A estratosférica Seleção Nacional de 2000

Não bateu, a nível de resultados, a Seleção de 2016, que venceu o Europeu em França, nem a Seleção de 2004, que em solo luso foi à final, mas foi, para muitos, a mais eloquente e sedutora. E, como se diz muitas vezes, se o futebol fosse régua e esquadro provavelmente seria a que mais direito teria a ser feliz. Falamos da Seleção que disputou o Euro 2000, a última grande competição de Seleções do anterior milénio. Dela constavam os portistas Vítor Baía, Jorge Costa, Capucho e Secretário, os leões Rui Jorge, Beto e Luís Vidigal, um quarteto de luxo que jogava na Série A Italiana, na altura a Liga mais badalada, composto por Paulo Sousa (Parma), Rui Costa (Fiorentina), Fernando Couto e Sérgio Conceição (ambos da Lazio), a armada que jogava em Espanha composta por Sá Pinto - Real Sociedad, Paulo Bento - Oviedo, Pauleta - Deportivo - e a estrela maior da companhia Luís Figo, que representava ainda o Barcelona, Dimas (que jogava na Bélgica, no Standard Liège), Abel Xavier, do Everton, Costinha (que representava o Mónaco), os guardiões Quim e Pedro Espinha (que militavam os eternos rivais do Minho, respetivamente SC Braga e Vitória SC), Nuno Gomes, que representava o Benfica, e ainda o específico caso de João Vieira Pinto, que acabara de ser dispensado sem contemplações das águias, em mais um dos episódios grotescos da era Vale e Azevedo.

Era a oportunidade dourada para a denominada «Geração de Ouro» conquistar um título, que seria inédito a nível do futebol sénior, e fazer, por isso, história absoluta pelas cores nacionais, trazendo já os retumbantes sucessos dos Mundiais sub-20 de Riade, em 1989, e Lisboa, em 1991.

Humberto Coelho, atualmente vice-presidente da FPF, era o timoneiro de uma Seleção que contava com «filhos» dessas conquistas. João Vieira Pinto fizera parte das duas grandes conquistas dos "meninos de Queiroz", Figo, Rui Costa, Abel Xavier e Jorge Costa marcaram presença em 1991 e Couto e Paulo Sousa estiveram na de Riade, dois anos antes.

No auge das suas carreiras, após uma temporada 1999/00 de grande nível, estavam reunidos os ingredientes necessários para um cocktail explosivo na Bélgica e Holanda, países vizinhos onde se realizou o grande certame.

Portugal obteve o passaporte para o, na altura, restrito lote de 16 Seleções, por intermédio de uma fase de qualificação em que até ficou em 2.º lugar, mas que acabou por dar acesso direto ao Europeu. Os restantes segundos foram ao «play-off» para discutir as restantes quatro vagas, entre as quais a Inglaterra. Inglaterra que foi, precisamente, o primeiro adversário da Seleção lusitana. No dia 12 de junho, em Eindhoven, os onze escolhidos pelo selecionador nacional Humberto Coelho entraram amorfos no Philips Stadion e Paul Scholes, aos 3", e Steve McManaman, aos 18", indiciaram pesadelo luso...

... Mas foram apenas indícios. Num assomo de orgulho, qualidade e magia lusitana, a sua figura de proa Luís Figo deu, literalmente, um pontapé no que seria um início de reviravolta verdadeiramente idílico. Um golo estrondoso que galvanizou a equipa, que teve seguimento, ainda no primeiro tempo, por intermédio de João Vieira Pinto, com um fabuloso golpe de cabeça, historiando, assim, uma 1.ª parte absolutamente apoteótica!

O jogo, porém, estava longe de estar terminado e, já no segundo tempo, o maestro Rui Costa pegou na batuta e viu Nuno Gomes, tendo este disparado um míssil nas barbas (ou no bigode...) de David Seaman. 2-3 para Portugal, numa reviravolta absolutamente assombrosa que provocou um terramoto de proporções bíblicas no continente europeu, pressagiando sensacional campanha...

Cinco dias depois, diante da Roménia, foi a vez de Costinha administrar a qualificação portuguesa no último minuto do tempo de compensação, não sem antes, com as segundas linhas, os portugueses aplicarem receita de três golos sem resposta à sempre poderosa Seleção Germânica. Cortesia do atual técnico do FC Porto Sérgio Conceição, que, completamente endiabrado, deu autêntico recital em Roterdão.

Nos quartos-de-final, foi a vez da Turquia sentir a fúria lusitana. Grandes nomes como Rüştü e Hakan Şükür não foram suficientes para atemorizar um conjunto que parecia indestrutível. Domínio das operações lusitanas, que culminou com um 2-0 sem espinhas, tendo Nuno Gomes, em grande forma, bisado.

E seguiu-se a potentíssima França, às costas do mitológico Zinedine Zidane, que dois anos antes se havia tornado campeã mundial. Um duelo de gigantes em Bruxelas, no dia 28 de junho, que Portugal iniciou da melhor forma. Nuno Gomes (quem mais?!), de pé esquerdo, abriu hostilidades e colocou a nação portuguesa em apoteose. A exibição superlativa da equipa nacional, porém, não foi suficiente para ultrapassar uma Seleção que, até 2016, foi madrasta para as cores nacionais. Thierry Henry empatou e, perto do minuto 90, Abel Xavier teve o golo do triunfo na cabeça, mas Fabien Barthez, com uma defesa por instinto, negou a final ao conjunto de Humberto. No prolongamento, como se de um fado à lusitana se tratasse, foi o mesmo Abel Xavier a tirar o golo aos Bleus, mas com a mão, lance que originou a ira dos jogadores portugueses e respetiva grande penalidade assinalada.

Zidane, incólume a toda a polémica, não perdoou no frente a frente com Baía, golo, nessa época de ouro, que sentenciou as esperanças nacionais em obter algo maior, numa final de epopeia triste para o coração dos portugueses, mas, na mesma medida, sobrecarregado de orgulho de uma Seleção que encantou. Como diria Camões, "coisas impossíveis, é melhor esquecê-las do que desejá-las". Esta Seleção, porém, enfrentou o impossível e assumiu um desejo que, fosse por sina ou não, não se concretizou. Mas concretizou rima com sonhou...

André Rodrigues (A Economia do Golo)

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

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