Património

A judiaria de Leiria é agora um livro aberto

O novo Centro de Diálogo Intercultural de Leiria conta a história da tipografia dos Ortas, no tempo em que judeus, cristãos e muçulmanos coabitavam nas margens do rio Lis.

A Rede de Judiarias de Portugal tem uma nova atração, o Centro de Diálogo Intercultural de Leiria. Inaugurado há meio ano, já recebeu mais de 8 mil visitantes. Ali se conta a história da tipografia dos Ortas - e de um livro, impresso no ano de 1496, que veio a ser imprescindível durante os descobrimentos marítimos portugueses.

Entre cristãos, judeus e muçulmanos, em Leiria, há um enredo que se esconde nas sombras do tempo, agora iluminado pelo Centro de Diálogo Intercultural, a funcionar na Casa dos Pintores e na renovada Igreja da Misericórdia.

Um projeto "particularmente interessante", porque a Igreja da Misericórdia é construída no século XVI "para apagar a memória da antiga sinagoga" que ali existiu, no mesmo local, afirma Vânia Carvalho, arqueóloga do Município de Leiria.

No Centro de Diálogo Intercultural de Leiria, a viagem começa no século XIII e é um acto de amizade, através da palavra escrita.

"Não apagando, nem branqueando a memória, procura perceber de que modo é que numa povoação como Leiria coabitaram diferentes comunidades, com diferentes religiões", numa iniciativa que escolhe "o livro para falar de cultura", salienta Vânia Carvalho.

Religiões do livro na Leiria medieval e o livro enquanto fio condutor do regresso ao bairro judaico, onde, em 1496, se produziu um dos principais trabalhos tipográficos da época em Portugal.

"Com a expulsão dos judeus de Espanha, a família dos Ortas vem para Portugal e traz, porque era relativamente fácil trazer, uma prensa tipográfica, e monta-a em Leiria. Tinha um know-how, uma capacidade de produção, que lhe permite produzir livros que não servem apenas a comunidade judaica, mas toda a outra, e portanto, um dos livros mais importantes aqui impressos é o Almanach Perpetuum, do Abraão Zacuto, que muito viajou, que foi utilizado com o astrolábio melhorado nas viagens das descobertas, se lhe quisermos chamar assim, portuguesas", refere a técnica superior da Câmara Municipal de Leiria.

Nas ruas estreitas entre o rio Lis e a encosta do Castelo, a judiaria rapidamente se impôs entre as maiores do país. Cinco ruas na parte baixa da vila e um papel fundamental no quotidiano ao longo dos séculos XIII, XIV e XV, que o trabalho do investigador Saul António Gomes coloca a descoberto, com o nome dos judeus que habitaram a malha urbana de Leiria, respetivas profissões e casamentos. Pesquisas que deambulam entre vestígios, mas permitem perceber como viviam, de facto, estes leirienses. Com a recriação do ofício tipográfico e do modo de vida na Casa dos Pintores e da cultura e da fé na Igreja da Misericórdia.

"Eram ourives, eram físicos, e os físicos eram particularmente importantes, os médicos, os cirurgiões, porque não serviam apenas a comunidade judaica, serviam a outra, bem como os comerciantes, os vendedores, mas também eram de tudo o resto, tinham que ter açougues, tinham que dar suprimento a todas as necessidades da vida quotidiana", nota Vânia Carvalho. "E viviam paredes meias com a igreja de maior dimensão da vila baixa, a de São Martinho, nem sempre bem, de tal forma que a judiaria era cercada e tinha portas, houve momentos menos tranquilos".

Muitos permaneceram em Leiria durante a Inquisição e entre os cristãos novos sobressai o nome de Francisco Rodrigues Lobo, o poeta da cidade, falecido em 1621, em circunstâncias misteriosas. É um destaque da exposição multimédia na Igreja da Misericórdia, que utiliza textos religiosos para construir uma mensagem de paz entre judeus, cristãos e muçulmanos.

Um processo "muito complexo", o de conseguir "que todos concordassem com os mesmos textos sobre as religiões", mas ao mesmo tempo um processo que permite "convidar a uma reflexão sobre o que os aproxima e o que os distingue", sublinha Vânia Carvalho.

O Centro de Diálogo Intercultural de Leiria já recebeu mais de 8 mil visitantes, em meio ano, está também preparado para acolher concertos e outros eventos culturais. A entrada é livre.