Fernando Namora faria 100 anos. "A sua obra tem de ser reposta, para encontrar novos leitores"

Comemora-se esta segunda-feira o centenário do nascimento de Fernando Namora. Em Condeixa-a-Nova, onde há uma casa museu em sua homenagem, até o Presidente da República lembrou o autor, um dos maiores, segundo a Associação Portuguesa de Escritores.

As reverências realizadas esta segunda-feira em Condeixa-a-Nova, na casa museu Fernando Namora, assinalam o dia em que o autor completaria 100 anos, e são merecidas, de acordo com o presidente da Associação Portuguesa de Escritores.

A sua poesia "é assim como uma vida que vagueia pelo mundo,/ por todos os caminhos do mundo, desencontrados como os ponteiros de um relógio velho". Escrevia assim Namora, e José Manuel Mendes lamenta que sobre a sua obra tenha aflorado a sombra. A obra "foi, de algum modo, esquecida". Tem de ser "reposta, para encontrar novos leitores". "Isso é o que verdadeiramente importa na celebração de um autor, no centésimo aniversário do seu nascimento", analisa o representante da Associação Portuguesa de Escritores, à conversa com Fernando Alves, jornalista da TSF.

De "um dos maiores da nossa História literária do século XX", ficou a obra como um símbolo de "permanência". José Manuel Mendes frisa que o médico e escritor foi publicado em muitas línguas. "Fernando Namora foi o escritor português mais traduzido do mundo, antes de José Saramago, depois de Ferreira de Castro. Teve um êxito editorial muito grande. Foi conhecido e reconhecido por toda a parte", refere o também autor.

Mas, hoje, Namora perfila entre os menos recordados, tal qual a sua obra antevia, um "homem disfarçado", apesar de ter sido "pai" de uma vasta prole literária. "Era necessário para as gerações que se seguiram, tendo-o, todavia, como referência, ir por outros caminhos", justifica José Manuel Mendes, confiante, no entanto de que o seu legado não pode apagar-se das páginas da literatura portuguesa.

Com um olhar atento sobre os outros e as comunidades com quem tinha ligações de raiz, o trabalho como médico e os "retalhos" da profissão ["Retalhos da vida de um médico"] ficaram "sempre com ele no seu modo de olhar o mundo, como diagnóstico, como intervenção, e, sobretudo, como proximidade e solidariedade", explica o presidente da Associação Portuguesa de Escritores.

Mas a obra "distancia-se do médico e da medicina muitas vezes, para ir ao encontro dos outros, das pessoas de cada dia, das pessoas de cada lugar", e os seus livros são povoados por imaginários da vida real em Lisboa e Condeixa-a-Nova.

Na casa museu Fernando Namora foram guardadas provas de que o poeta mora num lugar privilegiado nas letras portuguesas. Faz parte da geração de 40, na qual se inserem Carlos Oliveira, Joaquim Namorado e João José Cochofel, e movimentou a literatura a partir do "interior de uma escrita, do interior do realismo". "Documentos importantes de atos públicos, objetos pessoais, como a máquina de escrever, a caneta, dactiloscritos, textos revistos, medalhas, pintura própria, porque ele era pintor nas horas vagas", compõem uma biografia intimista dos 40 anos de livros, dos 100 anos de Namora.

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