Tony Carreira: a estrela maior da música que era despedido antes dos discos serem editados. Veja o vídeo

Da fria aldeia das beiras ao topo do mundo, passando por uma infância pobre em Portugal, o emprego na fábrica de enchidos e o difícil arranque no mundo da música. A caminho dos 30 anos de palco, Tony Carreira recorda a sua vida.

Tem três espetáculos agendados - para os quais já não há bilhetes - e um novo disco a caminho. É assim que António Manuel Mateus Antunes, mais conhecido como Tony Carreira, coroa uma carreira de sucessos que já leva 30 anos. Mas nem sempre foi assim.

De imigrante em França ao sucesso em palco, a vida em sempre foi fácil. No programa "Começo de Conversa", com Ana Sousa Dias, Tony Carreira assume que "agora trabalha mais do que antes", ou se calhar "mais porque está idoso", diz entre risos, e continuar a dedicar-se ao seu público "com muito amor e entrega".

E continua a adorar dar espetáculos. "Dá-me muito prazer porque eu adoro o palco. Ir para estúdio não me dá, nem de perto nem de longe, o mesmo prazer que dá cantar as mesmas canções em palco", assumiu o cantor. Mesmo que haja falhas, sobressaltos, imponderáveis: "A imperfeição é que torna a coisa verdade." A carreira, quase com três décadas, é desejada desde criança - uma vontade ilustrada na música "Sonhos de Menino". É a sua vida, não quereria outra, mas assume que lhe traz uma certa dor. E medo, mesmo ao fim de tanto tempo.

Saber que o público comprou bilhetes para o ver, acalma-o, "mas é assustador" chegar ao palco e ver tanta gente. Os seus concertos arrastam multidões: "Dei concertos na Avenida da Liberdade com 700 mil pessoas", relembra o cantor, elogiando o seu público que "é simplesmente fantástico".

"Nestes anos todos tivemos, pontualmente, um problema técnico aqui e ali. Faltou energia [durante um concerto] na Praça do Comércio, transmitido em direto, e o público pega na canção à capela... é de arrepiar", recorda.

Por isso, mesmo quando sofre, é "uma dor boa". Vem do medo de "gravar uma canção e o público não gostar, de gravar um disco e o público não aderir, de construir um grande concerto e o público sair de lá sem ter gostado".

Assume que na relação com os fãs há um lado de sedução a que não é indiferente. "Eu gosto disso", mas diz que nunca se considerou um sex-symbol. Mesmo quando recebeu dois prémios que lhe garantiram esse estatuto, não compareceu para os receber. "Acho ridículo", não tem nada a ver consigo, garante.

Público feminino... mas não só

Apesar de uma plateia maioritariamente feminina durante os seus espetáculos, Tony Carreira garante que, dentro dela, existem "mais homens do que se possa pensar".

E, para o justificar, relembra um episódio antigo, passado durante uma viagem de avião, quando uma mulher se aproximou para lhe dizer : "Eu não gosto nada de si, mas o meu marido idolatra-o." Nesse mesmo dia, o cantor ofereceu dois bilhetes ao casal para um espetáculo. Atualmente, "ela continua a não ser fã" e ele é um dos grandes amigos de Tony Carreira.

Uma vida que dava um filme

Tony Carreira nasceu em 1963, em Armadouro, uma aldeia na Beira Baixa, "rude e fria, muito, muito fria", perto da Serra da Estrela: Lá viveu os primeiros anos, sem água ou eletricidade. Confessa que não sentiu falta de nada disso porque nem sabia que essas coisas existiam.

"Dentro de bastante pobreza", guarda "recordações muito bonitas" da aldeia que abandonou aos 10 anos para se juntar aos pais, em França.

Ao pai, imigrado logo após o seu nascimento, seguiu-se a mãe, tinha o cantor 6 anos. Até completar 10 anos, Tony Carreira ficou a cargo de uma avó paterna e de um tio.

Chegou a França de comboio, "à grande" para os padrões da época, e assenta numa vila pequena, nos arredores de Paris, com cerca de seis mil habitantes, que lhe pareceu "gigantesca".

"O que eu conhecia de Portugal era a minha aldeia" e admite que se deslumbrou: "Tinha semáforos, havia televisão, tinha coisas que não havia na minha aldeia." Por isso, recorda a mudança como "um dos dias mais bonitos da minha vida".

Houve dificuldades, claro, como a língua - questão que ficou ultrapassada em seis meses - e outras mais complexas. "Sentia-me completamente fora de contexto, as roupas eram diferentes, eu era um sírio lá... digo isto com muito carinho."

Do que viveu, ficou a lição: "Todos nós, em Portugal, devemos fazer o esforço de receber pessoas, porque os portugueses sempre foram para fora, e foram bem recebidos e respeitados. Devemos apoiar, como já fomos apoiados, quem vier de fora com as dificuldades que tivemos há 40 anos, e com vontade de construir uma vida."

