Escritores vão "Virar a Mesa do Avesso" com Fernando Alves

Na sexta-feira e no sábado, em Baião, no lugar de Tormes, onde Eça de Queiroz se inspirou para escrever "A Cidade e as Serras", dois escritores viram cozinheiros.

Joel Neto e Nuno Camarneiro responderam ao convite para confecionar uma ideia que partiu do jornalista da TSF Fernando Alves. O presidente da Câmara de Baião, Paulo Pereira, acolheu a ideia, que, acredita, "vai saciar a alma e o palato", juntando à volta da mesa "o grande Fernando Alves, um chef na arte da literatura e um escultor de palavras".

Assim, quem for ao Restaurante de Tormes vai poder comer, beber e meter uma colherada na conversa. Na sexta-feira, com Joel Neto ("Cozinhamos com regularidade e com gosto e comemos também com regularidade e com gosto") e, no sábado, com Nuno Camarneiro ("A cozinha dá-me o que a literatura não dá, uso os outros sentidos e não apenas a cabeça, a parte mais racional e mais poética").

Olhemos então para o menu. Joel Neto traz dos Açores a gastronomia da Terceira: sopa do Espírito Santo, alcatra terceirense, queijada Dona Amélia e pastéis de feijão.

"A devoção do Espírito Santo, em que se pratica a partilha" vai estar na sopa, antes de chegar ao prato a alcatra, "que é uma variação da chanfana, já que a Terceira foi povoada em parte por habitantes da Beira Alta".

Nas sobremesas, aprecie-se a queijada, uma "criação para oferecer à rainha Dona Amélia quando ela visitou a ilha na companhia do rei D. Carlos".

Já havemos de voltar à Terceira, à "Vida no Campo" de Joel Neto, à troca da cidade pela serra. Antes disso, vale a pena espreitar as propostas de Nuno Camarneiro. "Como o Joel levava a cozinha da Terceira, que é imbatível, e, sendo eu da Figueira da Foz, se quisesse levar a minha gastronomia teria que ser peixe fresco e não fazia muito sentido ir para Baião fazer peixe", justifica o autor.

Ora, já Eça dizia n""A Cidade e as Serras" que um "silêncio se abatia sobre a mesa, como uma névoa, quando a tia Vicência, providencial, se desculpou para com Jacinto de não ter peixe! Mas quê!, ali na serra era impossível": "Então achei que valia a pena pegar na minha experiência, uma vez que vivi em França e na Itália, e fazer um encontro dessas cozinhas com alguma tradição portuguesa. É por isso que vou fazer um risotto de cabidela e um bacalhau à Livornesa".

E, outra vez, "A Cidade e as Serras", em que, às páginas tantas, se pede "um soberbo cozinheiro português, mas que soubesse trufar um peru" e fazer essas "coisas simples da cozinha de França"!...

"Já vivi nas serras e na cidade. Em França vivi num chalet no meio da montanha, depois vivi em Florença, depois na Praia da Barra, em Aveiro, e agora estou em Lisboa. Já passei por meios mais rurais e meios mais citadinos. A mim o que me acontece - e essa tensão está muito presente na obra "A Cidade e as Serras" - é que nunca conseguimos ter o melhor de tudo num só sítio. Se estamos na cidade ansiamos pela tranquilidade e pelo ar do campo e se estamos no campo sentimos falta de alguma agitação, de ir ao teatro, de ir à ópera, essas coisas de que Eça também fala", explica o autor de "Debaixo de Algum Céu".

Na obra, Eça de Queiroz relata a história de Jacinto de Tormes, que troca a civilização parisiense pela serra. Perde comodidade, ganha felicidade.

Joel Neto, que regressou aos Açores depois de ter vivido em Lisboa, identifica-se com a história. Garante que ele próprio também viu subir o seu índice de felicidade. Mas também assistiu a uma "redução dos confortos, porque o campo dá muito trabalho. Especifica: "Viver numa casa de campo, ter jardins, cães, bricolage a todo o tempo para fazer, lutar contra a força dos elementos, que nos Açores são absolutamente avassaladores em muitos momentos do ano".

O autor de "A Vida no Campo" conta que há uns tempos deu uma entrevista em que disse "Eu sou feliz" e notou o ar espantado do jornalista. "Não porque não haja muita gente feliz, mas porque deixou de se confessar a felicidade, de se professá-la, e eu voltei a acreditar nela com este regresso ao campo".

Joel Neto, Nuno Camarneiro e Fernando Alves vão ser felizes à volta da mesa. E em Baião há de beber-se o vinho verde, aquele que Eça dizia que caía do alto, "da bojuda infusa verde - um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo".

O preço por pessoa para estes jantares-tertúlia confecionados por Joel Neto e Nuno Camarneiro é de 30 euros.

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