"Parecia que, ao percorrermos estas ruas, estava aqui o Carlos e o João da Ega também"

Para celebrar os 130 anos da primeira publicação da obra de Eça de Queirós, a TSF acompanhou uma visita guiada pela Lisboa d'"Os Maias" com alunos de uma escola da Lourinhã.

Várias alunos da Lourinhã vieram até Lisboa conhecer as ruas e os recantos por onde Carlos da Maia e João da Ega deambulavam e observavam um país "chic a valer".

Raquel Policarpo é guia deste grupo mas faz também papel de narradora, historiadora e até mesmo professora. Quem anda a ler "Os Maias" provavelmente já descobriu a grande revelação do livro, mas Raquel Policarpo anuncia logo: "Hoje vai ser um grande spoiler para toda a gente, eu vou-vos dizer tudo o que vai acontecer".

A visita começa pela Praça dos Restauradores e vai descendo até ao Rossio. "Porque é que Eça escolheu o Rossio para o consultório [de Carlos da Maia]? Porque no século XIX esta praça começa a ser novamente embelezada e começa a perder aquele caráter negativo que a inquisição lhe tinha dado", conta a guia.

É também no Rossio que o grupo se entusiasma com a casa onde Eça de Queirós viveu algum tempo com os pais. A placa na fachada, por cima Café Nicola, não engana. Os alunos aproveitam para tirar fotos para as redes sociais.

"Sei mais ou menos localizar a ação no espaço do Rossio mas a parte mais interessante até agora foi ver onde Eça de Queirós viveu e o local de inspiração que ele tinha em sua volta para contar a sua história", explica Beatriz Caixaria, aluna do 11º ano da Escola Secundária Doutor João Manuel da Costa Delgado.

Beatriz Caixaria está na primeira fila. Leu o livro todo em menos de dois meses. "Eu adorei os Maias. Ao contrário de muitos adolescentes, eu acho que é uma obra fantástica".

A aluna considera que Eça de Queirós deixou uma "marca enorme" na literatura portuguesa. "Não só a crítica mas a visão dele sobre Lisboa é uma crítica muito em dia. Evoluímos no sentido de ciência e a nível de urbanização mas, como pessoas, os portugueses continuam mais ou menos os mesmos. Nós importamos muita civilização e nem sempre nos fica à medida, fica curta nas mangas", referiu.

O livro tem fama de ser longo e difícil de ler, um mito que Beatriz já comprovou estar errado. "O que me disseram, antes de começar os Maias, era que havia 100 páginas de descrição acerca de um portão e de uma cadeira, e de um Ramalhete. Embora gostasse de ler, fiquei um bocado assustada com uma descrição tão comprida e tão massuda. É completamente mentira", esclareceu.

A viagem ao passado continua e chega até ao Chiado. "Neste topo de rua, entre a casa Havaneza e a Brasileira, era aqui o centro da tal vida boémia que vos falei. Há inclusive uma frase muito engraçada no romance que dizia: 'Na esquina, vadios em farrapos, fumavam. E na esquina defronte, na Havaneza, fumavam também outros vadios de sobre casaca, politicando"".

Um desses vadios e personagem preferida de muitos leitores é João da Ega. Com um pescoço esganiçado, pernas de cegonha e um vidro entalado no olho, Ega encanta pelos comentários sarcásticos. "É sem dúvida a personagem que tem as melhores frases e as melhores respostas e opiniões", diz Inês Pereira. A aluna do 11º E explica que os insultos cómicos de João da Ega dão "ao leitor mais vontade de ler" a obra.

João Canelas, da mesma turma, já tem opinião formada sobre o romance de Eça: "Foi dos melhores livros que já li!".

A viagem por Lisboa ajuda a reviver algumas memórias do livro e até criar outras. "Parecia que, ao estarmos a percorrer estas ruas, estava aqui o Carlos e o Ega a percorrê-las também", confessou João Canelas.

A arqueóloga Raquel Policarpo faz visitas literárias e históricas por Lisboa através da Time Travellers, uma agência de animação turística com passeios e atividades dedicados à descoberta da Arqueologia e História.

"A História e a Arqueologia não têm de ser aborrecidas. E são coisas interessantíssimas para se partilhar e através da História e da Arqueologia se pode mostrar o passado, o presente e o futuro de uma cidade. Os nossos passeios refletem isso", explica.

Raquel Policarpo revela que a ideia do percurso sobre "Os Maias" surgiu como sugestão de uma professora de português mas tem feito sucesso entre turistas portugueses e brasileiros.

A obra da história da família Maia foi publicada no Porto em 1888. Muitos cenários que inspiraram Eça estão à disposição para uma viagem no tempo 130 anos depois.

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