"O pior empregado da fábrica"

Apesar de "muito bom aluno" sem se esforçar, Tony Carreira não prosseguiu os estudos.

"O meu pai achou que, como o meu irmão não tinha estudos, então, eu também não teria", conta, assumindo que também não estava muito inclinado para essa opção.

Quanto aos filhos, também cantores, Tony assume que teria gostado que tivessem estudado, mas, ao mesmo tempo, "as pessoas têm é de ser felizes e se o que eles querem é música, que o façam e se amanhã mudarem de ideias, que façam outra coisa".

Com os estudos suspensos, Tony Carreira trabalhava numa indústria de enchidos onde admite ter sido "o pior empregado da fábrica".

"Eu estava ali porque tinha responsabilidades. Entrei na fábrica com 16 anos, tinha de ganhar algum dinheiro para comprar umas guitarras, depois casei muito cedo, com 21 anos, e aos 22 tinha a responsabilidade de um filho, do Mickael."

Apesar das responsabilidades, o cantor "vivia com um sonho muito forte, que era sair dali".

Início difícil na música

A primeira aproximação à música dá-se ainda em Armadouro, durante as festas de Verão, com o "DJ da altura que andava de carrinha com um altifalante ligado". Na cabeça do pequeno Tony, o gosto pela música ganhava forma.

"Este homem deve ser o homem mais feliz do mundo, está sempre a ouvir música", lembra-se o cantor de pensar.

Ainda em Armadouro, em casa do tio, Tony utilizou um rádio para ouvir pela primeira vez Amália Rodrigues, a sua cantora preferida. Esse rádio, agora vintage, permanece até hoje consigo, guardado na sua própria casa.

Cantar, só depois de chegar a França, influenciado por vários artistas que ia ouvindo - Joe Dassin, Claude François, Charles Aznavour e Johnny Halliday. Mas foi a ouvir Mike Brant que Tony decidiu comprar uma guitarra e aprender a tocar.

O artista recorda o início conturbado da sua carreira a solo.

"Entre 1988 e 1993, para além dos 10 anos que estavam para trás, houve só fracassos, e se calhar ainda bem que assim foi", conta, confessando que depois dos seus 30 anos, e embora continuasse a tentar, já não tinha "esperança de que viesse a acontecer".

"Fui despedido das editoras todas, às vezes antes do disco ser editado", porque ou os discos eram um fracasso, ou alguém antecipava que o viessem a ser.

"Podia não ter acontecido"

A mudança estava para breve e aconteceu quase como obra do acaso. "As nossas vidas podem mudar radicalmente por uma decisão." Para o bem e para o mal.

A viragem chegou quase sem aviso. "Há uma nova editora em Portugal que quer lançar-se no mercado e, não tendo meios para contratar artistas já de nome e com peso, decidiu apostar em jovens. E um deles fui eu, e tive a sorte de, logo no primeiro disco, ser disco de ouro".

A partir do "Sonhos de Meninos", nunca mais parou. Confessa que é "extremamente exigente na parte profissional" e que o processo criativo exige esforço. Dois meses e meio ou três de isolamento quase total, a compor, escrever, gravar.

"Assumi o que tinha de assumir há 10 anos"

Tony Carreira não se recusa a falar de nada. Nem mesmo do caso do plágio que, garante, está encerrado e ficou no passado.

"Estamos a falar de canções muito lá para trás, mesmo - uma delas de 1994, foi há 24 anos. Por inexperiência, a música ficou muito próxima da melodia original e é claro que eu não posso fugir a essa responsabilidade. E para não fugir a essa responsabilidade, assumi o que tinha a assumir há 10 anos. Sentei-me com os autores e ficou tudo resolvido."

Há ainda um processo em tribunal, mas conta que se trata de um caso totalmente diferente. "Há sete, oito anos, um senhor lança um disco de covers meus", com uma capa que induzia o público em erro. "Nem com óculos conseguia ver o nome dele". E Tony Carreira agiu. Conta que a pessoa em causa o processou, perdeu e prometeu vingança. "Veio para a praça pública porque o meu nome é tão mediático...a falar novamente de plágios". Diz que, depois disso, assistiu "com tristeza" a debates contaminados pela história anterior, sem que os intervenientes soubessem do que estavam a falar.

Contratempos que não desarmam o artista que construiu uma carreira a pulso, que ao fim de 30 anos de palco continua imparável, e que tem pelo público e pela sua música uma dedicação extrema. Alguém duvida? Os quatro milhões de discos vendidos falam por si.

Ouça a entrevista de Ana Sousa Dias a Tony Carreira, no programa "Começo de Conversa"

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