documentários

Organização do DocLisboa denuncia pressões diplomáticas ucranianas e turcas

Ucranianos opõem-se à exibição de um filme que consideram apoiar o terrorismo. Turcos queixam-se de textos

O DocLisboa denuncia, em comunicado, que existiram pressões diplomáticas sobre a programação da edição deste ano do festival. No texto divulgado, a organização do evento revela ter recebido "pressões de duas Embaixadas para retirar filmes do seu programa, ou rever textos nos seus materiais. Em particular, um filme da Competição Internacional e textos relativos ao foco Navegar o Eufrates - Viajar no Tempo do Mundo. Ninguém na equipa da Apordoc tem memória de tal ter acontecido antes, e vemos isto como um sinal preocupante".

À TSF, o festival de documentários revela que são as representações turca e ucraniana em Portugal quem tentou censurar a programação. No caso da Ucrânia, explica Cíntia Gil, a embaixada enviou uma carta acerca do filme "Their Own Republic", da autoria de "uma realizadora russa, que retrata um batalhão pró-russo, na autoproclamada República Popular de Donetsk". Segundo a representação ucraniana, este filme é "uma espécie de apologia do terrorismo e viola e contraria tudo o que são as indicações e posições do governo português e da comunidade internacional".

O outro foco de pressão terá sido a representação turca, que levanta problemas em relação às descrições de dois dos filmes que serão exibidos.

Explica Cíntia Gil que o problema está relacionado com "um filme de 1915, feito por soldados no contexto do genocídio arménio" e um outro "bastante controverso, que esteve banido na Turquia por mais de 30 anos, acabando por passar uma cópia censurada" no país. Segundo a representante turca, o problema não reside na exibição dos filmes, mas sim nos textos usados para apresentar os filmes, nos quais se lê "genocídio arménio" em relação ao primeiro filme e "aniquilação do povo curdo" no que diz respeito ao segundo.

Cíntia Gil não põe de parte denunciar esta situação ao governo, lembrando mesmo que em 16 edições do festival, nunca aconteceu nada assim. "Não há memória de nenhum caso destes em ninguém com quem eu tenha falado, da equipa", garante, acrescentando mesmo que "é uma questão acerca do lugar da liberdade de expressão, artística e de opinião de qualquer artista ou instituição cultural".

Leia o comunicado do DocLisboa na íntegra:

"O Doclisboa recebeu nestes dois últimos dias pressões de duas Embaixadas para retirar filmes do seu programa, ou rever textos nos seus materiais. Em particular, um filme da Competição Internacional e textos relativos ao foco Navegar o Eufrates - Viajar no Tempo do Mundo.
Ninguém na equipa da Apordoc tem memória de tal ter acontecido antes, e vemos isto como um sinal preocupante.

O Doclisboa foi criado pela Apordoc - Associação Pelo Documentário no sentido de promover e divulgar a cultura do cinema documental, na sua liberdade, diversidade e força testemunhal. É neste espírito que a actual equipa do festival trabalha, honrando-o.

Assim, vemos com extrema preocupação estas pressões, vindas (oficial e oficiosamente) de representantes internacionais aqui em Portugal. Isto revela, no nosso entender, que existe já a convicção de que um festival de cinema (ou, depreendemos nós, qualquer outro projecto cultural e artístico) está aberto a reposicionar o seu discurso ou a reconsiderar o seu programa devido a interesses políticos e geo-políticos externos. Este comunicado serve para deixar claro que não: o Doclisboa é inteiramente livre, autónomo na sua programação, e esta equipa continuará a lutar para que assim seja. Apenas temos como parceiros entidades que respeitam os valores que também defendemos, e que são os valores da democracia, da livre expressão, e da justiça.

Naturalmente, um festival como o nosso mostra filmes que não são de modo algum consensuais - filmes que, pela sua implicação com o mundo e com o presente, tratam assuntos complexos e muitas vezes pouco debatidos ou mesmo escamoteados pelos poderes políticos em diferentes países e contextos. Para além disso, existem questões nas quais acreditamos que a neutralidade não é possível e, embora não explicitemos publicamente as mesmas, tal pode ser compreendido pela nossa programação, os nossos textos, e, evidentemente, pelas embaixadas com quem escolhemos manter contacto. Acreditamos que o nosso trabalho não é neutro. E, embora estes acontecimentos nos preocupem e entristeçam, são também sinal de que estamos a trabalhar coerentemente com aquilo que defendemos.

Assim, convidamos todas as embaixadas em Portugal, bem como todas as instituições governamentais ou não a, caso tenham críticas ou questões com a nossa programação ou com as nossas publicações, compareçam aos debates públicos que fazemos sobre os filmes durante o festival e ao longo do ano, e exerçam, junto do público, o seu direito à indignação, à crítica, ao diálogo. Apenas assim a nossa programação pode gerar debates produtivos e abertos. Caso não estejam dispostos a tal, abstenham-se de tomar quaisquer diligências para condicionar o festival, já que tal será infrutífero.

Vivemos num país onde ainda é possível programar um festival de cinema que, com apoios públicos e privados, exerce a sua liberdade artística de forma plena. Sabemos bem quanto esta situação é ameaçada noutros países, cada vez mais. Lutaremos sempre para que em Portugal a criação artística seja sempre livre. Os realizadores, produtores, colegas e espectadores são os nossos companheiros e merecem o nosso respeito e integridade. O Doclisboa é um território de discussão e não de censura."

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