Braga quer resgatar Maria Ondina do esquecimento

Começa esta quarta-feira, no Museu Nogueira da Silva, em Braga, um colóquio para lembrar aquela que foi uma das escritoras mais marcantes da literatura portuguesa contemporânea.

Organizado pelo Museu Nogueira da Silva e pelas universidades do Minho e Católica, o II Colóquio Internacional "Maria Ondina Braga: viagens e culturas em diálogo" é oportunidade para se reunirem especialistas portugueses e estrangeiros em torno da obra de Maria Ondina Braga (falecida em 2003), marcada pelas viagens que a escritora realizou pelo Mundo.

Uma mulher "solitária, discreta, enigmática, desconcertante" e detentora de um "olhar perscrutador", como nos descreve Isabel Cristina Mateus, autora do livro "Viajar com Maria Ondina". "Eu vim para ver a Terra", anunciava, aliás, a escritora no primeiro livro que lançou, em 1964.

"O que eu acho mais interessante na escrita dela é, de facto, o paradoxo entre a mulher solitária, tímida e discreta que tem a coragem de, em tempos do antigo regime - quando a mulher não era, sequer, autorizada a sair de casa sem permissão do marido, confinada ao recato do lar -, sair sozinha, garantir a sua própria autonomia e viajar, atravessar oceanos, palmilhar continentes e estabelecer-se nesses países. Não era nada esse anjo recatado da burguesia", destaca Isabel Cristina Mateus.

Nascida em Braga, onde concluiu os estudos secundários, Maria Ondina foi estudar para Inglaterra e, depois, França, antes de viajar para Angola, em 1960, onde foi professora, partindo no ano seguinte para Goa. Com a invasão das tropas indianas, Maria Ondina vai para Macau. Em 1964 fixa residência em Lisboa, voltando mais tarde ao Oriente (1982), como professora convidada da Universidade de Línguas Estrangeiras de Pequim.

"Foi também uma grande embaixadora da língua portuguesa no mundo", sublinha Isabel Cristina Mateus, lamentando que o país não lhe preste o devido reconhecimento.

"O país é muito ingrato para com os seus. Maria Ondina Braga ficou um pouco esquecida, talvez pela sua imagem discreta, talvez por ter saído bastante tempo do país, por não gostar de certos meios literários, mas a verdade é que ela está a ser redescoberta e, sobretudo, estudada e lida no estrangeiro", salienta.

Na sua obra habitam "todos os espaços, geografias e gentes" que conheceu, na procura de se descobrir a si mesma e ao outro, sem nunca produzir um juízo moral sobre o que o outro tem de diferente.

A escrita de Maria Ondina Braga é, pois, "uma lição de tolerância, particularmente importante num mundo de muros, cada vez mais dominado pela ideia de intolerância e por nacionalismos exacerbados. Creio que, neste momento, a leitura da sua obra é muito positiva porque nos obriga a reler o nosso mundo de hoje de uma outra forma", remata Isabel Cristina Mateus.

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