que parecem mais pequenos. Mas não requerem menos carinho nem menos empenho?
Às vezes até exigem mais atenção. É evidente que o projeto de um edifício grande é mais complexo, mas muitas vezes as pequenas intervenções dão mais trabalho.

Com este Guia, é possível andar pelo país a descobrir as suas obras. Há um turismo de arquitetura?
É verdade. Há uma história muito engraçada de um senhor que tinha uma casa com uma intervenção do arquiteto Álvaro Siza, muito visitada, e ele já estava um bocado farto. Alguém bateu à porta e perguntou: "Isto é a casa do doutor não sei quantos?" "Não, é a casa do arquiteto Álvaro Siza!"

Já está em terceira edição o Guia de Álvaro Siza e já com a capela que ele construiu ao pé de Lagos.
Exato, estou com imensa vontade de ir visitar e pelo que já vi é lindíssima.

Entretanto, há uma exposição das suas obras em Portalegre.
As obras feitas no Alentejo - Évora, Flor da Rosa, Campo Maior.

A Flor da Rosa é um sítio mágico?
Na altura em que estava a fazer o projeto, alguém me perguntou qual era o meu edifício preferido em Portugal e eu disse que era o Mosteiro da Flor da Rosa. Tem uma história extraordinária, é lindíssimo e, curiosamente, embora um pouco contra as regras, como está com o granito todo à vista, tem uma unidade matérica e uma força através das várias épocas completamente única e singular. Desde o princípio, quando me desafiaram e convidaram para fazer esta intervenção, há 30 anos, lembro-me de pensar que a intervenção era muito delicada. Os Monumentos Nacionais já tinham feito algumas obras, algumas bem, com as quais estou completamente de acordo, outras tinham ficado em betão à vista, com um ar de "work in progress". E eu peguei um bocadinho nisso. Pensei que tudo o que era mais difícil de introduzir dentro do convento tinha de passar para fora, e então há um grupo de 13 quartos que estão fora.

Numa ala nova?
Uma ala com vista para norte. E mesmo as questões da climatização, por exemplo, as cozinhas, mais secundárias em relação ao espaço da Pousada, também estão fora. Dentro do edifício tentei que o público pudesse percorrer os espaços mais interessantes e importantes, que os que visitaram o mosteiro antes desta intervenção têm na memória, e que penso que conseguem reencontrar. Há poucos quartos dentro do mosteiro, sempre em zonas que estavam degradadas, tentando que elas fossem recuperadas, e apesar de podermos considerar que os quartos não são privados, porque qualquer pessoa pode ir visitar, pode alugar, as zonas principais do convento ficaram disponíveis. Há lá uma pequena zona museológica e podemos estar no restaurante, no bar, no claustro, em todas aquelas zonas mais públicas.

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