Cultura

Flores para combater o sofrimento do Holocausto

Quando se assinalam 80 anos da "Noite de Cristal", que determinou o início da "Solução Final", adotada pelos nazis, a TSF entrevistou a escritora Isabela Figueiredo, que termina por estes dias uma residência literária em Berlim.

É um dos museus mais visitados da cidade, parte dele em céu-aberto, com um pedaço do muro de Berlim que se mantém praticamente intacto, e uma exposição sobre o Holocausto. É o local que Isabela Figueiredo escolheu para uma conversa com a TSF, um ponto da cidade que ainda tentou evitar, mas que acabou sempre por descobri-la.

"Parei aqui inicialmente quando cheguei a Berlim porque saí do metro e os meus caminhos vieram dar aqui. Passei aqui e disse: «Não quero ver isto, não quero ver desgraças, nem terror». Mas, nos dias seguintes, os meus caminhos traziam-me sempre aqui", conta a escritora.

Entrou e percebeu que, por mais que estude e que procure, dificilmente irá algum dia entender o que foi a "Solução Final".

"Percebi que tudo o que estudei sobre a Segunda Guerra Mundial não é suficientemente eloquente para entender tudo o que aconteceu na Europa com o III Reich", sublinhou a autora das obras "Caderno de Memórias Coloniais" e "A Gorda".

"Foi uma viagem histórica inesquecível para mim. Estávamos no momento das eleições no Brasil e lembro-me de ouvir um discurso do Hitler, traduzido para inglês, e eram as mesmas palavras do Bolsonaro, os mesmos argumentos, os mesmos apelos", descreve Isabela Figueiredo.

Esta sexta-feira assinalam-se os 80 anos da "Noite de Cristal" ou "Pogromnacht" (noite de perseguição aos judeus), em que foram queimadas mais de mil sinagogas na Alemanha e Áustria e destruídas centenas de lojas de judeus.

Na noite de 9 de novembro de 1938, dezenas de judeus foram espancados até à morte nas ruas e milhares foram presos e enviados para campos de concentração. Era o início da "Solução Final" levada a cabo pelo regime Nazi.

A escritora olha para um jardim de pedras onde o verde vai tentando ganhar algum espaço, com pequenas ervas.

"Houve a intenção do arquiteto que não nascesse jamais, neste sítio, que foi a sede da Gestapo, alguma planta e alguma flor. Ele deve ser mantido em tábula rasa. Tenho questionado muito isso. Todo o sofrimento causado com o Holocausto merecia que agora nascessem flores, nós precisamos de flores, de alegria", realça a escritora portuguesa.

Isabela Figueiredo ganhou a 3.ª edição da Bolsa de Residência Literária, promovida pela Embaixada de Portugal em Berlim e pelo Camões Berlim.

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