História

Espetáculo recria cerco dos militares a Lourosa

Em 1964, a população de Lourosa juntou-se para impedir a transferência do padre Damião. O protesto originou uma intervenção das autoridades. Duas jovens morreram, vitímas do tiroteio. Este sábado, a peça "In Memoriam - Cerco a Lourosa" recorda o trágico acontecimento.

No mês de outubro de 1964, a população de Lourosa, concelho de Santa Maria da Feira estava agitada. A diocese queria transferir o padre Damião, muito popular na terra, e os fiéis juntaram-se no largo da Igreja para impedir a saída do pároco.

Maria Bolena tinha na altura 17 anos e recorda as palavras de ordem: "Vamos para o arraial. Querem roubar-nos o padre Damião". A popularidade do padre Damião, diz Maria Bolena, era fácil de explicar. Mudou hábitos muito antigos. Ia ao futebol, visitava as fábricas de rolhas de cortiça, procurava os fiéis.

Uma semana depois do início dos protestos as autoridades decidiram intervir. Centenas de militares montaram um cerco em Lourosa. Maria Bolena confessa que não sabe "onde foram buscar tanta guarda. Eram mais de 700".

Na manhã do dia 14 de outubro de 1964 ninguém entrava ou saía do largo da Igreja. A população gritava e os militares dispararam. Duas jovens morreram e 17 pessoas ficaram feridas.

Arminda Santos, na altura grávida de cinco meses, foi atingida na anca depois de ter sido alertada para o risco que corria; "o meu marido disse-me antes de sair: Arminda, não saias de casa. Olha que vai haver uma guerra".

Os factos são agora recordados no espectáculo "In Memoriam - Cerco a Lourosa". A peça ao ar livre conta com a participação de 150 pessoas e de várias instituições da terra.

Lígia Lebreiro da companhia Persona, autora e encenadora, diz que o cerco de 1964 ainda é silenciado por muitos; "É um assunto que ainda está um bocado recalcado. Há muita gente que nos pergunta: então agora passados mais de 50 anos vêm mexer nestas coisas. Quase a desincentivar-nos".

Para evitar polémicas os textos do espetáculo resultaram das memórias dos habitantes de Lourosa, defensores do padre Damião e vitimas do cerco de 1964. O espetáculo deste sábado começa às 21:30. As entradas são gratuitas.