Património

As irmãs de Estremoz que herdaram a tradição dos bonecos de barro

Começaram por aprender a mexer no barro há 45 anos, com o objetivo de ganharem a vida, mas acabaram por segurar nos braços a responsabilidade de manter uma tradição com três séculos.

Maria Inácia começa por esticar o barro antes de desenhar a saia do próximo "Amor Cego", um dos membros do figurado de Estremoz, com os olhos vendados. Barro sobre barro e sem recurso a cola, os bonecos lá ganham forma num artesanato à moda antiga, que utiliza apenas o canivete e o teque. O resto é feito com as mãos da artesã, como manda a tradição.

É por estas e por outras que os bonecos de Estremoz se foram celebrizando, numa arte popular em terra que foi de oleiros e que remonta a 1770. Os bonecos eram feitos por mulheres, quase sempre, até ao início do século 20, quando a extinção os ameaçou.

Foi preciso esperar cerca de 30 anos para que o figurado em barro voltasse a ver luz do dia. O lisboeta Caetano Augusto da Conceição fundou a Olaria Alfacinha, tendo sido o neto, Mariano da Conceição, a pegar na tradição bonequeira à boleia de Ana das Peles, uma resistente artesã que ensinou as técnicas ancestrais a Sabina Santos. Seria ela a mestre de Maria Inácia, vai para 45 anos

Hoje Inácia e Perpétua lideram a casa "Irmãs Flores", onde se trabalha ao vivo, diretamente da mesa de mármore para o forno, antes das figuras pintadas serem expostas nas prateleiras da loja no centro de Estremoz.

É por ali que se encontra Ricardo Fonseca. À primeira vista está apenas a enrolar pequenas bolas de barro, do tamanho de berlindes, mas em segundos passa o teque e desenha uma cara. Será para mais um dos presépios que tanta saída conquistaram nos últimos anos. À sua frente Ricardo tem uma quase finalizada imagem de Rainha Santa Isabel, com o ramo de rosas entre os braços, já de manto e coroa. É outra das figuras mais procuradas, tal como a Primavera e o Amor Cego, imagens de Carnaval que remontam ao século 19.

A má notícia é que Ricardo, na casa dos 30 anos, é hoje o artesão mais novo de Estremoz. Não admira que a terra receie pelo futuro dos seus bonecos de barro. Inácia lamenta que nem as escolas olhem para a arte e já sugeriu essa aposta junto dos professores. Mas sem sucesso.

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